O maestro Ricardo Bernardes está em Roma com a Camerata de Curitiba
Vatican News
Recebemos nos estúdios da Rádio Vaticano – Vatican News, o maestro Ricardo Bernardes que está em Roma com a Camerata de Curitiba para três eventos culturais comemorando os 200 anos das relações diplomáticas entre Brasil e Santa Sé, incluindo a Santa Missa na Basílica de Santa Maria Maior, nesta sexta-feira (23/01), e um concerto na Universidade La Sapienza. Nós conversamos com ele.
Maestro, seja bem-vindo, bom dia. Vamos começar pela Camerata. O senhor vai dirigir a Camerata nesses dias em três momentos especiais, a Santa Missa, que nós teremos na Basílica de Santa Maria Maior, presidida pelo nosso cardeal Secretário de Estado, Pietro Parolin, depois um outro evento na Universidade La Sapienza e um terceiro evento dentro da Embaixada do Brasil, junto ao governo italiano, na Praça Navona. Começamos, então, Camerata Curitiba.
Sim, a Camerata é um grupo para o qual sou, pela segunda vez, tenho a honra de ser convidado a dirigir. É uma instituição das mais antigas do Brasil e, certamente, a mais antiga dedicada ao repertório mais antigo, o repertório dito barroco e clássico, também com uma formação muito única, que compõe tanto coro quanto orquestra e que já existe, portanto, há mais de 50 anos, o seu aniversário foi comemorado em 2024, que eu tive a honra de fazer parte com um concerto que também tinha... a homenagem aos 500 anos de Camões e, nesse contexto, quando começou, digamos assim, a gerar-se esse projeto que agora se consubstancia nesses concertos aqui em Roma, e que, enfim, me convidaram e tenho a honra de estar aqui para dirigir esses concertos. De fato, eu dirijo apenas a música na Missa, do dia 23, e o concerto na Sapienza, já o concerto na Sala Palestrina, na Palazzo Panfili, na Embaixada do Brasil, é um concerto dirigido pela própria, digamos, pelos corpos estáveis da Camerata, com outro tipo de repertório, dedicado mais ao repertório brasileiro do século XX, arranjos de música popular, Vila Lobos, Carlos Gomes, é, digamos assim, um showcase do que eles fazem para além desse repertório de música sacra.
Música barroca, explica um pouquinho para nós como é que a gente insere isso dentro da cultura brasileira?
Pois, o chamado barroco brasileiro, que, de fato, é metade do século XVIII, é mais já um rococó ou um galante na área musical, é um período de uma produção ainda muito pouco conhecida, apesar de várias iniciativas que nós tivemos desde o tempo dos 500 anos, depois também com os 200 anos da chegada da família real, é um repertório que eu vou falar aqui do ponto de vista musical, incrível, talvez dos melhores produzidos no Novo Mundo, nas Américas. Eu sempre gosto de dizer que, enquanto a América Espanhola teve, digamos, o seu ápice no século XVI e XVII, no XVIII tiveram, digamos, um declínio e é justamente quando no Brasil se criam os primeiros grandes centros urbanos com atividade artística, sobretudo com a descoberta do ouro em Minas Gerais, no finalzinho do século XVII, aí a partir de 1730, cidades como Diamantina, atual Ouro Preto, a antiga Vila Rica e outras tantas, o próprio Rio de Janeiro, a Bahia, Recife, e para mim, para não dizer do Sul, eu acho que o Brasil é um dos primeiros centros urbanos do Sul do Brasil, nós até fizemos um concerto chamado Curitiba, Cidade Barroca, numa ocasião agora há uns dois anos, para chamar a atenção de que, justamente a partir do século XVIII e com especial atenção às primeiras décadas do século XIX, foi o auge da produção artística e musical no Brasil. E essa Missa e esse concerto trazem justamente, para mim, a obra máxima do principal compositor desse período, que é o padre José Maurício Nunes Garcia, que nasce no Rio de Janeiro em 1767. Ele é o filho de uma escrava liberta de origem da Guiné e o seu pai de origem portuguesa e que faz toda a sua formação no Rio de Janeiro, portanto, de certo modo, um autodidata, ou pelo menos dentro do contexto das relações mestres-discípulos no Rio de Janeiro, mas que se torna um compositor, assim, de uma inventividade e de uma segurança e destreza no seu métier, que são impressionantes. E faremos justamente a missa, que é chamada Missa Nossa Senhora da Conceição, escrita, para o 8 de dezembro de 1810, no contexto, digamos, ideal, onde ele estava na sua situação melhor, durante a permanência da corte de Dom João VI no Rio de Janeiro. Porque depois desse ano, chega o Marcos Portugal, que aí, enquanto o grande compositor português do seu período, quando chega no Rio de Janeiro, digamos, toma o espaço, passa a ser o compositor da corte e José Maurício vai, de certo modo, para um segundo plano, mas é justamente no fim de 1810, quando estava só José Maurício, mas já o rei e já a orquestra e o coro, da Real Capela do Rio de Janeiro, e que é composta essa obra magnífica e que é a primeira vez feita na Europa e que eu tive a oportunidade de ser o musicólogo que estreou isso em 2007 nos Estados Unidos, depois houve também uma outra vez em 2008 no Rio de Janeiro, mas que desde então, portanto, 18 anos, nunca mais foi feita. E é a primeira vez na Europa, então, portanto, uma grande oportunidade.
Eis a íntegra da conversa com o Maestro Ricardo Bernardes:
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