Papa em mensagem à Costa Rica: ouvir vítimas de abusos é um ato de justiça e verdade
Sebastián Sansón Ferrari – Vatican News
“O caminho de reparação ao qual a Igreja é chamada não pode se reduzir a uma série de cumprimentos formais. Pelo contrário, exige uma verdadeira conversão à justiça: pessoal, pastoral e institucional”. Com essas palavras, o Papa Leão XIV enviou uma mensagem aos cerca de 500 participantes na abertura do V Congresso Latino-americano do Ceprome, o Centro de Pesquisa e Formação para a Proteção do Menor, que se realiza de 3 a 5 de março em San José, na Costa Rica. Sobre o tema “Reparar o dano: entre a fé que sustenta, o cuidado que acompanha e a justiça que restaura”, o encontro reúne especialistas, autoridades eclesiásticas, acadêmicos e profissionais de 21 países da América Latina, Estados Unidos e Europa com o objetivo de fortalecer a cultura do cuidado, prevenir abusos e garantir a proteção integral de menores e pessoas vulneráveis dentro da Igreja.
Um compromisso que interpela toda a Igreja
O Papa acolhe com satisfação o caminho empreendido para combater esee mal “que toca uma das feridas mais profundas e dolorosas do Corpo de Cristo”. Um caminho, afirma ele, que é “um autêntico sinal de renovação” e um compromisso concreto para com as vítimas e para com a própria Igreja. “Não se trata de um campo especializado, reservado a poucos especialistas”, escreve o Pontífice, “mas de uma dimensão essencial da missão evangelizadora da Igreja, que interpela a consciência de cada pastor e de cada comunidade eclesial”.
A cultura do cuidado para prevenir os abusos
Leão XIV agradece em particular à Conferência Episcopal da Costa Rica, presente com representantes das diferentes dioceses, pelo testemunho de comunhão, corresponsabilidade e proximidade pastoral, e insiste no fato de que a reparação não pode se limitar a normas e protocolos. Ela requer uma profunda conversão e, nesse processo, os representantes das Igrejas locais têm uma “responsabilidade particular e indelegável”. Eles não devem apenas garantir procedimentos adequados, mas também abraçar pessoalmente uma cultura de cuidado capaz de prevenir abusos, ouvir as vítimas e testemunhar a ternura de Cristo, “transformando as feridas em luzes de esperança”. Os ensinamentos aprendidos nos últimos anos, observa o Papa Leão, demonstram que quando os bispos e superiores maiores integram esse compromisso em seu ministério, a Igreja se torna “mais credível, mais humana e mais evangélica”.
A escuta para ajudar a curar
Um dos pontos centrais da mensagem é a escuta: “ouvir as vítimas não é um gesto opcional, mas um ato de justiça e verdade”. Da escuta, ressalta o Papa, nascem políticas credíveis, processos de reparação completos, estruturas e mecanismos de responsabilização. “Na Igreja, a reparação não pode ser separada nem da misericórdia nem do respeito à lei, mas também não pode se reduzir apenas a isso. Requer uma visão eclesial clara, fundamentada na verdade, na assunção de responsabilidades e em um acompanhamento perseverante ao longo do tempo”. É um caminho exigente, reconhece o Pontífice, que requer decisões corajosas e firmes, e lembra que cada passo autêntico em direção à verdade e à reparação já é um sinal de esperança para a Igreja e para o mundo.
Ceprome, um espaço de convergência
Nesse contexto, o Ceprome é chamado a ser não apenas um centro de formação, mas um verdadeiro espaço de convergência eclesial, capaz de acompanhar as Igrejas particulares em um processo contínuo de amadurecimento. A esse respeito, o Papa ressalta a importância da colaboração com o Celam e a CLAR, unindo a responsabilidade pastoral dos bispos, a riqueza carismática da Vida Consagrada e as competências interdisciplinares.
Reflexão, formação e ação
O V Congresso Latino-americano do Ceprome pretende ser um espaço de reflexão, formação e diálogo para promover uma Igreja mais segura, responsável e comprometida, dedicada à justiça e à reparação. Entre os temas-chave, que estão sendo abordados: a teologia da reparação em tempos de feridas, a possibilidade e o significado da reparação dos abusos dentro da Igreja, o acompanhamento e a restauração, a pastoral da consolação e os fundamentos teológicos e jurídicos do direito à reparação. Paralelamente, estão previstos simpósios sobre o cuidado integral das vítimas, sobre os aspectos jurídicos, tanto civis como canônicos, e sobre o papel das comunidades e das redes de apoio; além da Segunda Exposição de Boas Práticas e mesas redondas especializadas.
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