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Leão XIV: o sangue dos mártires é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto

No encontro com os católicos argelinos, o Papa disse que essa comunidade é herdeira "de uma série de testemunhas que deram a vida, movidas pelo amor a Deus e ao próximo". O Pontífice recordou os "dezenove religiosos e religiosas mártires da Argélia, que escolheram estar ao lado deste povo nas suas alegrias e nas suas dores". Pediu aos argelinos para difundirem "a fraternidade, inspirando nos que os rodeiam desejos e sentimentos de comunhão e reconciliação".

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Leão XIV encontrou-se com a comunidade argelina, na tarde desta segunda-feira (13/04), na Basílica de Nossa Senhora da África, em Argel.

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O Papa atravessou a nave central e chegou ao altar, onde, após um momento de adoração ao Santíssimo Sacramento, ouviu as palavras de boas-vindas do cardeal, reiterando a natureza da basílica como um "espaço de encontro e fraternidade", simbolizada pela inscrição: "Rogai por nós e pelos muçulmanos". Isto, afirmou o cardeal, "expressa o chamado maternal de Maria por toda a humanidade e o chamado desta basílica, que acolhe tantas confidências e sedia inúmeros eventos culturais e religiosos, incluindo as Jornadas Marianas Islâmico-Cristãs". O pensamento final do cardeal Vesco foi dedicado aos que acompanham o encontro das cerca de sessenta prisões visitadas regularmente pela arquidiocese: "Eles contam com as suas orações e asseguram-lhe as suas".

O abraço entre o Papa e o Cardeal Vesco
O abraço entre o Papa e o Cardeal Vesco   (@Vatican Media)

Leão XIV ouviu os testemunhos de quatro representantes da comunidade: Emmanuel-Ali, um assistente de acolhimento na Basílica, irmã Bernadette, Monia, muçulmana, e Rakel, uma estudante pentecostal de 26 anos. Depois, iniciou o seu terceiro discurso em terras argelinas, manifestando satisfação de se encontrar com essa comunidade, "uma presença discreta e preciosa, enraizada nesta terra, marcada por uma história antiga e por luminosos testemunhos de fé".

Herdeiros de testemunhas que deram a vida

“A vossa comunidade tem raízes muito profundas. Sois herdeiros de uma série de testemunhas que deram a vida, movidas pelo amor a Deus e ao próximo. Penso, em particular, nos dezenove religiosos e religiosas mártires da Argélia, que escolheram estar ao lado deste povo nas suas alegrias e nas suas dores. O sangue deles é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto.”

"Vós sois também herdeiros de uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, Santa Mônica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais críveis de comunhão, diálogo e paz", sublinhou.

A seguir, Leão XIV refletiu sobre três aspectos da vida cristã: a oração, a caridade e a unidade.

O Papa ouve testemunhos na Basílica de Nossa Senhora da África
O Papa ouve testemunhos na Basílica de Nossa Senhora da África   (@Vatican Media)

A oração une e humaniza

Em relação ao primeiro aspecto, a oração, disse que "todos nós somos necessitados da oração". Citou a propósito, o testemunho de Emmanuel Ali sobre sua experiência de serviço na Basílica de Nossa Senhora da África. Ele disse que muita gente vai "ali para se recolher em silêncio, para apresentar e confiar as suas preocupações e as pessoas que amam, e para encontrar alguém disposto a ouvi-los e a partilhar os fardos que carregam no coração; e observou que muitos partem serenos e felizes por terem vindo". "A oração une e humaniza, fortalece e purifica o coração, e a Igreja argelina, graças à oração, semeia humanidade, unidade, força e pureza à sua volta, alcançando lugares e contextos que só o Senhor conhece", sublinhou o Papa.

O amor animou o testemunho dos mártires

Leão XIV se deteve no segundo aspecto da vida eclesial: a caridade. A este propósito, falou a Irmã Bernadette, "partilhando a sua experiência de ajuda às crianças com necessidades especiais e aos seus pais". "Neste testemunho, percebemos o valor da misericórdia e do serviço, não só como apoio aos mais frágeis, mas sobretudo como um espaço de graça, no qual quem se deixa envolver cresce e se enriquece", frisou o Pontífice.  A religiosa contou que "a partir de um simples e inicial gesto de proximidade – a visita aos doentes –, nasceram, como rebentos, primeiro um sistema de acolhimento e depois uma organização assistencial cada vez mais articulada, uma verdadeira comunidade na qual inúmeras pessoas participam tanto nos acontecimentos alegres como nos dolorosos, unidas por laços de confiança, amizade e familiaridade. Um ambiente assim é saudável e revigorante, e não surpreende que, nele, quem sofre encontre os recursos necessários para melhorar a sua saúde, levando ao mesmo tempo alegria aos outros, como no caso de Fátima".

“Aliás, foi precisamente o amor pelos irmãos que animou o testemunho dos mártires que recordamos. Perante o ódio e a violência, permaneceram fiéis à caridade até ao sacrifício da vida, juntamente com tantos outros homens e mulheres, cristãos e muçulmanos. Fizeram-no sem pretensões e alarde, com a serenidade e firmeza de quem não presume nem se desespera, porque sabe em Quem depositou a sua confiança.”

O Papa recordou o exemplo do Irmão Luc, monge e médico da comunidade de Nossa Senhora do Atlas, que não abandonou "os seus doentes e amigos", mas permaneceu com eles, diante de potenciais perigos.

Paz e a harmonia características da comunidade cristã 

A seguir, Leão XIV falou a propósito do terceiro ponto: o compromisso de promover a paz e a unidade. "O lema desta visita são as palavras de Jesus ressuscitado: «A paz esteja convosco!»", recordou o Papa. "A paz e a harmonia são características fundamentais da comunidade cristã desde as suas origens, por desejo do próprio Jesus, que disse: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.». A este respeito, Santo Agostinho afirmava que a Igreja «dá à luz povos, mas estes são membros de um só» e São Cipriano escreve: «O maior sacrifício que se pode oferecer a Deus é a paz que reina entre nós, a nossa concórdia fraterna e o ser um povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo». É maravilhoso, hoje, sentir que tanta riqueza de palavras e de exemplos encontra eco naquilo que acabamos de ouvir", disse ainda o Papa.

O Papa com a comunidade argelina
O Papa com a comunidade argelina   (@Vatican Media)

Comunhão entre cristãos e muçulmanos

"Esta basílica é símbolo de uma Igreja de pedras vivas, na qual, sob o manto de Nossa Senhora da África, se constrói a comunhão entre cristãos e muçulmanos", frisou Leão XIV. "Filhos desejosos de caminhar juntos, de viver, rezar, trabalhar e sonhar, porque a fé não isola, mas abre, une, mas não confunde, aproxima sem uniformizar e faz crescer uma verdadeira fraternidade, como nos disse Monia, e como testemunhou Rakel", disse o Papa, acrescentando:

“Num mundo onde as divisões e as guerras semeiam dor e morte entre as nações, nas comunidades e até mesmo nas famílias, o vosso viver unidos e em paz é um grande sinal. Unidos, difundis a fraternidade, inspirando nos que vos rodeiam desejos e sentimentos de comunhão e reconciliação, com uma mensagem tanto mais forte e clara quanto testemunhada na simplicidade e na humildade.”

Leão XIV recordou que "uma parte considerável do território deste país está ocupada pelo deserto, e no deserto não se sobrevive sozinho. As adversidades da natureza relativizam qualquer presunção de autossuficiência e recordam a todos que precisamos uns dos outros e que precisamos de Deus. É o reconhecimento da fragilidade que abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz".

O Papa concluiu, encorajando-os a prosseguir o seu trabalho em terras argelinas "como comunidade de fé coesa e aberta, presença da Igreja, «sacramento universal de salvação»".

Oração diante do monumento às vítimas de naufrágios

Ao sair da basílica, o Pontífice se deteve diante do memorial às vítimas de naufrágios. O mar, o mesmo que brilha no horizonte como promessa de imensidão e encontro, revela-se como muitas vezes tem sido, um abismo para "aqueles migrantes em busca de um futuro melhor, cujas vidas, prematuramente interrompidas, muitas vezes terminam no fundo do mar ou no deserto", recorda o arcebispo de Argel, cardeal Jean-Paul Vesco.

O Papa reza diante do memorial em homenagem às vítimas dos naufrágios
O Papa reza diante do memorial em homenagem às vítimas dos naufrágios   (@Vatican Media)

"Rogai por nós e pelos muçulmanos"

Mais cedo, ao chegar à basílica após ser transferido de carro do Centro de Acolhimento e Amizade das Irmãs Missionárias Agostinianas de Bab El Oued, o Pontífice foi recebido por duas crianças que lhe ofereceram flores, depois pelo cardeal Vesco e pelo reitor, padre Peter Claver Kogh, que lhe ofereceram a cruz e água benta para aspersão.

O Papa recebe flores de duas meninas
O Papa recebe flores de duas meninas   (@Vatican Media)
Papa encontra a comunidade argelina

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13 abril 2026, 18:30