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Leão XIV na Espanha, presença que deixou sementes de esperança

De 6 a 12 de junho, o Papa passou por Madri, Barcelona e as Ilhas Canárias, convidando as pessoas a "levantar os olhos". Quatro semanas depois, aqueles que vivenciaram sua visita lembram-se menos dos grandes eventos do que do poder dos gestos que continuam a desafiar a Igreja e a sociedade.

Sebastián Sansón Ferrari – Cidade do Vaticano

“Levantai os olhos!”. Sim, voltemos o olhar para Cristo Crucificado: o seu Coração é a fonte da misericórdia, a única que pode salvar a humanidade necessitada de perdão e de reconciliação para alcançar uma paz verdadeira e duradoura. 

Com estas palavras, proferidas a 12 de junho durante a Missa de encerramento da sua Viagem Apostólica a Espanha, no porto de Santa Cruz de Tenerife, o Papa Leão XIV lançou um convite que transcendeu o fim da sua visita. Um mês depois, esse apelo continua a ressoar nas comunidades que o acolheram durante as suas viagens por Madrid, Barcelona e Ilhas Canárias.

Para além das celebrações grandiosas e dos discursos oficiais, a memória desses sete dias parece centrar-se numa forma de estar com as pessoas: parar, ouvir e olhar atentamente para cada uma.

O Papa Leão XIV segura o ostensório com a hóstia consagrada durante a procissão de Corpus Christi após a Santa Missa celebrada na Praça de Cibeles, em Madri, em 7 de junho de 2026. O Papa Leão XIV está em visita à Espanha de 6 a 12 de junho, com paradas em Madri, Barcelona e nas Ilhas Canárias, onde se encontrará com migrantes e organizações dedicadas a ajudá-los. (Foto de Oscar Del Pozo / AFP)
O Papa Leão XIV segura o ostensório com a hóstia consagrada durante a procissão de Corpus Christi após a Santa Missa celebrada na Praça de Cibeles, em Madri, em 7 de junho de 2026. O Papa Leão XIV está em visita à Espanha de 6 a 12 de junho, com paradas em Madri, Barcelona e nas Ilhas Canárias, onde se encontrará com migrantes e organizações dedicadas a ajudá-los. (Foto de Oscar Del Pozo / AFP)   (AFP or licensors)

Um olhar para aqueles que ninguém vê

 

Para o padre Luis Miguel Modino, diretor de Desenvolvimento de Comunicação e Conteúdo da Arquidiocese de Madri, o lema do Papa encontrou sua expressão mais autêntica em suas ações.

"O lema era Alzad la mirada ('Levantai os vossos olhos'), mas o que mais me impressiona é a capacidade do Papa de olhar para o coração das pessoas, especialmente o coração daqueles que são esquecidos", afirma.

Entre os momentos que mais o marcaram, ele menciona o encontro com assistentes sociais em Madri, a visita à prisão de Brians em Barcelona e os encontros com migrantes nas Ilhas Canárias. Em todos eles, afirma, Leão XIV mostrou uma Igreja presente onde a sociedade costuma desviar o olhar.

Leão XIV no Centro CEDIA 24 Horas en  Madrid
Leão XIV no Centro CEDIA 24 Horas en Madrid   (@Vatican Media)

Para Modino, esses gestos também representam um desafio para todos os batizados. "O Papa nos convida a tornar o rosto e a proximidade de Jesus Cristo presentes na vida daqueles que sofrem, lembrando-nos que os escolhidos de Deus também devem ocupar um lugar fundamental em nossas vidas."

A Proximidade que transforma

 

Essa mesma mensagem está gravada na memória de Pilar Algarate Velasco, secretária-geral da Cáritas Madrid.

Quando pensa na visita do Papa, ela não se lembra primeiro dos preparativos ou dos discursos. A imagem que lhe vem à mente é a do Pontífice caminhando lentamente entre as pessoas durante os encontros, particularmente com aqueles que vivem no que Francisco chamou de "periferias existenciais", parando para apertar mãos, ouvir histórias e dedicar tempo àqueles que se sentiram invisíveis por anos. "Cada encontro foi único, cada pessoa era importante", recorda.

O Papa Leão XIV abraça um menino ao encontrar um grupo de pessoas com deficiência e doentes, assistidas por organizações de caridade católicas e pela Arquidiocese de Madri, antes de deixar a Nunciatura Apostólica para visitar o projeto social CEDIA 24 Horas, em Madri, Espanha. Simone Risoluti /Vatican Media/Divulgação via REUTERS
O Papa Leão XIV abraça um menino ao encontrar um grupo de pessoas com deficiência e doentes, assistidas por organizações de caridade católicas e pela Arquidiocese de Madri, antes de deixar a Nunciatura Apostólica para visitar o projeto social CEDIA 24 Horas, em Madri, Espanha. Simone Risoluti /Vatican Media/Divulgação via REUTERS   (@Vatican Media)

Em sua visão, essa cena também resume a missão diária da Cáritas. "A proximidade não é improvisada; requer parar, ouvir de verdade e permitir que a história do outro transforme a nossa."

Entre as palavras do Papa, uma continua a ressoar especialmente em sua memória: "Quem está em Madrid é de Madrid". Uma frase que ela interpreta como um convite para construir comunidades onde ninguém se sinta um estranho e onde todos encontrem seu lugar. Uma jornada que perdurará através dos tempos

Madri acolheu o início de uma peregrinação marcada pela esperança; Barcelona nos lembrou que a beleza pode se tornar um caminho para Deus; e as Ilhas Canárias colocaram no centro o drama da migração e a dignidade inviolável de cada pessoa.

Uma viagem que perdura no tempo

 

Madrid acolheu com satisfação o início de uma peregrinação marcada pela esperança; Barcelona lembrou que a beleza pode tornar-se um caminho para Deus; e as Ilhas Canárias colocaram no centro o drama da migração e a dignidade inviolável de cada pessoa.

Cada etapa tinha seu próprio estilo, mas todas compartilhavam o mesmo fio condutor: uma Igreja que vai ao encontro das pessoas, escuta antes de falar e reconhece nos mais vulneráveis ​​um lugar privilegiado para viver o Evangelho.

Drones formam o rosto do arquiteto catalão Antoni Gaudí durante a bênção e inauguração da Torre de Jesus Cristo na Basílica da Sagrada Família, durante a viagem apostólica do Papa Leão XIV em Barcelona, ​​Espanha, em 10 de junho de 2026. VISITA PAPA LEÃO XIV/Divulgação via REUTERS
Drones formam o rosto do arquiteto catalão Antoni Gaudí durante a bênção e inauguração da Torre de Jesus Cristo na Basílica da Sagrada Família, durante a viagem apostólica do Papa Leão XIV em Barcelona, ​​Espanha, em 10 de junho de 2026. VISITA PAPA LEÃO XIV/Divulgação via REUTERS

Um legado que continua a dar frutos

 

O impacto da Viagem Apostólica vai além das memórias daqueles que acompanharam o Santo Padre. Um mês depois, diversas iniciativas demonstram que a mensagem de Leão XIV continua a inspirar a vida das comunidades que ele visitou.

Nas Ilhas Canárias, o Porto de Arguineguín acolheu um comovente evento institucional para manter viva a memória da histórica visita do Pontífice. Autoridades civis e eclesiásticas, lideradas pelo bispo das Ilhas Canárias, dom José Mazuelos, juntamente com a presidente da Câmara de Mogán, Onalia Bueno, representantes da Autoridade Portuária das Ilhas Canárias e membros da comunidade portuária, comemoraram um dia que marcou profundamente a diocese e o município.

A homenagem começou com a peça teatral "Histórias de Sal", dedicada a recordar a realidade migratória que fez de Arguineguín um dos cenários mais significativos da viagem apostólica. Durante a cerimônia, o bispo Mazuelos enfatizou que a mensagem de fraternidade, acolhimento e esperança proclamada por Leão XIV "continua a dar frutos" e encorajou a todos a continuarem a fazer das Ilhas Canárias uma terra comprometida com a dignidade de cada pessoa.

O Papa Leão XIV está ao lado de um dos migrantes, com quem fez uma oferenda floral em memória dos migrantes perdidos no mar, no cais do Porto de Arguineguin, em Gran Canaria, Espanha, em 11 de junho de 2026. REUTERS/Yara Nardi
O Papa Leão XIV está ao lado de um dos migrantes, com quem fez uma oferenda floral em memória dos migrantes perdidos no mar, no cais do Porto de Arguineguin, em Gran Canaria, Espanha, em 11 de junho de 2026. REUTERS/Yara Nardi

Um dos momentos mais simbólicos foi a inauguração de uma placa comemorativa que perpetua a memória da primeira visita papal às Ilhas Canárias e nomeia o enclave de "Porto da Esperança", em memória da mensagem que o Santo Padre desejou deixar num lugar intimamente ligado à tragédia da migração.

Em Barcelona, ​​a memória da viagem continua a alimentar a reflexão pastoral. Durante o tradicional encontro de jovens sacerdotes com o arcebispo Juan José Omella, realizado na quinta de Can Vilomara, a recente visita do Papa foi o tema central da discussão.

Os participantes partilharam como aqueles dias despertaram esperança, especialmente entre muitos jovens e aqueles afastados da prática religiosa. Vários sacerdotes concordaram que a visita foi "um apelo aos não praticantes" e enfatizaram a emoção vivida na Basílica da Sagrada Família, convictos de que agora cabe à Igreja "colher ainda mais frutos" desse impulso espiritual.

O cardeal Omella descreveu a visita de Leão XIV como "um tsunami que nos deixou tocados pelo Espírito Santo" e destacou a simplicidade, a transparência e a capacidade do Pontífice de falar aos corações das pessoas. Na mesma linha, o bispo Auxiliar Javier Vilanova afirmou que aqueles dias foram "um Pentecostes", uma experiência que fortaleceu a comunhão entre as dioceses catalãs e renovou o zelo evangelizador.

Papa Leão XIV com organizações que trabalham com migrantes no Porto de Arguineguin, na ilha de Gran Canaria, Espanha, em 11 de junho de 2026. ANSA/VATICAN MEDIA
Papa Leão XIV com organizações que trabalham com migrantes no Porto de Arguineguin, na ilha de Gran Canaria, Espanha, em 11 de junho de 2026. ANSA/VATICAN MEDIA   (ANSA)

Um mês após a Viagem Apostólica, as palavras proferidas por Leão XIV no porto de Santa Cruz de Tenerife continuam a ressoar: "Levantai os vossos olhos!" Este convite continua a traduzir-se em gestos concretos de acolhimento, fraternidade e esperança, confirmando que as viagens não terminam quando o Papa regressa a Roma, mas sim quando as Igrejas locais começam a acolher a mensagem recebida e a pôr-na em prática.

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08 julho 2026, 09:41