Arquidiocese de Porto Alegre cria Pastoral da Moradia na abertura oficial da Campanha da Fraternidade/26
Pe. Gerson Schmidt* - Porto Alegre
A Arquidiocese de Porto Alegre, na Quarta-feira de Cinzas, em sintonia com a abertura nacional feita pela CNBB, fez o lançamento da Campanha da Fraternidade (CF/2026), que tem como tema Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo1,14). A Igreja no Brasil, no tempo quaresmal, junto com as práticas quaresmais do tripé oração/jejum/esmola, desde 1962, ressalta uma lacuna social que precisa ser atendida, como chaga aberta da sociedade. Vem assim corresponder ao apelo da Constituição Sacrossanctum Concilium que diz: “A penitência quaresmal não deve ser apenas interna e individual, mas também externa e social” (SC, 110).
A Arquidiocese reuniu autoridades eclesiais e civis, representantes da imprensa e membros da comunidade e setores afins, marcando o início de um período de reflexão, mobilização e compromisso com o direito fundamental à moradia e à dignidade humana. O jornalista atuante no Movimento dos Focolares, Flávio Valente, conduziu o encontro como mediador e mestre de cerimônias. Acolheu as autoridades e público presente, agradecendo também a transmissão ao vivo e pelas redes sociais do evento à Rádio Católica Aliança FM 106,3. Nessa ocasião, houve também, de forma inédita e oficial, o lançamento da criação da Pastoral da Moradia na Arquidiocese, apresentando-se uma grande equipe executiva para esse importante trabalho social, que já caminhava há muitos anos, mas sem toda a articulação eclesial. Agora é pra valer! Dom Odair Miguel Gonsalves dos Santos, representando o Arcebispo Metropolitano Dom Jaime Cardeal Spengler, exclamou com alegria no final do encontro: “Está criada oficialmente a Pastoral da Moradia na Arquidiocese de Porto Alegre!”
O local do lançamento da Campanha e do anúncio da criação da Pastoral da Moradia foi a sede do Mensageiro da Caridade, onde funciona a Ação Social da Arquidiocese e são realizados atendimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade, espaço que traduz, na prática, o espírito da campanha deste ano, que propõe a moradia como base para o acesso a outros direitos e como condição essencial para o bem-viver. A Caritas Arquidiocesana de Porto Alegre atua há tantas décadas, mas sobretudo com eficiência, determinação e organização, atuou na enchente de 2024, maior catástrofe climática da história brasileira, que assolou todo o Estado do Rio Grande do Sul. A Caritas Arquidiocesana e Regional foi fundamental na organização e encaminhamento de toda a ajuda nacional e internacional, numa torrente de solidariedade jamais vista e presenciada no país.
Abertura da Campanha na Voz do Bispo Referencial
A abertura da Campanha da Fraternidade foi conduzida pelo bispo referencial para a Ação Sociotransformadora na Arquidiocese de Porto Alegre, Dom Odair, bispo auxiliar, e também contou com a presença dos bispos auxiliares Dom Darley Kummer, Dom Juarez Destro e Dom Bertilo Morsch, do coordenador de Pastoral da Arquidiocese Pe. Gustavo Hass, de outros sacerdotes, religiosos e lideranças atuantes nas pastorais sociais da Igreja. Dom Odair apontou na abertura: “o tempo quaresmal oferece a oportunidade de realizar um caminho interior, reconhecendo a fragilidade humana e abrindo-nos à experiência de nos curvarmos diante da gratuidade da misericórdia de Deus. O saudoso Papa Papa Francisco dizia, em uma reflexão sobre a Quaresma: É o tempo de voltar a respirar, é o tempo de abrir o coração ao sopro do Único capaz de transformar o nosso pó em humanidade. É o tempo não tanto de rasgar as vestes diante do mal que nos rodeia, mas, sobretudo, de dar espaço em nossa vida a todo o bem que possamos realizar, despojando-nos daquilo que nos isola, fecha e paralisa”. Lembrou um pensamento recente do Papa Leão XIV: “Quando desarmamos o nosso coração, crescemos na caridade”. Falou que a quaresma é “um tempo que nos estimula a dar maior atenção à Palavra por meio da escuta, assumindo uma postura interior de abertura e docilidade, pois Deus escuta o clamor dos oprimidos (Ex 3,7), tornando a escuta um caminho de libertação”. “Entrar nessa disposição interior de receptividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, percebendo os gritos da injustiça, do sofrimento e dos pobres em nossa realidade”, frisou. O bispo referencial da dimensão sociotransformadora fez memória de quando surgiu a Campanha da Fraternidade, própria da Igreja do Brasil. “A Campanha da Fraternidade nasceu na Quaresma de 1962, por iniciativa de Dom Eugênio de Araújo Sales, então bispo auxiliar da Arquidiocese de Natal (RN), com a finalidade de promover a fraternidade cristã e a solidariedade em favor da dignidade da pessoa humana. Em 1963, os bispos do Brasil, reunidos em Roma por ocasião do Concílio Vaticano II, decidiram que a Campanha fosse promovida em âmbito nacional. Em dezembro do mesmo ano, Dom Hélder Câmara, então secretário-geral da CNBB, comunicou essa decisão. Em 1964, realizou-se a primeira Campanha da Fraternidade em nível nacional, tornando-se expressão de comunhão, conversão e partilha na Igreja do Brasil”. Curioso lembrar que o primeiro tema a nível nacional da campanha foi este: “Lembre-se, você também é Igreja”, reflexo de toda a caminhada de comunhão, participação, protagonismo dos leigos e de sinodalidade do Concílio Vaticano II que acontecia em Roma (1962-1965), já em embrião para os tempos atuais.
Dom Odair ainda recordou um texto do Cardeal Odilo Pedro Scherer, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 14/02/2026, onde diz que não podemos fechar os olhos para o déficit habitacional em nosso país: “mais de seis milhões de famílias necessitam de uma moradia, outras vinte e seis milhões não têm uma moradia digna; vivem precariamente em cortiços, favelas, palafitas ou em lugares inadequados, longe de equipamentos públicos e sem as políticas públicas básicas. Entre esses, há cerca de 300.000 moradores de rua em nossas cidades”. No final de sua palavra disse: “Em nome do Cardeal Arcebispo Dom Jaime Spengler, declaramos aberta a Campanha da Fraternidade 2026 na Arquidiocese de Porto Alegre”.
Moradia como fundamento da dignidade humana
Representando o poder público, o vereador Pedro Ruas, relembrou a Campanha da Fraternidade de 1993, que já tocava nesse tema da Moradia. Diante da falta de moradia, disse, “nós temos mais de 11 mil imóveis desocupados por décadas só aqui no centro da capital, prédios antigos, e faltando moradia para as pessoas”.
O coordenador da Ação Sociotransformadora da Arquidiocese, Elton Bozzetto, que integrou a equipe nacional responsável pela elaboração do subsídio da Campanha da Fraternidade desde ano - que tem como lema “Ele veio morar entre nós (Jo1, 14) - destacou a centralidade do tema e o compromisso da Igreja com a dignidade humana. Discursou assim: “quando a gente fala em déficit habitacional, a gente não quer olhar os números. A gente quer ver rostos, pessoas e corpos que estão sendo violentados pela falta da moradia. E por isso que nós estamos todos comprometidos em vista da condição básica e fundamental para a dignidade humana”. “É tão bonita a frase do profeta Isaías que diz: ‘Construirão casas e nelas habitarão’. Quer dizer, aqueles que constroem têm acesso à moradia”, comentou. Enfatiza que o déficit habitacional no Brasil, estimado em 6 milhões de moradias, não é apenas um problema estatístico, mas uma "chaga social". Lembrou que em 1993, já havia a Igreja do Brasil contemplado esse tema com o lema: “Onde moras”, problematizando esse problema da moradia. A pergunta daquela campanha há mais de 33 anos atrás, era inspirada quando alguns dos discípulos encontram a Jesus pela primeira vez e perguntam espontaneamente: “Mestre, onde moras?”. E o Senhor lhes responde: “Vinde e vede” (Jo 1,37-38). Bozzetto disse que “se estamos repetindo a mesma problemática da Moradia em uma Campanha da Fraternidade nesse ano é porque o problema, a chaga da sociedade persiste e não foi resolvida”. A casa é a "porta de entrada" para outros direitos, como saúde e segurança. Não se trata somente de ter moradia, um teto, mas uma moradia digna, um lar, que é direito constitucional. "Não é apenas oferecer muros e teto, mas o aconchego de um lar... onde a dignidade humana é restaurada”, frisou. Bozzetto disse que “quando falamos em moradia, não estamos falando apenas na casa, estamos falando nas condições para as pessoas viverem dignamente”, pois mais de 26 mil famílias com casa no Estado estão sem banheiro, por exemplo. Exige-se não só um teto, mas condições dignas de viver.
Segundo Bozzetto, garantir moradia significa assegurar todos os demais direitos. “O que nós queremos é que a moradia seja a porta de entrada para todos os direitos, ou seja, para assegurar a dignidade para todas as pessoas. A moradia não é mercadoria, não é um produto que se vende para obter lucro. Ela é o espaço das relações e da construção da dignidade humana”, ressaltou. Até porque no artigo 6º da Constituição Federal está lá entre os direitos fundamentais o direito à moradia. E se está na Constituição Federal, é dever do Estado prover moradia digna para as pessoas. “E não dever do Estado vender moradia para as pessoas. Não, é garantir moradia para as pessoas. É por isso o conceito ampliado que a campanha da fraternidade trabalha neste ano”, dicursou o jornalista Elton.
Ele reforçou que “sem casa não há dignidade” e que a convocação da Igreja se estende a toda a sociedade. “Precisamos superar o conceito de vender casas e construir o conceito de assegurar para as pessoas esse espaço de relações, de cuidado e de bem-viver”, completou. Destacou algumas estatísticas alarmantes da realidade do Rio Grande do Sul: 284.000 de déficit habitacional, segundo dados do IBGE de 2025; moradas precárias 65.275; 34.000 coabitações; 16.729 pessoas em situação de rua; 26.209 famílias com casa sem banheiro; 20.276 famílias com esgoto cloacal ao céu aberto.
Mesa-redonda aprofunda debate sobre o direito à moradia
A representante do DEMHAB (Departamento Municipal de Habitação), assistente social Leonara Tonetto, representando a Prefeitura, como diretora de Projetos Sociais, em nome da diretora Sandra Machado, disse que o DEMHAB é o gestor da política de regularização e provisão habitacional no município, especialmente nas áreas de construção de interesse social. “Temos uma série de programas assistenciais que foram ampliados nas últimas gestões”. Há algumas iniciativas concretas, quando da calamidade pública, pois “vivemos recentemente uma catástrofe de grandes proporções em nossa cidade, que atingiu milhares de famílias nos territórios atendidos pelo DEMHAB”. Lembrou o “Programa Minha Casa, Minha Vida”, que tem hoje cerca de 2.250.150 famílias inscritas (cadastro acumulado), e estamos atualizando as inscrições. Outros programas contemplam o recolocação do projeto Copa 2014; remanescentes do Programa Parque Residencial; famílias em situação de risco de alagamento na região central; programa Minha Casa Minha Vida de demanda aberta, que nós temos 2.250.150 famílias. “Conseguimos negociar com o Governo Federal para que parte dos imóveis seja destinada tanto à demanda específica quanto à demanda geral do município”, disse. Retratou que o programa estadia solidária é da prefeitura, é uma bolsa auxílio e auxílio assistencial até a entrega da moradia definitiva.
Representando o Movimento Nacional de Luta pela Moradia, Cineriane Vargas da Silva ressaltou a importância de a Igreja assumir essa pauta e ampliar o diálogo junto às comunidades.
“É um tema fundamental, primeiramente porque a moradia é um direito básico. É a partir dela que garantimos todos os outros direitos”, afirmou. Destacou que a Campanha da Fraternidade leva o debate aos territórios e fortalece a organização popular. “É um processo de sensibilização, mas também de articulação. Pode gerar incidência nas políticas públicas e fortalecer a organização comunitária para a luta por direitos”, explicou. Cineriane alertou ainda para a gravidade do cenário atual. “Hoje, mais de um milhão e meio de pessoas estão ameaçadas de despejo, e quase um milhão são mulheres. Quem luta por moradia chegou ao limite da falta de políticas públicas e de alternativas, tendo que escolher entre colocar alimento na mesa dos filhos ou garantir um lugar para morar”, pontuou.
Participou também desse debate o Ministro Provincial dos Franciscanos OFM no RS, Frei Olavo Dotto.
Criação da Pastoral da Moradia na Arquidiocese
Durante o evento, a Arquidiocese de Porto Alegre apresentou a criação da Pastoral da Moradia, recém-criada para atuar de forma específica junto a essa realidade social. A nova pastoral nasce com a missão de acompanhar, articular e dar visibilidade às situações de ausência ou precariedade de moradia, com atenção especial ao contexto arquidiocesano.
“A Pastoral da Moradia vai dar toda essa atenção a essa realidade social que encontramos aqui na Arquidiocese e em todo o Brasil, com um olhar especial para Porto Alegre, onde milhares de pessoas não têm casa ou vivem em condições que não garantem dignidade”, destacou Dom Odair, durante o lançamento. Segundo ele, ao longo do tempo da Campanha da Fraternidade, a pastoral deverá desenvolver ações de sensibilização e articulação, reforçando o compromisso da Igreja com o direito à moradia como fundamento da dignidade humana.
Cartaz da Campanha/2026
O Cartaz da Campanha desse ano retrata um ambiente citadino, com silhuetas de casas e de uma cidade, no centro uma Igreja, com uma cruz na torre em destaque bem visível. No centro da imagem do cartaz da Campanha deste ano retrata a escultura do Cristo Sem-Teto, figura impactante de um mendigo, em tamanho real deitado em um banco de praça, protegido por um cobertor que cobre seu rosto e suas mãos, mas deixa aparecer seus pés chagados, que revelam sua identidade: o próprio Cristo naqueles sem-teto. A escultura não mostra o rosto, para induzir que Cristo está sem rosto na pessoa dos que vivem nas ruas. Essa escultura representativa do Cartaz da campanha, do Cristo Sem-Teto(Homeless Jesus) é uma obra de autoria do artista católico canadense Timothy Schmalz, que a desenvolveu, em 2012, depois de ver um morador de rua dormindo em um banco de parque em Toronto, no Canadá, e se lembrar imediatamente da parábola do Juizo Final (cf.Mt 25,35-45). Uma réplica da peça artística foi oferecida ao Papa Francisco que a mandou colocar próximo da entrada da Esmolaria Apostólica, departamento da Santa Sé que tem a função de exercer a caridade para com os pobres em nome do Papa. Hoje, réplicas dessa escultura, estão em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, junto à Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ e em Cafarnaum, em Israel, cidade onde Jesus morou, fazendo dela um ponto estratégico de evangelização.
*Pe. Gerson Schmidt - Jornalista colaborador da Rádio Vaticano – Vaticannews, Assistente Eclesiástico da Radio Aliança FM 106.3 - Porto Alegre.
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