O Papa: sejamos portadores da paz de Cristo, para que cessem as guerras no mundo
Raimundo de Lima – Vatican News
Após um dia definido pelo próprio Papa como tendo sido rico de encontros e partilha, Leão XIV presidiu a Eucaristia na noite desta quinta-feira, 11 de junho, no Estádio de Gran Canári, Las Palmas, dando graças ao Senhor pelo tanto bem que ali se faz quotidianamente “confiando-Lhe o empenho de todos e, ao mesmo tempo, os sofrimentos de que esta terra é testemunha”. Em seguida, convidou os cerca de 50 mil fiéis presentes também a rezar juntos, nesta Santa Missa, pelos irmãos e irmãs que perderam a vida no mar.
Amar é conatural ao homem
Com o pão e o vinho, tudo levamos ao Altar, ao entrarmos – através desta Celebração vespertina – na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a quem toda a Espanha está consagrada. Peçamos ao Senhor que, neste momento, estejam presentes em nós os mesmos sentimentos de humanidade, misericórdia e compaixão do Coração do Salvador.
Na homilia da celebração, o Santo Padre ateve-se às leituras propostas pela liturgia, ressaltando que na caridade de Deus nossa vocação ao amor tem as suas raízes, vocação que não se baseia no cálculo, nem no mero sentimento, nem se reduz a simples filantropia, mas penetra todo o nosso ser: fogo para a alma, luz para a mente, impulso irresistível para a liberdade, paz e, ao mesmo tempo, tormento para o coração, que bate em sintonia com outros corações, envolvendo toda a pessoa. Porque amar é conatural ao homem, ou melhor, é condição para a plenitude da própria existência.
“Assim, na humanidade do Salvador e nos movimentos do seu Santíssimo Coração, se nos revela o amor: imutável e fiel mesmo perante a incompreensão e a rejeição, o medo, a tristeza e a resistência humana”, destacou o Pontífice, acrescentando que “é neste rosto de Deus, sempre “apaixonado”, que anseia total e constantemente o nosso bem e a nossa plena felicidade, que reconhecemos o caminho da vida, aprendendo um novo modo de existir e de nos relacionarmos, um critério diferente para avaliar as decisões, um estilo renovado e estimulante de viver a comunhão”.
O Coração de Jesus é humilde
A este respeito, o Papa Francisco, falando da caridade de Cristo, dizia que «a melhor resposta ao amor do seu Coração é o amor aos irmãos» e acrescentava: «não há maior gesto que possamos oferecer-lhe para retribuir amor por amor». “Retribuir amor por amor”: esta é a maravilhosa permuta, o «admirabile commercium», pelo qual o Evangelho convida a deixar-nos atrair, traduzindo a medida infinita do amor de Deus na generosidade com que O servimos, todos os dias, nos irmãos e irmãs que Ele próprio coloca no nosso caminho. Em especial nos mais necessitados, indefesos, incapazes de dar algo em troca. Exatamente como acontece nesta ilha, no acolhimento, na partilha, no dom desinteressado.
Leão XIV frisou, contudo, que a nossa caridade não deve limitar-se a um mero assistencialismo, mas deve integrar as pessoas, para a sua plena realização — espiritual, intelectual e física — e a sua inserção digna e construtiva na comunidade. Só assim os nossos encontros, mesmo perante acontecimentos difíceis e dolorosos, se transformarão numa ocasião para semear a esperança no caminho da humanidade rumo a um futuro melhor.
Em seguida, o Papa se deteve, à luz da Palavra de Deus pouco antes proclamada, numa última característica do Coração de Cristo: a humildade. O Coração de Jesus é humilde e, por isso, os seus batimentos não são sentidos pelos “doutos” e pelos “sábios”, ou seja, por aqueles que têm a presunção de bastar-se a si mesmos, de saber tudo, de não precisar nem de Deus nem dos outros. A estes, efetivamente, atordoados pelos estrépitos de um “eu” inflamado, omnipresente e agitado, falta o silêncio necessário para ouvir em si mesmos e nos irmãos o palpitar escondido do amor.
A humildade nos faz irmãos
O Santo Padre ressaltou ainda que Jesus nos ensina que “para saborear a verdadeira alegria da vida, que reside no amor, é necessário descer dos pedestais da arrogância que divide, para nos encontrarmos na humildade que nos faz irmãos”. A propósito, citou Santo Agostinhos, que dizia: «onde está a caridade, aí está a paz, e onde está a humildade, aí está a caridade». É assim, continuou o Pontífice, onde há verdadeira humildade, há amor, e onde há amor, há paz, porque só na humildade conhecemos realmente quem somos e, por isso, podemos amar-nos, encontrar-nos, entregar-nos e perdoar-nos na verdade.
Inflamados pela caridade do seu Coração, concluiu por fim Leão XIV, “sejamos portadores da sua misericórdia e da sua paz, para que cessem as guerras no mundo e cresça à nossa volta uma nova humanidade, reconciliada no amor”.
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