Leão XIV aos migrantes: "A dignidade humana não tem passaporte"

No Porto de Arguineguín, uma das principais portas de entrada da rota migratória atlântica para a Europa, Leão XIV dirigiu um forte apelo em favor dos migrantes. O Papa denunciou a indiferença diante do sofrimento humano, pediu vias seguras de acolhida e integração e recordou que “o Sucessor de Pedro não pode ignorar esses desembarques”.

Thulio Fonseca - Vatican News

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“O Sucessor de Pedro não pode ignorar esses desembarques. A Igreja não pode ignorar essas águas.”

Com essas palavras, pronunciadas diante do Atlântico, no Porto de Arguineguín, em Gran Canaria, Leão XIV iniciou a última etapa de sua viagem apostólica à Espanha. Em sua primeira atividade nas Ilhas Canárias, o Papa encontrou-se com representantes de organizações comprometidas com a acolhida e o acompanhamento de migrantes e voltou a chamar a atenção para a dignidade das pessoas forçadas a deixar sua terra e para a responsabilidade compartilhada de acolhê-las, protegê-las e promover sua integração. Para o Pontífice, o Evangelho “arranca os cristãos do lugar confortável de espectadores” e os coloca diante do irmão que chega, convidando-os a reconhecer Cristo naqueles que desembarcam “marcados pelo medo, pela fome e pela violência, depois do deserto, da noite e do mar”.

Arguineguín tornou-se, nos últimos anos, um símbolo da crise migratória no Atlântico. É neste porto que desembarcam milhares de pessoas resgatadas no mar após travessias precárias em embarcações conhecidas como “cayucos” e “pateras”. Ali, diante daqueles que diariamente acolhem sobreviventes e testemunham tragédias humanas, o Papa afirmou que o Evangelho impede os cristãos de permanecerem espectadores diante do sofrimento.

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O clamor dos que chegam pelo mar

Antes do discurso do Pontífice, foram apresentados testemunhos que retratam diferentes rostos da migração. Entre eles, o do capitão Tito Villarmea, responsável por operações de salvamento marítimo; da voluntária da Cáritas María Reyes Alemán Cruz, que durante os momentos mais críticos da emergência migratória ajudou a coordenar a acolhida de centenas de pessoas por dia; e de Blessing, uma mulher nigeriana vítima de tráfico para exploração sexual, cujo relato foi lido por razões de segurança.

Referindo-se às histórias apresentadas, o Papa observou que os discípulos de Jesus “não podem considerar o clamor daqueles que gritam na noite como algo desconhecido”. Retomando os testemunhos, Leão XIV afirmou que a conversão começa quando o migrante deixa de ser apenas um número ou uma categoria abstrata e passa a ser reconhecido como um irmão, alguém que poderia fazer parte da própria família. Agradecendo o trabalho da Cáritas, das paróquias e dos voluntários, destacou que a misericórdia concreta, mesmo expressa em pequenos gestos, é capaz de salvar vidas e devolver esperança.

Os “monstros” que continuam a devorar vidas

Recorrendo à linguagem bíblica, o Papa comparou o mar aos cenários de ameaça e caos descritos nas Escrituras. Segundo ele, ainda hoje existem “monstros” que rondam essas águas: as máfias que lucram com o desespero humano, os traficantes que escravizam mulheres e crianças e a indiferença que permite que tantos pobres sejam “engolidos pela exploração ou pelo esquecimento”. Ao mesmo tempo, recordou que a fé cristã proclama um Deus capaz de vencer o caos e abrir caminhos de vida onde tudo parece perdido. Por isso, afirmou:

“Onde Cristo ordena ao mar que se cale, a Igreja não pode permanecer em silêncio diante daqueles que são abandonados às suas águas.”

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O rosto das vítimas do tráfico humano

O Santo Padre também dedicou parte do seu discurso às vítimas do tráfico humano. Dirigindo-se particularmente a Blessing e às muitas mulheres exploradas por redes criminosas, Leão XIV recordou que ninguém pode ser reduzido a mercadoria. “Ninguém pode comprá-la, vendê-la, usá-la ou descartá-la”, afirmou, porque cada pessoa traz em si a imagem e semelhança de Deus.

Recordando a história da jovem nigeriana, o Papa observou que sua experiência reflete a realidade de muitas pessoas obrigadas a deixar a própria terra não por escolha, mas porque a pobreza, a guerra, as ameaças ou a exploração lhes fecharam todos os caminhos. Dirigindo-se diretamente a Blessing e às inúmeras mulheres vítimas do tráfico humano, ressaltou

“Se outros atribuíram um preço ao seu corpo, Deus nunca deixou de vê-la como uma pessoa de valor inestimável. Se quiseram aprisioná-la em um passado doloroso, Deus continua a lhe prometer um futuro melhor. Se a trataram como um objeto, a Igreja quer lhe dizer hoje: você é filha e irmã, você é uma bênção. Sua vida não pertence a quem a fez mal; seu corpo não pertence a quem se aproveitou de você; seus dias não pertencem a quem quis acorrentá-la ao medo! Sua vida pertence a Deus e conserva uma dignidade que ninguém pode lhe tirar. Nós queremos caminhar com você, até que essa verdade seja ouvida novamente, mais forte que a dor.”

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"Queridos migrantes: antes de dizer-lhes outra palavra, quero me curvar diante da sua dignidade. Vocês não são números, nem fascículos! Vocês são pessoas com família e uma casa que deixaram para trás, com sonhos que ninguém tem o direito de desprezar. Mas também quero dizer que sua vida precisa ser protegida. Não entreguem sua vida a quem as comercializa. Não acreditem em quem promete paraísos fáceis em troca de seu corpo, seu dinheiro, seu silêncio ou sua liberdade. Essas falsas promessas são cantos de sereia, são indústrias da morte."

Um apelo à Europa e à comunidade internacional

Leão XIV ampliou então o horizonte de sua reflexão, afirmando que o drama migratório deve interpelar governos, instituições internacionais e sociedades inteiras. Segundo ele, essa realidade precisa tornar-se “um exame de consciência” para os países de origem, de trânsito e de destino, bem como para toda a comunidade internacional.

Referindo-se à Europa, advertiu que não é possível proclamar a defesa da dignidade humana e, ao mesmo tempo, acostumar-se a ver o Atlântico e o Mediterrâneo transformarem-se em “cemitérios sem lápides”. Segundo o Pontífice, não basta administrar fluxos migratórios, divulgar estatísticas ou reforçar fronteiras. Cada embarcação que chega às costas europeias traz uma pergunta fundamental sobre o tipo de mundo que está sendo construído quando tantas pessoas precisam arriscar a própria vida apenas para sobreviver. Por isso, defendeu vias legais e seguras para a migração, maior cooperação contra as redes criminosas, proteção efetiva das vítimas e políticas capazes de garantir condições dignas de vida nos países de origem. Afinal, observou, se existe o direito de buscar refúgio quando a vida está ameaçada, existe também o direito de não ter que migrar: o direito de permanecer na própria terra “sem fome, sem guerra, sem perseguições, sem violência”.

“Não podemos nos acostumar a contar os mortos. A dignidade humana não tem passaporte, nem perde valor ao cruzar uma fronteira.”

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A humanidade em jogo

Na conclusão, o Pontífice afirmou ainda que a acolhida dos migrantes não pode ser considerada algo secundário nem delegada apenas a alguns voluntários, pois a caridade cristã nasce da oração e conduz novamente a ela por meio do serviço concreto aos que sofrem.Confiando os migrantes à proteção de Nossa Senhora do Carmo, Leão XIV fez um pedido:

“Que a história não nos acuse de ter transformado a dor de quem sofre numa paisagem habitual de nossas cidades litorâneas. Porque hoje, aqui, à beira-mar, cada vida que chega nos pergunta o que resta da nossa humanidade. Cedo ou tarde, saberemos se fomos capazes de preservar essa humanidade ou se deixamos a indiferença falar por nós.”

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Como gesto final do encontro, Leão XIV prestou homenagem aos migrantes que perderam a vida na travessia rumo às Ilhas Canárias. Após o discurso, o Pontífice desceu do palco e, à beira do cais, depositou flores no mar em memória daqueles que morreram tentando alcançar um futuro melhor. Em seguida, voluntários e migrantes formaram uma corrente humana ao longo do porto e também lançaram flores nas águas do Atlântico. O momento foi acompanhado por uma exposição fotográfica instalada no muro do cais, retratando a chegada das embarcações, o acolhimento dos sobreviventes e os percursos de integração das pessoas migrantes. Em clima de recolhimento e oração, o gesto encerrou o encontro com uma lembrança concreta das vidas perdidas no mar e um convite a não esquecer o drama humano que continua a marcar as rotas migratórias.

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11 junho 2026, 13:52