Leão XIV em Tenerife: o coração de Deus não conhece fronteiras, se entrega a todos
Padre Miguel Modino - Madri
Um dia mais do que oportuno para refletir, como fazia o Papa, sobre os corações dos migrantes que estavam ao seu lado, «feridos por tantas dificuldades e também consolados pelo amor recebido graças a tantos corações abertos, generosos e misericordiosos». A grande questão é onde cada um de nós se situa diante dos vulneráveis, se somos pessoas que ferem ou pessoas que praticam a misericórdia, se somos bons samaritanos capazes de curar feridas.
O convite que o Santo Padre fez é também para cada um de nós: oferecer os tesouros que cada um possui e receber o que nos é oferecido, ver as migrações como «oportunidade de encontro e enriquecimento mútuo». Dado que «todos – de alguma forma – somos migrantes», somos chamados a ser humanos, a devolver a esperança e a dignificar a vida do outro.
A linguagem da proximidade
Para isso, é necessário derrubar barreiras, que «nem sempre são de pedra», mas que «às vezes estão no olhar, no medo ou na indiferença», como disse o Papa na Praça do Cristo de La Laguna, durante seu encontro com as Realidades de Integração de Migrantes. O desafio é saber ler «histórias de dor, de esperança e de busca» e «aprender a linguagem da proximidade, da paciência e de mãos capazes de acolher, acompanhar, orientar, ensinar e abrir caminhos».
Um desafio que a Igreja também enfrenta, para «aprender a ler na vida concreta daqueles que sofrem no corpo ou no espírito um sinal vivo que remete aos Santos Evangelhos», para tocar com amor a dor humana e compreender que «diante do necessitado, a fé se torna concreta e o amor a Cristo se transforma em gestos». Somos chamados a compreender que «a solidariedade nasce do reconhecimento da dignidade humana», e que «o acolhimento abre a porta; a integração ajuda a cruzar o limiar. A assistência coloca bálsamo na ferida e a integração reconstrói o futuro».
Somos imagem do coração de Deus quando somos capazes de mostrar ao outro que «tua vida não é um descarte, teu sofrimento não é invisível, tua dignidade não se dissolveu nas águas que atravessaste». Quando oferecemos a possibilidade «de recomeçar, de aprender, de trabalhar, de servir, de participar, de não ficar para sempre preso na condição de vítima», como lembrava o Papa.
O coração de Deus transparece em nós quando compreendemos que nossa consciência «não pode permanecer indiferente perante as vítimas», que «cada vida perdida nessas rotas é um fracasso para a família humana». Quando, com palavras claras e proféticas, denunciamos «aqueles que se aproveitam do desespero», quando deixamos claro que «a última palavra não pode ser do medo, da indiferença, nem da violência daqueles que negociam com a vida humana», mas de Cristo, «que se identifica com o estrangeiro, toca as feridas da humanidade e nos chama a reconhecê-lo em cada irmão que precisa ser acolhido, protegido, promovido e integrado». É para Cristo que devemos olhar «para aprender a olhar com os seus olhos para os nossos irmãos», e assim ter um coração semelhante ao seu.
O coração da história
Um Coração de Jesus que «se deixa contemplar por nós como o coração da história», dizia ao iniciar a sua homilia no Porto de Santa Cruz de Tenerife. Um coração que nos chama «ao êxodo e ao encontro» e a compreender que «há vida quando se dá vida». Por isso, é necessário que nos perguntemos: «O que busca o coração?» e que descubramos a riqueza dos pobres, dos pequenos, «aqueles que ninguém considera capazes de pensar e de falar», que «nos deixemos evangelizar por aqueles a quem socorremos».
Sejamos capazes de «encontrar o coração de Cristo no rosto amigo e acolhedor de pessoas e comunidades fraternas». Para isso, é necessário prestar atenção a todos e fazê-lo «com um olhar que vai além das aparências e reconhece a profundidade de seus corações inquietos, que não poucas vezes já estão voltados, talvez inconscientemente, para o Reino de Deus e sua justiça». Não nos esqueçamos de que o coração de Cristo e do seu Evangelho é o amor. É por isso que o Papa volta a Roma «comovido pelo grande afeto com que tem me recebido».
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