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2026.05.21 Conferenza internazionale  " Custodire voci e volti umani"

Debate sobre IA no Vaticano: ética, mídia e o futuro humano

Especialistas em jornalismo, informática, educação e ética estão reunidos na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma, para o Congresso Internacional organizado pelo Dicastério para a Comunicação, no âmbito do Dia Mundial das Comunicações Sociais. Prefeito Ruffini: “não podemos encarregar o que construímos de pensar em nosso lugar”. Cardeal De Mendonça: “o humano é sempre excedência, mistério, apelo”. Em 25 de maio, Leão XIV publica sua primeira encíclica dedicada à Inteligência Artificial.

Fabio Colagrande – Vatican News

A poucos dias da celebração do 60° Dia Mundial das Comunicações Sociais e do anúncio pela Santa Sé da criação de uma Comissão Interdicasterial dedicada à Inteligência Artificial, enquanto o Papa Leão XIV se prepara para publicar, em 25 de maio, sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, dedicada à proteção da pessoa humana na era da IA, o Vaticano iniciou nesta quinta-feira (21/05) um debate internacional sobre uma das questões mais decisivas do nosso tempo: como preservar rostos, vozes e o pensamento humano na era dos algoritmos.

Na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma, foram iniciados os trabalhos da conferência internacional “Preserving Human Voices and Faces / Preservar vozes e rostos humanos”, promovida pelo Dicastério para a Comunicação, em colaboração com o Dicastério para a Cultura e a Educação, a Fundação São João XXIII e a própria Pontifícia Universidade.

Registro de um dos paínéis do encontro
Registro de um dos paínéis do encontro

O título do congresso retoma diretamente o escolhido pelo Papa Leão XIV para a mensagem do Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado no último domingo (17/05) em muitos países do mundo. Nesse texto, o Pontífice indicou o desafio da inteligência Artificial como, antes de tudo, uma questão antropológica, alertando para o risco de que a simulação artificial das relações, das emoções e até mesmo da identidade pessoal altere o próprio tecido da convivência humana. “A questão que nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderemos fazer”, escreveu o Papa, convidando a construir uma relação consciente com esses instrumentos, baseada na responsabilidade, na cooperação e na educação. Leão, desde o início de seu pontificado, apontou a Inteligência artificial como a nova “questão social”, a ser enfrentada à luz da doutrina social da Igreja, da dignidade do trabalho e da justiça.

O prefeito Paolo Ruffini durante a introdução dos trabalhos
O prefeito Paolo Ruffini durante a introdução dos trabalhos

Ruffini: não delegar às máquinas o nosso pensamento

A abrir os trabalhos esteve Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação, que imediatamente situou o congresso no contexto da mensagem papal e da reflexão eclesial sobre a inovação tecnológica. “Cuidar, quando se trata de pessoas, é uma palavra desafiadora. Não significa guardar algo em uma gaveta, mas cuidar com amor de alguém ou de algo”, afirmou o prefeito, explicando como o preservar evocado pelo Papa não é uma forma de conservação passiva, mas um exercício ativo de responsabilidade. Ruffini insistiu, em seguida, no risco de uma progressiva delegação do pensamento humano aos sistemas artificiais, evocando uma das preocupações centrais da mensagem de Leão XIV: “o maior perigo consiste em aceitar passivamente a ideia de que o conhecimento não nos pertence mais; e que algo que nós mesmos construímos – algoritmos, plataformas ou sistemas automatizados – possa ser encarregado por nós de pensar em nosso lugar”.

O prefeito descreveu a atual transformação do ecossistema informativo como um desafio que interpela diretamente o jornalismo, a educação e a cidadania, evocando a necessidade de distinguir entre verdade e simulação, entre a palavra humana e o cálculo estatístico, entre conhecimento e automatismo. “A economia da comunicação não pode e não deve separar o seu destino da partilha da verdade”, afirmou, indicando a transparência das fontes, a responsabilização e a qualidade da informação como critérios imprescindíveis para devolver a centralidade à pessoa.

O cardeal Tolentino De Mendonça durante a saudação aos participantes
O cardeal Tolentino De Mendonça durante a saudação aos participantes

Cardeal De Mendonça: rosto e voz não são dados, mas lugares de relação

Na saudação aos participantes, o cardeal José Tolentino De Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, situou o tema dentro de uma reflexão antropológica e cultural mais ampla, remetendo diretamente ao léxico da mensagem do Papa Leão XIV.  “O título que nos reúne — Preservar vozes e rostos humanos — é um programa, ou melhor, uma profissão de fé no humano”, afirmou. O cardeal lembrou então que, na tradição clássica e cristã, rosto e voz não são simples elementos identificativos, mas expressões profundas da pessoa e da relação. “ O ser humano nunca se reduz a um dado, a um perfil, a um algoritmo. O humano é sempre excedência, mistério, apelo”, observou ele.

O cardeal também alertou para os riscos da simulação artificial das relações, evocando chatbots afetivos, deepfakes e ambientes digitais construídos em torno da personalização de perfis, capazes de alterar “a própria gramática do encontro humano”. Mas a ênfase final foi colocada na possibilidade de um discernimento positivo: “o desafio que nos espera não está em deter a inovação digital, mas em guiá-la”, em sintonia com o convite do Papa para construir uma aliança crítica e responsável com a tecnologia.

Um debate internacional e interdisciplinar

O evento reúne figuras de destaque do mundo da informação, da pesquisa e da inovação tecnológica, confirmando a vontade do Vaticano de promover um debate amplo e verdadeiramente global. Estão presentes jornalistas de renome, como Kashmir Hill, do New York Times, conhecida por suas reportagens investigativas sobre privacidade, reconhecimento facial e vigilância digital; executivos do mundo da informação, como Vineet Khosla, diretor de Tecnologia do Washington Post; estudiosos da comunicação política e dos meios digitais; especialistas em aprendizado de máquina e informática; especialistas em ética algorítmica e justiça social; figuras envolvidas na governança de plataformas digitais e na verificação da autenticidade de conteúdos. Entre os palestrantes estão também Joy Buolamwini, fundadora da Algorithmic Justice League, voz autoritária na denúncia de preconceitos nos sistemas de reconhecimento facial; Mitchell Baker, cofundadora do projeto Mozilla; Tristan Harris, um dos mais conhecidos críticos da economia da atenção; representantes da UNESCO, da União Europeia de Radiodifusão e de universidades da Europa, das Américas e da África. A composição dos diversos painéis reflete também uma pluralidade geográfica significativa, com uma ligeira predominância da presença feminina.

O encontro na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma
O encontro na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma

Os temas do debate

O dia se articula em quatro grandes eixos, construídos diretamente a partir dos núcleos da mensagem do Papa. O primeiro diz respeito à relação entre simulação e autenticidade, questionando-se sobre chatbots, relações artificiais, deepfakes e a transformação do ecossistema informativo. O segundo aborda o nó das desigualdades sociais, perguntando-se se os modelos de IA correm o risco de reforçar discriminações e desequilíbrios já existentes. O terceiro analisa a possibilidade de uma aliança entre o homem e a tecnologia, entre inovação, responsabilidade e governança. O quarto concentra-se na educação, ressaltando a urgência de não abrir mão da capacidade de pensar criticamente.

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21 maio 2026, 12:15