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Embaixador brasileiro junto à Santa Sé, Everton Vieira Vargas. Embaixador brasileiro junto à Santa Sé, Everton Vieira Vargas. 

Embaixador Everton Vieira: 200 anos de relações entre a Santa Sé e o Brasil

Os eventos em Roma: Missa na Basílica de Santa Maria Maior em 23 de janeiro, presidida pelo cardeal Pietro Parolin, com presença de bispos e cardeais brasileiros. Exposição de obras do Aleijadinho nos Museus do Vaticano prevista para abril/maio. No Brasil: sessão na Câmara dos Deputados, sessão solene no Supremo Tribunal Federal e iluminação do Cristo Redentor no dia 23.

Vatican News

Em 2026, o Brasil e a Santa Sé celebram o bicentenário do estabelecimento das relações diplomáticas. O Brasil e a Santa Sé mantêm relações diplomáticas desde 23 de janeiro de 1826, quando o papa Leão XII recebeu as cartas credenciais de monsenhor Francisco Corrêa Vidigal, que havia sido enviado a Roma pelo Imperador Pedro I para efetuar gestões em favor do reconhecimento da independência, proclamada em 1822.

A Embaixada do Brasil junto à Santa Sé promoverá diversos eventos culturais e acadêmicos ao longo de 2026, para celebrar essa importante efeméride das relações internacionais do Brasil.
Silvonei José conversou com o Embaixador brasileiro junto à Santa Sé, Everton Vieira Vargas, sobre essa importante data:

Embaixador Everton Vieira Vargas, obrigado por nos receber e uma alegria já nesse início de ano desejar ao senhor e também a toda a sua equipe um feliz ano novo.

Muito obrigado pelo convite e também feliz ano novo a você, a sua equipe e seus ouvintes.

Embaixador, nós temos uma efeméride muito importante, 200 anos de relações entre a Santa Sé e o Brasil. Começamos por aí então, um pouco dessa história, desse desenvolvimento. 200 anos, portanto, bicentenário.

Eu acho que é um marco na nossa relação bilateral, Brasil e Santa Sé. É algo que tem uma dimensão religiosa, tem uma dimensão política, tem uma dimensão social, tem uma dimensão de identidade, porque eu acho que em todos esses domínios a Igreja teve uma presença decisiva na formação do Brasil. Então, eu acho que está aí... digamos assim, a raiz por que se está comemorando esse bicentenário. E eu acho que a nossa relação com a Igreja Católica é uma relação ímpar, não só com as religiões do mundo, mas é também uma relação ímpar, nossa, do Brasil, com instituições. E a Igreja Católica, sendo uma instituição de dois mil anos, nos dá um peso muito específico com isso. É preciso lembrar que a Santa Sé é o quarto país com a mais longa relação diplomática com o Brasil. Antes tivemos a França, Espanha e Portugal. E eu acho que nós temos aí um momento de pensar no que foi a história e pensar no que pode ser a história nos anos vindouros. Porque a Igreja Católica no Brasil está intimamente ligada à construção da nação e do país.

Praça São Pedro
Praça São Pedro

Refletir 200 anos de história de um caminho juntos, não paralelo.

Sim. É um caminho juntos. O fato de que o Brasil nasceu sob o símbolo da cruz já é um fato ímpar. Eu não conheço nenhum outro país que, entre aspas, foi batizado como o Brasil. Os portugueses chegaram e, poucos dias depois, se realizou a primeira missa, que gerou aquele quadro célebre que nós temos no Brasil, sobre a primeira missa. Enfim, independente do fato de que aquilo ali é uma alegoria, ele contribui, até hoje, para a formação do imaginário brasileiro. Então, acho que isso é algo que nós, brasileiros, temos que pensar. E isso vai fundo porque são eventos e são imagens que se transmitem às gerações de brasileiros, a começar pela escola. Eu me lembro da primeira vez que eu vi a imagem da primeira missa, um quadro do Vitor Meirelles, eu aprendi isso na escola. Eu era criança. Então, acho que comigo, várias outras pessoas, vários milhões de brasileiros, tiveram essa mesma imagem transmitida a eles. E eu acho que nós, a partir dessa imagem que nós temos, é uma multiplicação da presença da Igreja. Claro que, hoje em dia, não é mais uma missa feita à beira-mar, com índios assistindo, etc. Hoje, nós temos uma Igreja presente por meio de universidades, por meio de intelectuais, por meio de uma obra maravilhosa. Pega, por exemplo, o padre Antônio Vieira, que será, inclusive, um dos eventos que acontecerão nestas celebrações dos 200 anos. Serão grandes seminários reunindo especialistas italianos, ou que vivem aqui em Roma, sobre o padre Antônio Vieira, e especialistas que estão no Brasil. Nós temos, a partir da Igreja, uma pessoa que pensou a nossa relação como sociedade, a nossa inserção no mundo. E o padre Antônio Vieira fez isso, porque o padre Vieira não foi só padre, ele foi diplomata também. Ele fez várias... várias missões a mando do rei de Portugal, e com o objetivo de manter a integridade territorial do Brasil. Isso é algo que a história, os livros de história não registram isso, na minha opinião, com o destaque que seria adequado. Então, acho que esse é um tema importante.

Depois de 200 anos, como estão hoje as relações entre o Brasil e a Santa Sé?

Olha, eu acho que as relações são excelentes. Nós temos, nos últimos anos, convergido em torno de temas comuns. E eu vi com satisfação, que o discurso do Santo Padre Leão XIV, na sexta-feira passada, no dia 10 de janeiro, trouxe para nós essa referência, por exemplo, ao multilateralismo, à questão da paz, à questão da busca de um mundo mais justo. E o Brasil e a Santa Sé têm trabalhado muito nisso. Por exemplo, a Santa Sé esteve na COP 30, em Belém, com ninguém menos do que o cardeal secretário de Estado, que é algo que o secretário de Estado não vai a qualquer evento. Foi lá porque este não só era um evento importante, mas o tema da mudança do clima é algo que veio a ser cristalizado dentro da doutrina social da Igreja, para a qual contribui muito a encíclica Laudato si’ e a exortação apostólica Laudate Deum, feitas pelo Papa Francisco.

Para comemorar esses 200 anos, nós teremos vários eventos, como o senhor já citou também, aqui em Roma.

Sim, é verdade. Nós vamos ter, primeiro, no dia 23 de janeiro - que é a data em que o Papa Leão XII aceitou as cartas credenciais do enviado do Império, Francisco Corrêa Vidigal, que era um padre, um Monsenhor -, a missa que vai acontecer na Basílica de Santa Maria Maior, presidida pelo cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, e que será concelebrada por bispos e cardeais brasileiros. Nós teremos, nesta missa, a participação da Camerata Antíqua de Curitiba, que vai cantar peças do padre José Maurício Nunes Garcia. No dia 20, nós teremos, na Pontifícia Universidade Gregoriana, um seminário reunindo pessoas versadas exatamente nessa questão da história do reconhecimento, na história de como a Igreja reconheceu o Império Brasileiro, e a independência do Brasil. Além disso, nós teremos outros eventos que acontecerão. Nós, possivelmente, em abril, maio, teremos uma exposição de obras do Aleijadinho nos Museus do Vaticano. Será a primeira vez na história em que obras feitas pelo Aleijadinho, serão expostas fora do Brasil. E eu acho que isso é um tema importante, porque será uma exposição na Europa, e aberta, obviamente, a visitantes do mundo inteiro, porque será no Museu do Vaticano, o segundo museu mais visitado do mundo, que as pessoas terão uma oportunidade de ver esta maravilha, essas maravilhas que foram feitas pelo Aleijadinho, o grande mestre do barroco brasileiro. Acho que só isso dá... há outras coisas também, mas só essas referências nos dão oportunidade de ver a dimensão com que nós estamos trabalhando com isso. Sem falar que, no Brasil, haverá também, manifestações, haverá também, no plano institucional, uma sessão na Câmara dos Deputados, haverá também uma sessão solene no Supremo Tribunal Federal, haverá também, no dia 23, o Cristo Redentor será iluminado em celebração aos 200 anos. Então, tudo isso eu acho que vai galvanizar tanto a opinião pública brasileira, independente de credo, mas pelo fato de que essa é uma data que envolve o Brasil inteiro.

Eis a íntegra da entrevista:

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16 janeiro 2026, 11:46