Papa: pela paz, basta com a loucura da guerra, da idolatria de si mesmo e do dinheiro

Leão XIV une as forças morais do mundo que repudia a guerra para invocar a paz com a oração do terço, para romper "a cadeia demoníaca do mal" que até usa o Santo Nome de Deus em "discursos de morte": "quem não reza não mata nem ameaça com a morte" porque "virou as costas ao Deus vivo", sacrificando valores e esperando que "o mundo inteiro se ajoelhe". "Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro!" e com "a loucura da guerra", e se cultive o cuidado da vida com a oração em "casas de paz".

Andressa Collet - Vatican News

O Papa Leão XIV reuniu o mundo em oração neste sábado, 11 de abril, a partir da Basílica Vaticana com 7 mil pessoas e outras 3 mil que acompanharam pelos telões da Praça São Pedro, para invocar a paz com a força que vem da oração - e através do terço, uma das formas mais antigas que une todos através de um ritmo regular, marcado pela repetição: "assim a paz vai ganhando espaço, palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura", explicou o Pontífice. A reflexão sobre o poder da oração, que não é "esconderijo" e nem "anestésico" para tanta dor e injustiça, veio ao final da Vigília de Oração pela Paz, expressão "daquela fé que, segundo a palavra de Jesus, move as montanhas", que é resposta "gratuita, universal e revolucionária à morte".

“Obrigado por terem acolhido este convite, reunindo-se aqui, junto ao túmulo de São Pedro, e em tantos outros lugares do mundo para invocar a paz. A guerra divide, a esperança une. A prepotência oprime, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina. Caríssimos, basta um pouco de fé, uma migalha de fé, para enfrentarmos juntos, como humanidade e com humanidade, este momento dramático da história.”

Leia na íntegra a reflexão do Papa Leão XIV

Cerca de 7 mil pessoas rezaram junto com o Papa dentro da Basílica de São Pedro
Cerca de 7 mil pessoas rezaram junto com o Papa dentro da Basílica de São Pedro   (@Vatican Media)

A oração de todos rompe a cadeia demoníaca do mal

Assim como fez Cristo, cada ser humano é convidado a "elevar o olhar" para acolher a paz, mesmo diante de um mundo em que "se continua, sem direito e sem piedade, a crucificar e a aniquilar a vida". Leão XIV, então, trouxe junto com a oração, a força das palavras de João Paulo II, "testemunha incansável da paz", que afirmou com emoção, no contexto da crise iraquiana de 2003: «Eu pertenço à geração que viveu a segunda guerra mundial e lhe sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos que são mais jovens do que eu, que não tiveram esta experiência: “Nunca mais a guerra”, como disse Paulo VI na sua primeira visita às Nações Unidas» (Angelus, 16 de março de 2003). Prevost se uniu ao apelo do Papa polonês, "que é tão atual", e disse:

"A oração ensina-nos a agir. Na oração, as limitadas possibilidades humanas unem-se às infinitas possibilidades de Deus. Pensamentos, palavras e obras rompem, assim, a cadeia demoníaca do mal e colocam-se ao serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espadas, nem drones, nem vinganças, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão. Temos aqui uma barreira contra esse delírio de onipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo à nossa volta. Os equilíbrios na família humana estão gravemente desestabilizados. Até mesmo o Santo Nome de Deus, o Deus da vida, é arrastado para os discursos de morte."

E o Papa Leão XIV voltou a enfatizar que "quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe":

“Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida.”

Fiéis de várias etnias participaram da Vigília de Oração com o Papa
Fiéis de várias etnias participaram da Vigília de Oração com o Papa   (@Vatican Media)

Leão XIV também usou da "simplicidade evangélica" de São João XXIII para enaltecer as "vantagens da paz" que beneficiam toda a comunidade humana e das "palavras lapidares" de Pio XII que afirmava: «Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra». Prevost, assim, pediu a união das "forças morais e espirituais de milhões, de milhares de milhões de homens e mulheres, de idosos e de jovens que hoje acreditam na paz, que hoje optam pela paz, que cuidam das feridas e reparam os danos deixados pela loucura da guerra". Como acontece com as crianças inocentes que sofrem nas zonas de conflito com "todo o horror e a desumanidade das ações que alguns adultos exaltam com orgulho. Ouçamos a voz das crianças!", apelou o Pontífice.

Uma responsabilidade "inalienável que incumbe aos governantes das nações", disse o Papa, a quem "clamamos: parem! É tempo de paz! Sentem-se às mesas do diálogo e da mediação, não às mesas onde se planeia o rearmamento e se deliberam ações de morte!". Responsabilidade "não menos importante" também nossa, de "homens e mulheres de tantos países diferentes: uma imensa multidão que repudia a guerra, com obras, e não apenas com palavras". Daí o pedido de Leão XIV para nos comprometermos com a oração para invocar a paz "nas casas, nas escolas, nos bairros, nas comunidades civis e religiosas, tirando espaço à polêmica e à resignação com a amizade e a cultura do encontro. Voltemos a acreditar no amor, na moderação, na boa política". Na "paciência de Deus", acrescentou o Pontífice, rezar e curar as feridas como os "artesãos de paz" citatos pelo Papa Francisco na Fratelli tutti.

Fiéis africanas diante da imagem de Nossa Senhora "Rainha da Paz"
Fiéis africanas diante da imagem de Nossa Senhora "Rainha da Paz"   (@VATICAN MEDIA)

Nunca mais a guerra, mas casas de paz

Antes de Leão XIV suplicar ao Senhor "que a loucura da guerra tenha fim e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda sabem gerar, guardar, amar a vida", ele pediu que todos voltem "para casa com este compromisso de rezar sempre, sem desanimar, e de uma profunda conversão do coração. A Igreja é um grande povo ao serviço da reconciliação e da paz, que vai em frente sem titubear, mesmo quando a rejeição da lógica bélica lhe pode custar incompreensão e desprezo". Diante das "contínuas violações do direito internacional" que colocam em risco a dignidade das pessoas, «é desejável que cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia»:

“Irmãos e irmãs de todas as línguas, povos e nações: somos uma única família que chora, espera e se levanta. «Nunca mais a guerra, aventura sem retorno; nunca mais a guerra, espiral de lutos e violência» (São João Paulo II, Oração pela paz, 2 de fevereiro de 1991).”

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui

11 abril 2026, 19:15