A proximidade com os muçulmanos pelo Ramadã, com apelo à paz
Matheus Macedo - Cidade do Vaticano
O Dicastério para o Diálogo Inter-Religioso divulgou nesta sexta-feira (20/02) uma mensagem dirigida aos muçulmanos por ocasião do Ramadã e do Id al-Fitr.
O texto é assinado pelo cardeal George Jacob Koovakad, prefeito do organismo vaticano, e pelo secretário, monsenhor Indunil J.K. Kodithuwakku. Na mensagem, os representantes expressam proximidade, solidariedade e respeito a todos os muçulmanos, reconhecidos como crentes no único Deus, “vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens”, conforme afirma a declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II.
O cardeal destacou que, neste ano, há uma coincidência providencial entre os calendários religioso cristão e muçulmano. “Os cristãos observam este período de jejum e devoção juntamente com vocês durante o sagrado tempo da Quaresma, que conduz a Igreja à celebração da Páscoa”, afirmou.
Segundo a mensagem, esse tempo é marcado por intensa espiritualidade e pelo esforço de viver mais fielmente a vontade de Deus. “Este caminho compartilhado permite-nos reconhecer nossa fragilidade intrínseca e enfrentar as provações que pesam sobre nossos corações”, ressalta o texto.
Provações, discernimento e desafios humanos
O purpurado indiano observou ainda que, diante de provações pessoais, familiares ou institucionais, é comum que as pessoas busquem compreender suas causas como forma de encontrar um caminho. No entanto, segundo ele, a complexidade dessas situações pode superar as capacidades humanas e aprofundar o sofrimento.
O cardeal destacou que, em um contexto marcado pelo excesso de informações e por narrativas divergentes, o discernimento pode se tornar ainda mais difícil, gerando um sentimento de impotência e levantando questionamentos sobre como encontrar uma saída.
“É justamente então que pode surgir a tentação de ceder ao desespero ou à violência. O desespero pode parecer uma resposta sincera a um mundo dilacerado, enquanto a violência pode apresentar-se como um atalho para a justiça que contorna a paciência exigida pela fé”, ressaltou.
Segundo ele, nenhuma das duas opções pode jamais ser um caminho aceitável para os crentes. “Um verdadeiro crente mantém o olhar fixo na Luz invisível que é Deus — o Onipotente, o Misericordioso, o único Justo — que «julga as nações com retidão» (Sl 96,10)”.
“Tal crente esforça-se, com todas as suas forças, para viver segundo os mandamentos de Deus, pois somente n’Ele se encontram tanto a esperança do mundo futuro quanto a paz tão profundamente desejada por todo coração humano”, reiterou.
Chamado à paz e à renovação da vida
A seguir, o texto expressa que cristãos e muçulmanos, “juntamente com todas as pessoas de boa vontade, são chamados a imaginar e abrir novos caminhos pelos quais a vida possa ser renovada”. E essa renovação, prossegue a mensagem, só é possível por meio de uma criatividade alimentada pela oração, pela disciplina do jejum que purifica nossa visão interior, e por atos concretos de caridade.
“Caros irmãos e irmãs muçulmanos, especialmente aqueles entre vocês que lutam ou sofrem no corpo ou no espírito por causa de sua sede de justiça, igualdade, dignidade e liberdade: tenham certeza de minha proximidade espiritual e saibam que a Igreja Católica é solidária com vocês”.
Ao concluir, o cardeal Koovakad afirmou que cristãos e muçulmanos estão unidos não apenas pelas provações, mas também pela missão comum de restaurar a paz no mundo.
“Paz: este é o meu fervoroso desejo para cada um de vocês, para suas famílias e para as nações onde vivem. Não se trata de uma paz ilusória ou utópica, mas, como sublinhou o Papa Leão XIV, de uma paz que nasce do «desarmamento do coração, da mente e da vida» (Mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2026)”.
“Tal paz é um dom recebido de Deus e alimentado pela redução da hostilidade por meio do diálogo, da prática da justiça e do amor ao perdão. Que, através deste tempo comum do Ramadã e da Quaresma, nossa transformação interior se torne um catalisador para um mundo renovado, no qual as armas da guerra deem lugar à coragem da paz”, concluiu.
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