Leão XIV: a maior graça é deixarmo-nos evangelizar por aqueles a quem socorremos
Raimundo de Lima – Vatican News
Em seu último compromisso em terras espanholas, o Papa presidiu esta sexta-feira, 12 de junho - Solenidade do Sagrado Coração de Jesus -, a Santa Missa no Porto de Santa Cruz de Tenerife, principal escala comercial e de cruzeiros da ilha. A ilha canária de Tenerife é a terra natal de São José de Anchieta, apóstolo e padroeiro do Brasil. Outro grande Santo originário das Ilhas Canárias é Santo Hermano Pedro, também ele muito ligado à Igreja na América Latina, por ter sido missionário e apóstolo da caridade na Guatemala.
Com uma superfície de 9 mil metros quadrados, o Porto de Santa Cruz de Tenerife acolheu cerca de 40 mil fiéis, aos quais o Bispo de Roma disse ser uma alegria celebrar com todos eles a Eucaristia, “dando graças pela fé e pela caridade, das quais recebi tantos testemunhos nesta viagem apostólica e que fazem também deste arquipélago, tão conhecido pela sua beleza e acolhimento, um lugar onde o Senhor Ressuscitado nos precede e se manifesta”, ressaltou.
Nenhum ser humano é uma ilha
O mar, diante de nós, afirmou Leão XIV na homilia, evoca o infinito, e o mesmo faz o céu, mas infinito é sobretudo o desejo que une o coração de Deus a tantos corações humanos, cujas alegrias e esperanças, tristezas e angústias encontram eco no coração da Igreja.
Já no início de sua reflexão, o Santo Padre havia afirmado aos presentes ser uma grande graça se encontrarem neste dia em que o Coração de Jesus se deixa contemplar por nós como coração da história, para depois lembrar que nenhum ser humano é uma ilha. A localização geográfica desta diocese, observou o Pontífice, e os desafios pastorais que a comprometem atestam que nascemos para o encontro e que não há obstáculo, distância, perigo ou ameaça que possa impedir cada um de prosseguir a sua viagem. Quer permanecendo durante toda a vida no mesmo lugar, quer escolhendo partir ou sendo obrigado a fazê-lo, nunca ninguém permanece parado. Eis o segredo do coração: o íntimo chamamento ao êxodo e ao encontro.
“Há vida quando se dá vida. Caso contrário, andamos às voltas no vazio”, observou o Papa, acrescentando que o ser humano, como recorda o Concílio, é chamado à comunhão com Deus e “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”: a sua vocação mais profunda é entrar no movimento trinitário do amor recebido e amor partilhado.
Não reduzir tudo ao comércio e ao lucro
O que procura o coração humano? Como responder à sua sede sem o enganar? Quão importante é, especialmente para quem se deixa orientar pelo Evangelho, não reduzir tudo ao comércio e ao lucro. «As pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de petiscar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas. Deste modo conseguem reduzir o número das necessidades insatisfeitas e diminuem o cansaço e a ansiedade». Interpretai assim, queridos irmãos e irmãs, a vossa vocação ao acolhimento.
Referindo-se à página do Evangelho do dia, o Pontífice disse que ela parece radicalizar este desafio e recorda-nos a riqueza dos pobres: é aos pequeninos – o que, neste contexto, significa os mais insignificantes, aqueles que ninguém considera capazes de pensar e falar – que Deus se revelou a si mesmo. Enriqueceu-os com aquilo que permanece escondido àqueles que estão rodeados de admiração e sucesso. “Com a Exortação Apostólica Dilexi te, quis chamar a atenção para este lugar privilegiado dos pobres na Revelação divina e na missão da Igreja”, frisou o Papa.
É um mistério que ressoa de um modo totalmente peculiar nestas ilhas, situadas no centro de rotas migratórias que as tornam um local de primeiro acolhimento para irmãos e irmãs cuja viagem está geralmente exposta a perigos e violências indescritíveis. Perante quem especula com o desespero, não podemos, como cristãos, oferecer apenas um reflexo do Senhor que diz: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos». A maior graça é deixarmo-nos evangelizar por aqueles a quem socorremos, reconhecendo a misteriosa sabedoria de Deus inscrita na sua própria carne.
Abri a todos este mar de amor!
Crescidos em extrema precariedade, aprendendo a sobreviver nas condições mais adversas, confiando em Deus com a certeza de que mais ninguém os leva a sério, ajudando-se mutuamente nos momentos mais sombrios, os pobres aprenderam muitas coisas que guardam no mistério dos seus corações. “Aqueles de entre nós que não fizeram experiências semelhantes, de viver à margem, certamente têm muito a receber da fonte de sabedoria que é a experiência dos pobres”, observou Leão XVI, agradecendo em seguida aos da ilha de Tenerife pelo que são e pelo que fazem.
Possa respirar-se entre vós que «Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele». “Este é o coração do Evangelho, o coração de Cristo. Quem mergulha nele não vive já para si mesmo. Abri a todos este mar de amor! É este o meu desejo e a minha oração por vós e por todos aqueles que vos conhecerão”, concluiu o Pontífice.
Agradecimento no final da Santa Missa
Após o agradecimento ao Santo Padre feito pelo bispo de San Cristóbal de La Laguna, Diocese de Tenerife, dom Santiago Eloy Alberto Santiago, ao término da Missa Leão XIV fez também seu agradecimento ao bispo anfitrião e a todo o povo de Tenerife com as seguintes palavras:
Última atualização às 16h
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