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Um torcedor usa um boné com os mascotes da Copa do Mundo da FIFA 2026, do lado de fora do Estádio Azteca, na Cidade do México, antes da partida de abertura da Copa do Mundo. Um torcedor usa um boné com os mascotes da Copa do Mundo da FIFA 2026, do lado de fora do Estádio Azteca, na Cidade do México, antes da partida de abertura da Copa do Mundo. 

Copa do Mundo: futebol entre poesia e jogo de equipe

No início da Copa do Mundo de 2026, a primeira a ser disputada em três países e com a participação de 48 seleções nacionais, as palavras de Leão XIV sobre o futebol como "jogo de equipe" oferecem uma chave de leitura que vai para além do esporte: de Pasolini a Saba, de Sereni a Brera, a literatura italiana demonstra que o futebol é uma linguagem capaz de descrever o indivíduo, a comunidade e o tempo.

Fabio Colagrande – Cidade do Vaticano

A Copa do Mundo, que acaba de começar na quinta-feira, 11 de junho de 2026, é um evento histórico. Trinta e nove dias de competição, cento e quatro partidas, quarenta e oito seleções nacionais e três países anfitriões — Canadá, Estados Unidos e México — farão parte de uma edição, que muda profundamente as dimensões da Copa do Mundo. Tudo isso demonstra um fenômeno esportivo sem precedentes, mas não basta para explicar sua importância. Por muitos anos, a Copa do Mundo também tem sido um evento econômico, midiático e geopolítico; gera enormes investimentos, mobiliza milhões de pessoas, influencia a imagem internacional dos Estados; gera polêmicas e incorpora as contradições dos nossos tempos. No entanto, a sua persistência no imaginário coletivo depende não só da força da indústria, que o apoia, mas também do fato que o futebol, mais que outros esportes, tenha conseguido entrar na cultura popular e erudita. Não simplesmente como notícia, mas como tema de reflexão e, por vezes, como tema poético.

As palavras do Papa

Às vésperas do torneio, o Papa Leão XIV, durante a sua Viagem a Espanha, respondeu a uma pergunta sobre futebol, com uma observação surpreendentemente simples: "A vida não é uma corrida para ser percorrida sozinhos, mas é algo que se joga em equipe". E acrescentou: “Mesmo aqueles, com talento extraordinário, se nunca passarem a bola, provavelmente acabarão como perdedores. Esta não é uma exortação moral, artificialmente derivada do esporte, mas o reconhecimento de uma característica essencial do jogo: o futebol raramente recompensa um gesto isolado, mas exige investimento em relações. O talento pode decidir um jogo, mas sozinho, raramente é suficiente para realizá-lo, a menos que seja colocado a serviço dos companheiros de equipe”.

Pasolini e a linguagem do futebol

A Itália, pelo terceiro ano consecutivo, não participará da Copa do Mundo. No entanto, o futebol está tão enraizado na cultura italiana, que aparece nos escritos de alguns de seus maiores autores. Em um artigo, publicado no jornal “Il Giorno”, em 3 de janeiro de 1971, Pierpaolo Pasolini o definiu "uma linguagem com seus próprios poetas e prosadores". O poeta, escritor e diretor cinematográfico desenvolveu a ideia do futebol como um sistema de signos, quase como uma espécie de linguagem não verbal, com seu próprio vocabulário elementar. Uma linguagem com uma gramática compartilhada e, ao mesmo tempo, a possibilidade de invenção. De fato, existem regras, mas também o que foge das regras. Para Pasolini, os momentos verdadeiramente poéticos do futebol são os gols, porque cada gol é "uma subversão do código". O futebol, portanto, em sua visão, é interessante, não quando repete um esquema, mas quando reproduz o inesperado. É a mesma diferença entre uma frase produzida por inteligência artificial e uma página de literatura.

A multidão de Saba e a memória de Sereni

Umberto Saba, no ciclo lírico "Cinco Poemas para o Jogo de Futebol", incluído em Parole (Palavras, 1933-1934), setor do Compositor, transforma uma partida disputada pelo time de sua cidade natal, Triestina, em material épico e emocional. Em seus versos, o centro do palco não é o campeão, mas a comunidade que participa do evento. Nos hendecassílabos (verso de onze sílabas) expressos no "Gol", "a multidão – unida em euforia – parecia transbordar / para o campo", enquanto o goleiro derrotado ficava sozinho com sua decepção. Desta forma, o futebol torna-se um raro exercício de emoção compartilhada, no qual a alegria de uma pessoa de repente pertence a muitos.

O lombardo, Vittorio Sereni, em seu poema "Domenica sportiva" (“Domingo esportivo”), composto na década de 1930 e, posteriormente, incluído em Frontiera, transforma uma partida entre o seu amado Inter de Milão e Juventus em uma cena emblemática de celebração coletiva e da sua conclusão. O estádio, inicialmente lotado e colorido, após o jogo, torna-se "um silêncio de ecos / na chuva que apaga tudo", personificando um dos temas centrais de Sereni: o breve florescimento da vida, ameaçado pelo esquecimento. Através da imagem de "um verde tão meigo, que se diria de abril", o campo perde sua função competitiva e se torna uma paisagem interior. Os dias de domingo, os estádios, as esperas acabam por narrar uma biografia pessoal e, ao mesmo tempo, um período da história italiana.

Brera e a história de um país

Gianni Brera, um dos maiores jornalistas e escritores esportivos italianos do século XX, dá um passo a mais. Nas suas crônicas, o futebol não é simplesmente uma técnica ou tática, mas geografia, linguagem, antropologia. Por meio de um jogo, ele conta a história de cidades, planícies, dialetos, caráter das pessoas. Assim, os jogadores se tornam personagens de um romance civil e o léxico esportivo se enriquece com invenções linguísticas, que agora entraram estavelmente na língua italiana. Será por isso, talvez, que o futebol tenha produzido uma literatura tão rica, porque oferece uma representação básica da convivência humana.

Mais importante que o gol

Em algumas semanas, saberemos o nome da seleção campeã da Copa do Mundo. Os arquivos, as estatísticas e os registros desta edição inédita permanecerão. Mas, a razão pela qual o futebol continua a interessar poetas e escritores é provavelmente outra. Em um jogo, observamos, de forma simples e imediatamente compreensível, a relação entre o indivíduo e a comunidade, entre o sucesso pessoal e o destino compartilhado. É por isso que, de modo surpreendente, às vésperas da Copa do Mundo, o Papa tenha escolhido como imagem não de um gol decisivo ou de um campeão, mas o gesto mais comum e menos espetacular do futebol: o passe de bola.

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13 junho 2026, 10:30