Professor Virgílio Viana, diretor geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Professor Virgílio Viana, diretor geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). 

Prof. Virgílio Viana: “há uma violência silenciosa na Amazônia”

Em entrevista à Rádio Vaticano, o diretor geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Virgilio Viana, propõe que a conservação da maior floresta tropical do mundo depende de uma "cultura da paz" e de remuneração justa para os seus guardiões.

Vatican News

As florestas tropicais são frequentemente debatidas sob a ótica das ciências naturais — biodiversidade, estoques de carbono e regulação climática. No entanto, o professor Virgílio Viana, diretor geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), uma das maiores autoridades em sustentabilidade do país e membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, defende que a sobrevivência da Amazônia depende de um elemento humano muitas vezes esquecido no debate internacional: a construção da paz.

Em passagem por Roma para participar de um seminário da Pontifícia Academia sobre a paz global, Viana concedeu uma entrevista ao jornalista Silvonei José, da Rádio Vaticano – Vatican News. O professor alertou para os níveis alarmantes de violência na região amazônica, trazendo dados que chocam pela brutalidade e pelo silenciamento.

“Nos últimos dois anos, nós tivemos na Amazônia quase três vezes mais mortes violentas do que na guerra da Ucrânia”, revelou Viana, citando dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Mas a guerra da Ucrânia é mais visível, mais bombástica. Essa violência que ocorre na Amazônia é menos visível, mas igualmente importante.”

Violência na maior floresta do mundo

Indagado sobre as razões que tornaram as cidades amazônicas algumas das mais violentas do Brasil, o professor explicou que a região enfrenta uma sobreposição de crimes ambientais e transnacionais.

Segundo Viana, o avanço da criminalidade é impulsionado por uma teia que conecta: o crime organizado e o narcotráfico (especialmente em regiões de fronteira, como o Alto Solimões); o garimpo ilegal e a extração predatória de madeira; a grilagem de terras e a expansão desordenada da fronteira agropecuária.

Esse cenário, de acordo com o diretor da FAS, gera "conflitos fundiários" que rasgam o tecido social local, chegando a dividir comunidades indígenas e ribeirinhas entre aqueles que são aliciados pelo tráfico e aqueles que resistem.

O Amor e a Ecologia Integral

Para o prof. Virgílio Viana, o aumento do aparato policial e jurídico é necessário, mas insuficiente. Inspirado no conceito de "Ecologia Integral" — um dos grandes legados do Papa Francisco —, ele defende que a solução passa por uma mudança sistêmica e espiritual. “Para que a gente conserve a Amazônia, temos que ter uma cultura baseada na paz. Uma civilização baseada no amor, como chamava o Papa”, pontuou. O professor explicou que a Ecologia Integral propõe que as respostas para a crise climática não sejam puramente tecnocráticas, mas sim humanas, integrando a proteção da floresta ao bem-estar social.

Justiça climática: remunerar os Guardiões da Floresta

O ponto alto da reflexão de Viana tocou na ferida da desigualdade social que assola a região. Ele classificou a situação atual como uma profunda "injustiça climática".

“Quem menos contribuiu para a mudança do clima — os povos indígenas e as populações tradicionais — são os mais vulneráveis. Eles não têm condições de responder às grandes secas e às grandes cheias.”

Para o professor, é inadmissível que os "guardiões do maior patrimônio vivo da humanidade" vivam em condições de penúria, sem acesso à água potável ou energia elétrica. Ele fez uma analogia direta com o próprio Vaticano para ilustrar o problema:

“É como se eles fossem os responsáveis por guardar o Museu do Vaticano. Os funcionários do museu são remunerados para cuidar daquelas relíquias. Os guardiões da floresta deveriam, da mesma forma, ser recompensados por esse papel.”

Uma revolução profunda

O professor Virgílio Viana lembrou ainda que "não existe planeta B" e que a humanidade tem cuidado muito mal da "casa comum", poluindo rios e degradando oceanos. O caminho para o futuro, segundo ele, exige uma revolução profunda não apenas na forma como produzimos, mas, principalmente, na forma como consumimos na sociedade moderna.

A mensagem deixada no Vaticano é clara: salvar a Amazônia é, antes de tudo, um ato de compaixão, tolerância e dignidade humana.

Eis a íntegra da entrevista concedida nos estúdios da Rádio Vaticano - Vatican News:

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Virgilio Viana - Superintendente-geral da FAS

Virgilio Viana é o atual Superintendente-geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Ele é engenheiro florestal, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), com PhD em Biologia Evolutiva pela Universidade de Harvard e pós-doutorado em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade da Flórida. Foi o primeiro secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, entre 2003 e 2008, responsável por reduzir o desmatamento em 66%, e atualmente também é membro ordinário da Academia de Ciências Sociais do Vaticano e professor associado da Fundação Dom Cabral.

Entre 1989 e 2009, Virgilio foi professor do Departamento de Ciências Florestais na ESALQ/USP, com dezenas de livros e centenas de artigos publicados no Brasil e no exterior. Ele também coordenou o processo de consultas nacionais que deu origem ao Forest Stewardship Council (FSC), em 1993. Foi fundador e presidente do Imaflora (1993-2000). Participou da estruturação do Center for International Research (CIFOR), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e do Fundo Brasileiro de Biodiversidade (Funbio). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia (SBEE), da Associação Paulista dos Engenheiros Florestais (APAEF) e vice-presidente da Associação Brasileira dos Secretários de Estado do Meio Ambiente (Abema).

Durante o período como secretário no Amazonas, Virgilio também coordenou o processo de concepção e implementação do Programa de Desenvolvimento Sustentável “Zona Franca Verde”, do Programa Bolsa Floresta e da primeira Lei de Mudanças Climáticas do Brasil. Neste período, a área das Unidades de Conservação do Estado aumentou em mais de 135%.

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11 junho 2026, 13:41