Leão XIV: o sangue dos mártires é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Leão XIV encontrou-se com a comunidade argelina, na tarde desta segunda-feira (13/04), na Basílica de Nossa Senhora da África, em Argel.
O Papa atravessou a nave central e chegou ao altar, onde, após um momento de adoração ao Santíssimo Sacramento, ouviu as palavras de boas-vindas do cardeal, reiterando a natureza da basílica como um "espaço de encontro e fraternidade", simbolizada pela inscrição: "Rogai por nós e pelos muçulmanos". Isto, afirmou o cardeal, "expressa o chamado maternal de Maria por toda a humanidade e o chamado desta basílica, que acolhe tantas confidências e sedia inúmeros eventos culturais e religiosos, incluindo as Jornadas Marianas Islâmico-Cristãs". O pensamento final do cardeal Vesco foi dedicado aos que acompanham o encontro das cerca de sessenta prisões visitadas regularmente pela arquidiocese: "Eles contam com as suas orações e asseguram-lhe as suas".
Leão XIV ouviu os testemunhos de quatro representantes da comunidade: Emmanuel-Ali, um assistente de acolhimento na Basílica, irmã Bernadette, Monia, muçulmana, e Rakel, uma estudante pentecostal de 26 anos. Depois, iniciou o seu terceiro discurso em terras argelinas, manifestando satisfação de se encontrar com essa comunidade, "uma presença discreta e preciosa, enraizada nesta terra, marcada por uma história antiga e por luminosos testemunhos de fé".
Herdeiros de testemunhas que deram a vida
"Vós sois também herdeiros de uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, Santa Mônica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais críveis de comunhão, diálogo e paz", sublinhou.
A seguir, Leão XIV refletiu sobre três aspectos da vida cristã: a oração, a caridade e a unidade.
A oração une e humaniza
Em relação ao primeiro aspecto, a oração, disse que "todos nós somos necessitados da oração". Citou a propósito, o testemunho de Emmanuel Ali sobre sua experiência de serviço na Basílica de Nossa Senhora da África. Ele disse que muita gente vai "ali para se recolher em silêncio, para apresentar e confiar as suas preocupações e as pessoas que amam, e para encontrar alguém disposto a ouvi-los e a partilhar os fardos que carregam no coração; e observou que muitos partem serenos e felizes por terem vindo". "A oração une e humaniza, fortalece e purifica o coração, e a Igreja argelina, graças à oração, semeia humanidade, unidade, força e pureza à sua volta, alcançando lugares e contextos que só o Senhor conhece", sublinhou o Papa.
O amor animou o testemunho dos mártires
Leão XIV se deteve no segundo aspecto da vida eclesial: a caridade. A este propósito, falou a Irmã Bernadette, "partilhando a sua experiência de ajuda às crianças com necessidades especiais e aos seus pais". "Neste testemunho, percebemos o valor da misericórdia e do serviço, não só como apoio aos mais frágeis, mas sobretudo como um espaço de graça, no qual quem se deixa envolver cresce e se enriquece", frisou o Pontífice. A religiosa contou que "a partir de um simples e inicial gesto de proximidade – a visita aos doentes –, nasceram, como rebentos, primeiro um sistema de acolhimento e depois uma organização assistencial cada vez mais articulada, uma verdadeira comunidade na qual inúmeras pessoas participam tanto nos acontecimentos alegres como nos dolorosos, unidas por laços de confiança, amizade e familiaridade. Um ambiente assim é saudável e revigorante, e não surpreende que, nele, quem sofre encontre os recursos necessários para melhorar a sua saúde, levando ao mesmo tempo alegria aos outros, como no caso de Fátima".
O Papa recordou o exemplo do Irmão Luc, monge e médico da comunidade de Nossa Senhora do Atlas, que não abandonou "os seus doentes e amigos", mas permaneceu com eles, diante de potenciais perigos.
Paz e a harmonia características da comunidade cristã
A seguir, Leão XIV falou a propósito do terceiro ponto: o compromisso de promover a paz e a unidade. "O lema desta visita são as palavras de Jesus ressuscitado: «A paz esteja convosco!»", recordou o Papa. "A paz e a harmonia são características fundamentais da comunidade cristã desde as suas origens, por desejo do próprio Jesus, que disse: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.». A este respeito, Santo Agostinho afirmava que a Igreja «dá à luz povos, mas estes são membros de um só» e São Cipriano escreve: «O maior sacrifício que se pode oferecer a Deus é a paz que reina entre nós, a nossa concórdia fraterna e o ser um povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo». É maravilhoso, hoje, sentir que tanta riqueza de palavras e de exemplos encontra eco naquilo que acabamos de ouvir", disse ainda o Papa.
Comunhão entre cristãos e muçulmanos
"Esta basílica é símbolo de uma Igreja de pedras vivas, na qual, sob o manto de Nossa Senhora da África, se constrói a comunhão entre cristãos e muçulmanos", frisou Leão XIV. "Filhos desejosos de caminhar juntos, de viver, rezar, trabalhar e sonhar, porque a fé não isola, mas abre, une, mas não confunde, aproxima sem uniformizar e faz crescer uma verdadeira fraternidade, como nos disse Monia, e como testemunhou Rakel", disse o Papa, acrescentando:
Leão XIV recordou que "uma parte considerável do território deste país está ocupada pelo deserto, e no deserto não se sobrevive sozinho. As adversidades da natureza relativizam qualquer presunção de autossuficiência e recordam a todos que precisamos uns dos outros e que precisamos de Deus. É o reconhecimento da fragilidade que abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz".
O Papa concluiu, encorajando-os a prosseguir o seu trabalho em terras argelinas "como comunidade de fé coesa e aberta, presença da Igreja, «sacramento universal de salvação»".
Oração diante do monumento às vítimas de naufrágios
Ao sair da basílica, o Pontífice se deteve diante do memorial às vítimas de naufrágios. O mar, o mesmo que brilha no horizonte como promessa de imensidão e encontro, revela-se como muitas vezes tem sido, um abismo para "aqueles migrantes em busca de um futuro melhor, cujas vidas, prematuramente interrompidas, muitas vezes terminam no fundo do mar ou no deserto", recorda o arcebispo de Argel, cardeal Jean-Paul Vesco.
"Rogai por nós e pelos muçulmanos"
Mais cedo, ao chegar à basílica após ser transferido de carro do Centro de Acolhimento e Amizade das Irmãs Missionárias Agostinianas de Bab El Oued, o Pontífice foi recebido por duas crianças que lhe ofereceram flores, depois pelo cardeal Vesco e pelo reitor, padre Peter Claver Kogh, que lhe ofereceram a cruz e água benta para aspersão.
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