Exercícios Espirituais no Vaticano  Exercícios Espirituais no Vaticano   (@Vatican Media)

Exercícios Espirituais da Quaresma, 8ª meditação: os anjos de Deus

O bispo Erik Varden faz sua oitava reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "Os anjos de Deus". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Dom Erik Varden, OCSO* 

Durante os quarenta dias em que Cristo permaneceu no deserto, Satanás aproximou-se dele e citou-lhe o Salmo 90, em particular dois versículos sobre os anjos. “O diabo — lemos em São Mateus — levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo” e o desafiou a provar que era o Filho de Deus, lançando-se para baixo, “Porque está escrito:'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito,e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'”.

Somente Deus pode nos convidar a saltar de um pináculo. Sua chamada, porém, será: “Salta para os meus braços”, e não: “Lança-te para baixo”.

As intervenções angélicas nem sempre são tranquilizadoras. Os anjos não estão ali para satisfazer nossos caprichos. Numa oração popular atribuída a Reginaldo de Canterbury, contemporâneo de Bernardo, pedimos ao nosso anjo da guarda que nos “rege, nos guarde, nos governe e nos ilumine”. São verbos fortes: um anjo é antes de tudo um guardião da santidade.

A vida monástica foi logo compreendida e apresentada como angélica por sua finalidade de louvor, mas também porque o monge é chamado a ser inflamado pelo amor de Deus e a tornar-se seu emissário para os outros.

O único “canto de louvor” de Cristo, de que fala a Sacrosanctum Concilium em uma belíssima passagem, ressoa das extremidades da terra até os cumes do céu por meio de uma cadeia pulsante de mediação. Os anjos são parte essencial dessa cadeia, como afirmamos em cada Prefácio dentro do cânon da Missa.

Nos sermões sobre o Qui habitat, Bernardo sublinha o papel dos anjos como mediadores da providência de Deus. A mediação nem sempre é necessária: Deus pode tocar-nos sem mediadores. Contudo, ele se compraz em deixar que suas criaturas sejam canais de graça umas para as outras.

Bernardo nos exorta a olhar o que faz um anjo e a fazer o mesmo: “Desce e mostra misericórdia ao teu próximo; e de novo, elevando com o mesmo anjo os teus desejos, esforça-te por subir com toda a cupiditas da tua alma à suma e eterna verdade”. Raramente, hoje em dia, se faz referência a Cupido no mesmo contexto da “suma e eterna verdade”. A escolha lexical de Bernardo é provocadora: ela nos diz que todos os desejos humanos naturais, inclusive os carnais, são atraídos para seu cumprimento em Deus e, portanto, devem ser orientados para Ele.

O último e mais decisivo ato de caridade dos anjos acontecerá na hora da nossa morte, quando nos conduzirão através do véu deste mundo para a eternidade. Então manifestarão suas características: “Não podem ser vencidos nem seduzidos, e muito menos podem nos seduzir”. Toda ficção cairá nessa hora: a retórica desaparecerá, apenas a verdade permanecerá, em plena consonância com a misericórdia.

Bernardo pregou com precisão sobre esses temas em 1139. Setecentos e vinte e seis anos depois, um homem de temperamento diverso, mas de inteligência semelhante, tornaria explícitas suas intuições numa poesia primorosa sobre a morte.

John Henry Newman refletia muito sobre os anjos. Concebia o ministério sacerdotal como angélico. O sacerdote está em casa neste mundo, não tem medo de entrar nos bosques escuros à procura dos perdidos. Ao mesmo tempo, mantém os olhos da mente erguidos para o rosto do Pai, deixando que seu esplendor ilumine toda a realidade presente. A iluminação é sempre dupla: intelectual e essencial, sacramental e pedagógica.

Newman, hoje Doutor da Igreja, também nos pede que redescubramos o professor como iluminador angélico. É um desafio profético e belo, se pensarmos em quanto a chamada “instrução” está hoje confiada aos meios digitais, inclusive artificiais, enquanto jovens adultos, adolescentes e crianças desejam encontrar mestres dignos de confiança, capazes de transmitir não apenas habilidades, mas sabedoria.

Um encontro angélico é pessoal. Não pode ser substituído por um download ou por um chatbot.

* Tradução não oficial da síntese publicada neste endereço: coramfratribus.com/life-illumined/gods-angels/

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26 fevereiro 2026, 10:31