Um Deus amigo que se faz moradia entre nós
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
"O Verbo veio morar em meio a nós" é uma expressão que resume de forma profunda o mistério da encarnação revelado no Evangelho de João 1,14, que afirma que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós", e aponta para Jesus Cristo como a manifestação visível do Deus invisível, cumprindo as promessas do Antigo Testamento de que o Senhor estaria com o seu povo, não apenas simbolicamente no Tabernáculo ou no templo, mas de maneira plena e pessoal. Ao assumir a natureza humana, Deus não apenas se aproximou da humanidade, mas compartilhou suas dores, limitações e experiências, revelando seu amor, graça e verdade, e oferecendo reconciliação e salvação por meio de sua vida, morte e ressurreição.
Dando continuidade a sua série de reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "Um Deus amigo que se faz moradia entre nós":
"Inspirados nas palavras do Papa Leão XIV, em suas audiências de quartas-feiras, que faz memória ao Concílio Vaticano II, estamos refletindo ainda sobre a Constituição Dogmática Dei Verbum. O livro do profeta Baruc aponta que “a Sabedoria apareceu sobre a terra e no meio dos homens conviveu” (Br 3,38). Na época do livro de Baruc (início do séc. II a.C.), a Sabedoria ainda não tem um rosto humano. É “o livro dos decretos de Deus, a lei que subsiste nos séculos” (Br 4,1), em resumo, a Palavra-Revelação que Deus comunicou aos filhos de Abraão (cf. Br 3,37), para que eles por sua vez a dessem aos filhos de Adão. Convivendo com seu povo, Deus quis entreter-se e conversar com todos os homens. Será Jesus Cristo em pessoa essa Sabedoria de Deus que apareceu definitivamente sobre a terra, será Ele “a nova tenda de reunião” da esperança mosaica: “E o Verbo (a Palavra) se fez carne e veio morar (palavra eskenosen, que literalmente traduzida dignifica ‘plantou sua tenda’) entre nós e nós vimos a sua Glória” (Jo 1,14). Pois é justamente esse o lema da Campanha da Fraternidade do Brasil deste ano de 2026: “Ele veio morar entre nós”, justamente tirado do prólogo Joanino (Jo 1,14).
A campanha quaresmal que tem grande tema “Fraternidade e Moradia”. Habitar, na tradução literal é “plantar tenda”. Isso é significativamente expressivo para nossa temática da Campanha da Fraternidade no Brasil. Plantar tenda sugere uma morada provisória, pois aqui não temos morada permanente e definitiva. Moramos em cabanas provisórias, como balduinos, sem fixar nessa vida nossa pátria duradoura. Somos peregrinos como Abraão. Nossos irmãos de rua, que vivem ao relento, sequer possuem uma tenda, um teto, e moram por vezes em abrigos itinerantes e improvisados, sem fixar sua moradia num terreno fixo. É essa lacuna apontada nesse ano pela Campanha da Fraternidade do Brasil.
Exploremos o lema da Campanha na sua etimologia. A palavra grega eskenosen (ἐσκήνωσεν), utilizada no Novo Testamento (especificamente em João 1,14), significa literalmente "armou sua tenda", "tabernaculou" ou "fez morada/habitou". Há uma análise etimológica e um significado bíblico interessante. A origem, a raiz desse termo eskenosen deriva de skenoo (σκηνόω), que significa "acampar", "habitar em uma tenda". A raiz nominal vem de skenos (σκήνος), que significa "tenda" ou "tabernáculo". Há aqui um significado Teológico muito profundo. No contexto de "E o Verbo se fez carne e ‘eskenosen’ entre nós" (João 1,14), a palavra faz uma referência direta ao Tabernáculo (tenda) do Antigo Testamento. Há, portanto, um sentido de "Tabernacular". Diferente de oikeo (habitar em uma casa permanente), eskenosen transmite a ideia de uma habitação temporária, um acampamento, indicando que Deus, na pessoa de Jesus, assumiu a fragilidade humana (como uma tenda frágil) para viver no meio da humanidade. Não seria também essa tenda frágil habitada ao relento de mais de 3 milhões de brasileiros que vivem no rua, sem casa e habitação digna?
O comentário da nota da Bíblia de Jerusalém, ao pé da página desse versículo joanino, descreve assim: “A presença invisível e temível de Deus na Tenda ou no templo da antiga aliança e a presença espiritual da Sabedoria de Israel, pela lei mosaica, segue-se pela encarnação do Verbo, a presença pessoal e sensível de Deus entre os homens”. Como dissemos no programa anterior: Jesus, como mestre que ensina, não traz mais a justiça atemorizante do Sinai, mas faz um brando e sereno sermão da montanha, ou melhor, diálogo amigável de um mestre que ensina sentado junto à multidão, com brandura, serenidade, falando amigavelmente às pessoas, que agora estão próximas, não afastadas mais ao pé da Montanha como no Antigo Testamento, lá como um Deus inacessível e temível ao povo. Há agora, por meio de Jesus Cristo, uma nova pedagogia da manifestação de Deus, não numa justiça apavorante, mas numa misericórdia apaixonante.
Em Jesus Cristo, o rosto invisível de Deus tornou-se visível, e o que era encoberto ficou descoberto, sem coberta, sem acobertar mais o mistério escondido de Deus, ´porque Jesus revela definitivamente o rosto do Pai. Ele mesmo diz: “Filipe, quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,8-9; cf.1,18), e a Palavra de Deus se fez carne (1,14), tornou-se presença e diálogo amigável com os homens. Crer em Jesus Cristo significa, para o Evangelho de João, seguir Jesus, a exemplo dos dois primeiros discípulos dos quais se lê em João 1,38-39: “foram atrás de Jesus”, “viram onde ele morava” e “ficaram junto dele”.
Aliás, recordemos aqui outra Campanha da Fraternidade com o mesmo tema da moradia, de 1993, onde já havia a Igreja do Brasil contemplado esse tema com o lema: “Onde moras”, problematizando essa questão não solucionada da moradia. A pergunta daquela campanha há mais de 33 anos atrás, era inspirada quando alguns dos discípulos encontram a Jesus pela primeira vez e perguntam espontaneamente: “Mestre, onde moras?”. E o Senhor lhes responde: “Vinde e vede” (Jo1,37-38).
No lançamento da Campanha da Fraternidade na Arquidiocese de Porto Alegre, o jornalista e membro da Pastoral da Moradia, Elton Bozzetto disse que “se estamos repetindo a mesma problemática da Moradia em uma Campanha da Fraternidade nesse ano é porque o problema, a chaga da sociedade persiste e não foi resolvida”. A casa é a "porta de entrada" para outros direitos, como saúde e segurança.
Jesus se encontra com os seus primeiros apóstolos não é qualquer hora. É uma hora bíblico-teológica. A hora do encontro e da conversa com Jesus é “a hora décima”, isto é, a hora da realização e da arribação definitivas para a inquietante busca de todo homem. Aquele primeiro encontro dá início a uma prolongada história de diálogo entre Jesus e os discípulos, culminando com os discursos da última Ceia (Jo 13,17)."
*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
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