Núncio Bettencourt: a presença do Papa na África foi uma bênção

O representante pontifício em Camarões e na Guiné Equatorial, o português José Avelino Bettencourt, faz um balanço da viagem de Leão XIV ao continente africano. Uma visita que permitiu tocar “as alegrias e as dores do Corpo de Cristo nesta parte do mundo”, disse ele em entrevista ao Vatican News.

Joseph Tulloch e Francesca Sabatinelli – Vatican News

A viagem apostólica de Leão XIV à África, que acaba de terminar, permitiu ao Pontífice se aproximar, nos quatro países que visitou, de realidades difíceis e dolorosas, embora em busca de realização e crescimento, de justiça social e de direitos. Ao mesmo tempo, permitiu à Igreja local reafirmar com veemência a plena comunhão com a Igreja universal. Um perfil do profundo significado da viagem a Camarões e Guiné Equatorial foi traçado pelo núncio apostólico nesses dois países, dom José Avelino Bettencourt, que acompanhou o Papa em sua visita.

Eminência, o senhor acompanhou o Papa nas etapas de Camarões primeiro e na Guiné Equatorial depois. Comecemos pelo primeiro país: como foi a visita?

Camarões é um país imenso. Estende-se do Atlântico ao Saara e conta com 26 dioceses e cerca de 300 congregações religiosas, desde os trapistas até as mais ativas socialmente. Durante a visita, o Santo Padre pôde abordar diversos aspectos importantes, desde as celebrações eucarísticas até a visita à zona devastada pela guerra em Bamenda.

A mensagem de paz do Papa Leão foi muito forte. Acredito que permanecerá como uma imagem icônica desta primeira visita à África. Foi um eco de suas primeiras palavras proferidas na varanda da Basílica de São Pedro: “a paz esteja com vocês”, que na África ele pôde repetir de muitas maneiras. O Papa caminhou pelas ruas de Bamenda, e isso foi um símbolo muito poderoso. Em Douala, ele visitou um hospital católico que acolhe todos aqueles que estão em necessidade. Em Yaoundé, além das visitas às instituições governamentais, ele também pôde visitar um orfanato, situado no centro de um bairro muçulmano onde católicos e muçulmanos convivem. Assim, ele pôde abordar muitos temas e muitas realidades, e acredito que nos deixou muito sobre o que refletir no futuro.

O que mais a impressionou na visita à Guiné Equatorial?

A Guiné Equatorial ansiava por essa visita há muito tempo. Lembro-me de que, quando apresentei minhas credenciais, a primeira pergunta que me fizeram foi: “quando o Santo Padre virá aqui?”. É claro que se trata de um país de maioria católica, um pequeno país com cerca de dois milhões de habitantes, muito menor do que os outros locais visitados pelo Santo Padre durante esta viagem. O Papa pôde visitar a prisão de Bata, as autoridades realizaram gestos humanitários e as comemorações foram eufóricas. O povo estava cheio de fé e aguardava essa visita de todo o coração.

Durante a visita do Papa a esses dois países, ouvimos discursos muito comoventes sobre a necessidade de promover a igualdade econômica, o respeito aos direitos e a necessidade de oferecer um futuro aos jovens. O senhor acha que essas palavras podem dar frutos?

O Santo Padre pregou o Evangelho, leu as leituras do dia e as aplicou à realidade. A Igreja nunca se cala. Sempre que celebramos a Eucaristia, ouvimos a Palavra de Deus, pregamos a Palavra de Deus. Isso é uma continuação do compromisso da Igreja em promover o progresso e o desenvolvimento, e acreditamos que trará bons resultados.

Em Yaoundé, o Papa visitou um orfanato. Em Malabo, visitou um hospital psiquiátrico. Foi essa a maneira que o Papa encontrou para estar ao lado das pessoas que, nesses países, estão passando por momentos difíceis?

Sim, o Santo Padre realmente quis visitar alguns dos aspectos sociais da Igreja. A Igreja está muito empenhada na assistência à saúde, na educação e na assistência social, e o Santo Padre desejava que o Evangelho fosse aplicado concretamente no terreno, encorajando, ao mesmo tempo, aqueles que atuam nesses setores. Sua visita demonstrou tudo o que a Igreja está fazendo nesses países e ofereceu encorajamento e inspiração para continuar a se empenhar na sociedade. Por isso, somos muito gratos ao Santo Padre.

Excelência, agora, após esta viagem apostólica, quais serão as prioridades para as relações diplomáticas entre esses dois países e a Santa Sé?

Ambos os países assinaram acordos-quadro com a Santa Sé que abrangem o quadro jurídico da Igreja e de suas instituições, bem como a colaboração nas áreas da saúde, da educação e do social. São todos setores nos quais continuaremos a desenvolver nossa cooperação. Esses acordos estão em vigor há apenas 10 anos. Trata-se de um processo, e a Santa Sé está empenhada, com grande cuidado e atenção, em apoiar a Igreja local e as ordens religiosas, que são realmente muito generosas em sua atuação aqui. A Santa Sé está muito próxima da Igreja local nesse sentido e esperamos poder concretizar algo. Houve sinais muito encorajadores por parte das autoridades a esse respeito.

A viagem do Papa Leão XIV passou por quatro países africanos diferentes; pode-se, portanto, afirmar que, justamente por isso, ela assumiu também uma espécie de dimensão universal…

Na Argélia, em Camarões, em Angola e na Guiné Equatorial, o Papa presenciou realidades culturais e situações diversas. Visitar esses quatro países juntos destacou a universalidade que os caracteriza. Em sua visita ao continente, o Santo Padre tocou nas alegrias e nas dores do corpo de Cristo nesta parte do mundo. Ao mesmo tempo, esta Igreja dirigiu à Igreja universal um pedido de oração e solidariedade pela situação em que se encontra. Foi uma experiência belíssima e significativa, que nos uniu ainda mais como Igreja. Acredito que a visita tenha sido um sucesso, graças à Divina Providência. Ter o Santo Padre na África no primeiro ano de seu pontificado foi realmente uma graça e uma bênção, e os frutos dessa visita certamente não faltarão. Com o empenho contínuo da Igreja e de todas as instituições envolvidas, veremos muitos resultados positivos.

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27 abril 2026, 14:58