O Papa: o amor do Senhor sustenta o nosso compromisso a serviço da justiça e da solidariedade
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Leão XIV celebrou a missa, nesta quinta-feira (23/04), no Estádio de Malabo, Guiné Equatorial, último compromisso do Pontífice em terras africanas.
O Estádio de Malabo foi inaugurado em 2007. É uma estrutura esportiva polivalente, utilizada como casa da seleção de futebol da Guiné Equatorial. Sediou oito jogos da Copa Africana de Nações de 2012 e dez da Copa Africana de Nações de 2015.
Leia, na íntegra, a homilia do Papa Leão XIV.
No palco montado para a celebração, além de um grande crucifixo, encontrava-se também uma imagem de Nossa Senhora de Bisila, uma Virgem de traços delicados com uma criança nos ombros. Antes da chegada do cristianismo, ela era considerada a mulher que, usando ervas naturais, salvou o povo da peste, incluindo muitas crianças. Em 1986, São João Paulo II a proclamou Padroeira da Arquidiocese de Malabo.
O Papa iniciou sua homilia, falando sobre o diálogo entre o eunuco etíope e Filipe que, ao ouvir o eunuco ler a passagem do Profeta Isaías sobre o servo sofredor, pergunta-lhe se compreende o que está lendo. O eunuco responde imediatamente: «Como poderei compreender, sem alguém que me oriente?»
O anúncio do Evangelho o liberta
A pergunta dele "torna-se assim não só um apelo à verdade, mas uma expressão de curiosidade". "Observemos com atenção quem está falando: é um homem rico, tal como a sua terra, mas escravo. Todos os tesouros que administra não são seus: suas são as canseiras, que beneficiam outros. Este homem tem inteligência e cultura, e demonstra-o tanto no trabalho como na oração, mas não é plenamente livre", disse ainda o Papa, ressaltando que "este estado está dolorosamente impresso no seu corpo: trata-se, com efeito, de um eunuco. Não pode gerar vida: as suas energias estão todas ao serviço de um poder que o controla e o domina".
Todos os textos bíblicos foram escritos e transmitidos na fé
"É assim que este africano entra na Escritura, acolhedora em relação a todos os leitores que desejam compreender a palavra de Deus. Entra na história da salvação, acolhedora em relação a todos os homens e mulheres, sobretudo em relação aos oprimidos, aos marginalizados e aos últimos", disse ainda o Papa. "Ao texto escrito corresponde agora o gesto vivido: recebendo o Batismo, ele já não é um estranho, mas torna-se filho de Deus, nosso irmão na fé. Escravo e sem descendência, este homem renasce para uma vida nova e livre em nome do Senhor Jesus: é do seu resgate que ainda hoje falamos, precisamente ao lermos as Escrituras", sublinhou.
Desespero certo e uma esperança que Deus torna possível
"Tal como o eunuco pede, também nós podemos compreender a palavra de Deus graças a alguém que nos oriente no caminho da fé, como foi o diácono Filipe, que «tomando a palavra e partindo daquele trecho da Escritura, anunciou-lhe Jesus», aquele que, através da sua paixão, morte e ressurreição, nos redime do pecado e da morte. Ele é o Verbo feito homem, no qual se cumpre cada palavra de Deus: revela-lhe a intenção originária, o sentido pleno e o fim último", disse Leão XIV.
"Como afirma Cristo: «Só aquele que vem de Deus viu o Pai» (cf. Jo 6, 46). No Filho, o próprio Pai manifesta a sua glória: Deus deixa-se ver, ouvir e tocar. Através dos gestos de Jesus, o Redentor, Ele dá plenitude ao que sempre fez: dar vida. Ele cria o mundo, salva-o e ama-o para sempre. Aos que o escutam, Jesus recorda um sinal desta constante providência: «Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram». O maná é, portanto, uma prova, uma bênção e uma promessa, que Jesus vem realizar", frisou o Papa, que acrescentou:
"Através do êxodo definitivo que é a Páscoa de Jesus, todos os povos são libertados da escravidão do mal. Ao decidir acreditar n’Ele, cada um de nós escolhe entre um desespero certo e uma esperança que Deus torna possível. Assim, a nossa fome de vida e justiça encontra saciedade na palavra de Jesus: «O pão que Eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne»", frisou Leão XIV.
Compromisso com a justiça e a solidariedade
O Papa disse ainda que "na companhia do Senhor, os nossos problemas não desaparecem, mas são iluminados: assim como toda a cruz encontra redenção em Jesus, também no Evangelho a história da nossa vida encontra sentido. A sua palavra é para nós Evangelho, e nada temos de melhor para anunciar ao mundo. Como ensinava o Papa Francisco, realmente «a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus»".
Por fim, o Papa encorajou a todos, a "Igreja que vive na Guiné Equatorial, a continuar com alegria a missão dos primeiros discípulos de Jesus. Lendo juntos o Evangelho, sede seus anunciadores entusiastas, tal como o foi o diácono Filipe. Celebrando juntos a Eucaristia, testemunhai com a vossa vida a fé que salva, para que a Palavra de Deus se torne pão bom para todos".
Recordação do vigário geral de Malabo
Antes de sua homilia, Leão XIV lembrou o pe. Fortunato Nsue Esono, vigário geral da Arquidiocese de Malabo, que faleceu repentinamente. "Convido todos a viverem com espírito de fé este momento de luto", disse o Pontífice, "e confio que, sem se deixar levar por comentários ou conclusões precipitadas, se esclareçam plenamente as circunstâncias de sua morte".
Ao final da celebração, dom Juan Nsue Edjang May, arcebispo de Malabo, agradeceu ao Papa por sua visita. O Pontífice deixou como presente o cálice com o qual celebrou a missa. Um último gesto antes de se despedir deste grande continente que o Pontífice desejou visitar logo de início, assim que subiu à Cátedra de Pedro. Um continente que restituiu a imagem de uma Igreja viva, na qual os jovens desempenham um papel importante, onde não faltam o compromisso para enfrentar grandes desafios e a dedicação para olhar para o amanhã com confiança.
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