Leão XIV: um escândalo na Igreja quando as vítimas de abusos não são acolhidas
Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano
Não era um tema específico do Consistório extraordinário, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro no Vaticano, e, no entanto, o Papa, diante de cerca de 170 cardeais, eleitores e não eleitores, provenientes de todos os continentes, quis mencionar um problema que “ainda hoje é verdadeiramente uma ferida na vida da Igreja em muitos lugares”, isto é, “a crise” gerada pelos abusos sexuais. Um tema denunciado repetidas vezes pelo Papa norte-americano nestes meses de pontificado. Também no Consistório — inteiramente centrado nas temáticas da sinodalidade e da missão, aprovadas pela maioria dos purpurados — Leão XIV não quis deixar de fazer uma referência a essa chaga na Igreja. E o fez no discurso conclusivo dos dois dias de trabalho, cujo texto integral foi publicado neste sábado, 10 de janeiro.
“O próprio abuso causa uma ferida profunda que talvez dure por toda a vida; mas muitas vezes o escândalo na Igreja acontece porque a porta foi fechada e as vítimas não foram acolhidas nem acompanhadas com a proximidade de autênticos pastores”, afirmou o Papa em sua intervenção na Sala Paulo VI. A confirmar sua denúncia está o testemunho de uma vítima com quem teve a oportunidade de conversar recentemente: “Ela me disse que, para ela, a coisa mais dolorosa era precisamente o fato de que nenhum bispo queria escutá-la. E, portanto, também aí: a escuta é profundamente importante”, sublinhou o Santo Padre.
Próximos compromissos
A escuta, tema caro ao Papa, é uma necessidade também entre o Sucessor de Pedro e o Colégio Cardinalício. Por isso, Leão XIV pediu aos cardeais que dessem continuidade ao caminho do Consistório, a fim de aprofundar o conhecimento recíproco, fortalecer o diálogo e implementar a sinodalidade. Anunciou, assim, a intenção de “continuar os encontros” no futuro, “talvez por mais dias, uma vez por ano: três ou quatro dias, como alguns grupos sugeriram. Um primeiro dia de reflexão, de oração, de encontro, depois dois ou três dias de trabalho”.
Para este ano, entretanto, marcou um encontro no fim de junho para um segundo Consistório, hipotetizando uma data próxima à Solenidade dos Santos Pedro e Paulo. “Gostaria de sugerir, então, que, para este ano, façamos uma segunda vez dois dias”, disse, incentivando também os cardeais que “têm dificuldades por causa dos recursos econômicos” a pedirem ajuda: “Conversem. E penso que eu também, que nós também, podemos viver um pouco de solidariedade uns com os outros, e haverá maneiras, com pessoas generosas que ajudarão”.
Enviar por escrito propostas e avaliações
“O confronto está destinado a continuar”, assegurou o Papa. Nesse sentido, pediu aos cardeais que “transmitam por escrito” suas avaliações sobre os quatro temas propostos — além de sinodalidade e missionariedade, também a liturgia e a constituição Praedicate Evangelium —, bem como avaliações sobre o Consistório “em seu conjunto” e sobre o “relacionamento dos cardeais com o Santo Padre e com a Cúria Romana”. “Eu também — prometeu — me reservo o direito de ler com calma relatórios e mensagens pessoais e, depois, mais adiante, dar-lhes um retorno, uma resposta, e continuar o diálogo”.
Grato aos presentes e próximo dos ausentes
Em sua intervenção final, o Papa traçou então um balanço positivo dessa primeira experiência de colegialidade que, destacou, “está intimamente ligada àquilo que vivemos no Conclave”, antes do qual, nas congregações gerais, muitos dos cardeais haviam expressado “o desejo de nos conhecermos e de poder oferecer a sua contribuição e apoio”. O Consistório representou, portanto, “um momento privilegiado para expressar a missão da Igreja e fazê-lo juntos, em comunhão”. Leão declarou-se “profundamente grato” pela presença e pela participação dos cardeais, “todas orientadas a me sustentar no meu serviço de sucessor de Pedro”. Em particular, expressou gratidão aos mais idosos que fizeram o esforço de comparecer: “O testemunho deles é verdadeiramente precioso”. Ao mesmo tempo, manifestou proximidade aos cardeais de várias partes do mundo impossibilitados de vir por diferentes razões: “Estamos com vocês e os sentimos próximos!”. “Pessoalmente — acrescentou — senti uma profunda comunhão e sintonia com todos vocês e entre tantas intervenções”.
A importância da formação
Detendo-se nos pontos surgidos durante os trabalhos, em particular os dos 20 grupos divididos por idiomas, o Papa Leão destacou a questão da importância da formação. A “formação de todos” — nos seminários, dos sacerdotes, dos bispos, dos leigos colaboradores — que “deve estar enraizada na vida ordinária e concreta da Igreja local, das paróquias e de tantos outros lugares significativos onde as pessoas se encontram, especialmente aquelas que sofrem”. É difícil, em pouco tempo, aprofundar um tema desse tipo; é necessário, portanto, que o trabalho ordinário seja “ocasião de formação e crescimento para aqueles com quem trabalhamos, em todos os níveis, do paroquial à Cúria Romana”. Um exemplo disso são as visitas pastorais e todos os organismos de participação “a serem revitalizados”.
Sinodalidade e missão, temas enraizados no Concílio
Quanto aos dois temas votados pelos cardeais para o Consistório, o Papa reiterou que eles “estão profundamente enraizados no Concílio Vaticano II e em todo o caminho que brotou do Concílio”. Um caminho cuja importância nunca será suficientemente sublinhada: “Esse caminho é um processo de vida, de conversão, de renovação de toda a Igreja”. Os outros dois temas propostos não foram “necessariamente centrais” nos dois dias do Consistório, mas, esclareceu o Papa Leão, “estão fortemente conectados aos outros temas e ao Concílio”. Por isso, “não foram esquecidos e não serão esquecidos”.
O serviço da Cúria
Em particular, o Papa fez referência ao trabalho dos Dicastérios no espírito da Praedicate Evangelium, com seu serviço ao Papa e às Igrejas particulares. A Praedicate Evangelium — a constituição apostólica publicada em outubro de 2022, com a qual Francisco reformou a Cúria Romana — evidencia a exigência de “harmonizar melhor” o serviço da Cúria com o caminho da evangelização. Nessa perspectiva, Leão XIV assegurou seu empenho em oferecer aos cardeais e à Igreja inteira “uma estrutura de relações e de serviço, capaz de apoiar e sustentar vocês e as Igrejas locais, para enfrentar juntos, com maior pertinência e incisividade, os atuais desafios da missão”.
“Tudo isso — prosseguiu — está ligado ao caminho de implementação do Sínodo, que continua e terá uma etapa fundamental na Assembleia Eclesial programada para 2028”. “Encorajo vocês a serem fermento desse caminho” para a missão da Igreja e a serviço do anúncio do Evangelho.
Apoio a quem sofre guerras e violências
Ao concluir seu discurso, o Papa exortou a transmitir esperança ao mundo de hoje: “Não estamos reunidos aqui surdos à realidade da pobreza, do sofrimento, da guerra, da violência que aflige tantas e tantas Igrejas locais. E aqui, com elas em nossos corações, queremos dizer também que estamos próximos delas. Muitos de vocês vieram de países onde estão vivendo esse sofrimento da violência e da guerra”. Esse caminho de esperança deve ser assumido também diante dos jovens. A esperança, isto é, vivida no Jubileu recém-concluído: “Fechamos a Porta Santa, mas recordemos: a porta de Cristo e do seu amor permanece sempre aberta!”.
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