Leão XIV: cada vida perdida nestas rotas é um fracasso para a família humana
Mariangela Jaguraba – Vatican News
Leão XIV encontrou-se, na manhã desta sexta-feira (12/06), com as realidades de integração dos migrantes na Praça do Cristo, em San Cristóbal de La Laguna, Tenerife, última etapa de sua viagem apostólica à Espanha.
"Chamou-me a atenção o que se diz desta cidade: que é uma cidade aberta, sem muralhas", disse o Papa no início de seu discurso, manifestando satisfação de estar ali com eles.
Histórias que nem sempre sabemos ler
"Talvez este pormenor nos ajude a compreender que as barreiras mais difíceis de derrubar nem sempre são as de pedra. Por vezes, elas encontram-se no olhar, no medo ou na indiferença", sublinhou o Pontífice.
De acordo com o Papa, "a integração exige que aprendamos a ler de outra forma. Há olhos que veem e, no entanto, não reconhecem; transformam um rosto numa cifra, uma história num processo e uma diferença numa distância". "Daí que o Evangelho nos eduque para uma leitura mais profunda da realidade: aquela que nasce da proximidade, da paciência e de mãos capazes de socorrer, acompanhar, orientar, ensinar e abrir caminhos", sublinhou.
"Nas obras de integração destes nossos irmãos – tal como em toda a obra de caridade – a Igreja aprende a ler, na vida concreta daqueles que sofrem no corpo ou no espírito, um sinal vivo que remete para os Santos Evangelhos e que se torna legível, através do tato e da proximidade, quando tocamos nas feridas dos outros", disse ainda Leão XIV.
Solidariedade nasce do reconhecimento da dignidade humana
Comentando os testemunhos proferidos durante o encontro, o Papa ressaltou que "perante o necessitado, a fé se faz concreta e o amor a Cristo transforma-se em gestos".
Integrar é um caminho recíproco
Segundo o Papa, "integrar não significa apagar a história de quem chega, nem exigir-lhe que deixe para trás tudo o que faz parte da sua memória. Tampouco significa criar mundos paralelos, fechados uns aos outros, onde as pessoas convivem sem se encontrarem realmente. Integrar é um caminho recíproco: quem chega aprende a habitar uma nova terra, e quem acolhe aprende a abrir a sua própria casa sem diluir a sua identidade nem fechar o coração ao encontro".
Leão XIV lembrou que "toda sociedade acolhedora tem deveres para com aqueles que chegam; e quem é acolhido descobre também que a dignidade, reconhecida como um direito, floresce quando se transforma em responsabilidade e num desejo sincero de construir em conjunto com os outros. Assim, quem chegou como forasteiro pode reencontrar laços, reconstruir a confiança e sentir-se parte viva de uma comunidade. Esta é uma forma preciosa de misericórdia".
Não pode permanecer indiferente
A seguir, o Pontífice convidou a não "esquecer os tantos migrantes que, vindos da América Latina, das Filipinas e de outras partes do mundo, já fazem parte integrante da comunidade e, com a sua fé, o seu trabalho e os seus dons, ajudam a renová-la".
Aos católicos, o Papa pediu algo mais: "Que a integração não se reduza a uma tarefa social, por mais necessária que seja". De acordo com o Pontífice, "quem chega às nossas paróquias precisa de pão, abrigo, língua, trabalho e proteção; e deve também encontrar uma comunidade capaz de oferecer, através do testemunho da vida e da palavra, caminhos para conhecer Jesus Cristo, respeitando sempre a consciência e a liberdade de cada pessoa". "Evangelizar é partilhar com respeito e humildade o tesouro que sustenta a nossa ação e nossa esperança. Uma Igreja que acolhe é também uma Igreja que anuncia, oferecendo Cristo sem o impor e que, ao mesmo tempo, recebe o Evangelho das mãos dos pobres", disse ainda o Papa.
Naufrágio silencioso após a chegada
Leão XIV recordou que "existe também um naufrágio silencioso após a chegada: encontrar-se sozinho numa cidade, sem língua, sem laços, sem trabalho, sem confiança e exposto àqueles que se aproveitam da vulnerabilidade". "Integrar é impedir esse segundo naufrágio. É ajudar quem chegou ferido a não ficar preso para sempre na sua dor, mas a poder voltar a levantar-se, reconhecer os seus dons e oferecê-los à comunidade", sublinhou.
Um apelo a quem organiza rotas da morte
Da Praça do Cristo, em San Cristóbal de La Laguna, o Santo Padre dirigiu uma "palavra clara a quem se aproveita do desespero; a quem organiza rotas da morte, trafica pessoas, retém documentos, explora trabalhadores, ameaça mulheres, engana famílias e transforma o sofrimento alheio num negócio".
"Voltai enquanto ainda há tempo", disse ainda o Papa, "porque a misericórdia de Deus pode alcançar até mesmo o pecador mais endurecido, mas só é possível entrar pela porta estreita da verdade, da justiça e da conversão".
"A última palavra não pode pertencer ao medo, à indiferença nem à violência daqueles que negociam com a vida humana. A última palavra pertence a Cristo, que se identifica com o estrangeiro, toca as feridas da humanidade e nos chama a reconhecê-lo em cada irmão que precisa ser acolhido, protegido, promovido e integrado", frisou Leão XIV.
Sagrada Família, modelo e amparo das famílias refugiadas
O Papa recordou que "a Sagrada Família de Nazaré, que teve de emigrar para o Egito para proteger a vida do Menino Jesus, continua sendo, através dos tempos, modelo e amparo de todas as famílias refugiadas, de todos os migrantes e de todas as pessoas que se veem obrigadas a abandonar a sua terra por medo, perseguição ou necessidade". "Que ela sustente o serviço que vós prestais e faça desta terra um lugar onde todos se reconheçam e se tratem como irmãos", concluiu.
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