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2026.01.09 Auguri del Corpo Diplomatico

O Papa e o “sabor orwelliano” das palavras. Padre Piccolo: são poderosas, mas frágeis

No discurso proferido em janeiro ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, Leão XIV alertou para o “enfraquecimento da palavra”, paradoxalmente reivindicado em nome da liberdade de expressão. O decano da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana, Pe. Gaetano Piccolo, analisa essa advertência com a mídia do Vaticano à luz do romance do escritor britânico “1984” e das reflexões de Santo Agostinho sobre a “inopia loquendi”.

Edoardo Giribaldi – Vatican News

“É importante notar que o paradoxo deste enfraquecimento da palavra é com frequência reivindicado em nome da própria liberdade de expressão. No entanto, se olharmos bem, é verdade o contrário: a liberdade de palavra e de expressão é garantida precisamente pela certeza da linguagem e pela certeza de que cada termo está ancorado na verdade. Ao contrário, é doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam.”

Relendo essa passagem do discurso do Papa Leão XIV ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, no dia 9 de janeiro, o pensamento não pode deixar de se dirigir ao famoso romance de George Orwell, 1984, que mostrava como “o controle da linguagem incida profundamente sobre o controle do pensamento”. Ao mesmo tempo, pode-se encontrar uma referência a Santo Agostinho, figura querida ao Pontífice, que falava da inopia loquendi — a pobreza da palavra — relacionando-a ao mistério da Encarnação, em que “Deus entra na humanidade, aceitando seus limites”. Essas são apenas algumas das chaves de leitura propostas pelo decano da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana, Padre Gaetano Piccolo, em uma entrevista à mídia vaticana, que se estende ainda mais a Montale, Heidegger e John Langshaw Austin. O “sabor orwelliano” identificado pelo Pontífice “não é um elogio para quem usa a linguagem dessa maneira”, explica o jesuíta.

“Se você não tem palavras, não pode pensar”

O contexto de referência de 1984 é o final da década de 1940, quando o escritor vislumbrou um futuro distópico caracterizado por três grandes blocos em conflito contínuo. O partido que governava grande parte da Europa, o Socing, tentava construir uma “novilíngua” artificial, na qual os termos disponíveis eram bastante reduzidos. Padre Piccolo resume qual era o objetivo final: “se você não tem palavras, não pode pensar”. Além disso, na novilíngua, a maneira correta de falar era definida como “fala de pato”, ou seja, “gralhar”, repetir a ideologia do partido. “Mas talvez a referência do Papa seja sobretudo ao fato de que muitas palavras na sociedade da novilíngua eram paradoxais e indicavam exatamente o seu oposto”, explica o decano. O “ministério da verdade” alterava a narrativa dos fatos, enquanto o Big Brother espionava e controlava todos.

Padre Gaetano Piccolo, decano da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana
Padre Gaetano Piccolo, decano da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana

Heidegger e a linguagem além do “comércio da fala”

Em referência ao que o Papa definiu como “enfraquecimento da palavra”, o padre jesuíta identifica uma raiz já no pensamento de Heidegger, que na Introdução à metafísica de 1935 escreveu: “palavras e línguas não são como embalagens que servem apenas para envolver coisas para o comércio da fala e da escrita”. E mais adiante: “a linguagem tornou-se um meio de entendimento indispensável, mas sem orientação, e, portanto, utilizável aleatoriamente, indiferente como um meio de transporte público”. A palavra perde seu valor quando está desprovida da “estreita relação” com seu significado: cada termo tem uma história e um poder, mas também uma fragilidade intrínseca.

Austin e as palavras como “instrumentos”

Além disso, na contemporaneidade, os termos são inflacionados: “como ninguém mais presta atenção, parece que se pode dizer qualquer coisa”, afirma Padre Piccolo. A liberdade de expressão não deve ser confundida com “a liberdade de dizer qualquer coisa”. O abuso das palavras é, muitas vezes, expressão da “fraqueza do pensamento”. Paradoxalmente, uma palavra enfraquecida em sua força pode se tornar uma alavanca de influência para aqueles que reivindicam o “direito privilegiado” de manipular a realidade, rotulando e mistificando os significados. Como afirmou o filósofo inglês John Langshaw Austin: “as palavras são nossas ferramentas e, no mínimo, devemos usar ferramentas limpas”.

Orwell e as previsões sobre o presente em “A Fazenda dos Animais”

A reflexão sobre Orwell poderia se estender a seu outro romance famoso, A Fazenda dos Animais (o novo título da reedição de "A revolução dos bichos", por ficar mais próximo do original em inglês "Animal farm"), no qual os porcos aprendem secretamente a ler e escrever, chegando a criar leis a seu favor, ecoando a famosa frase: “todos somos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”. Assim, os porcos, inicialmente revolucionários contra o opressor humano, aliavam-se a ele. “Também neste aspecto, podemos dizer que Orwell viu longe”, reconhece o decano da Faculdade de Filosofia da Gregoriana.

Montale e Santo Agostinho examinam a palavra enfraquecida

O apelo de Leão XIV sobre o enfraquecimento da palavra é atual, mas também está em consonância com a filosofia e a literatura da linguagem do século XX. Montale, com a frase “não nos peça a palavra que examina por todos os lados”, expressava desilusão em relação à certeza da linguagem. Ainda antes, Santo Agostinho, em De magistro e De doctrina Christiana, sublinhava que as palavras não são “cópias perfeitas do pensamento”, mas “tentativas de o expressar”.

A inopia loquendi, explica o Padre Piccolo, lembra-nos os limites da linguagem e, portanto, a responsabilidade de manusear as palavras com cuidado. Na era das mídias sociais, a rapidez e a difusão das palavras correm o risco de diminuir essa prudência: “se para escrever você tem à disposição um pedaço de pele de animal muito caro, você terá muito cuidado com o que escreve; se, em vez disso, você pode escrever e apagar qualquer coisa gratuitamente, não prestará muita atenção ao que diz”. Educar os jovens “sobre o valor e as consequências das palavras”, mostrando o impacto emocional de nossas expressões, torna-se fundamental. Da mesma forma, os profissionais da comunicação devem ancorar seus conteúdos na verdade e na honestidade, e não apenas “na visibilidade ou no sucesso”.

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07 fevereiro 2026, 12:22