Parte do monumento ao fundador da União Soviética, Vladimir Lenin, é vista em frente a um conjunto de esculturas na entrada principal do Centro de Exposições de Toda a Rússia (VDNKh) em Moscou, em 14 de maio de 2026. (Foto de Alexander Nemenov / AFP) Parte do monumento ao fundador da União Soviética, Vladimir Lenin, é vista em frente a um conjunto de esculturas na entrada principal do Centro de Exposições de Toda a Rússia (VDNKh) em Moscou, em 14 de maio de 2026. (Foto de Alexander Nemenov / AFP)  (AFP or licensors)

O retorno dos jovens russos ao comunismo, em meio à guerra e à crise econômica

Cresce a demanda popular por uma política "de esquerda". Entre as reivindicações está uma taxação obre os super-ricos como resposta à desigualdade social. Jovens estão se juntando a grupos radicais de esquerda em busca da "verdade" e entrando em confronto com grupos nazistas nas ruas. Em um clima de cansaço, qualquer reivindicação se reveste de grande potencial. O declínio constante, mas ainda não catastrófico, do Rússia Unida e de Putin.

Pe. Stefano Caprio*

A frase de maior efeito no ambiente político russo nos últimos dias foi aquela pronunciada pelo líder histórico dos comunistas da Federação Russa, Gennady Zyuganov, quando, em 22 de abril, aniversário de Vladimir Lenin, declarou na Duma de Estado que "se não tomassem medidas eficazes em nívei econômico, financeiro e social, uma repetição de 1917 nos aguarda no outono, e não temos o direito de repetir essa experiência".

O grande adversário de Boris Yeltsin, que pavimentou o caminho para a ascensão de Vladimir Putin, certamente não tinha em mente a revolução bolchevique de outubro, mas sim a primeira revolução de fevereiro, quando, em 8 de março (segundo o novo calendário), as mulheres de Petrogrado atacaram os cadetes indefesos que protegiam o Palácio de Inverno, enquanto o czar Nicolau II estava perto da linha de frente apoiando os exércitos na catastrófica guerra contra os alemães e não percebeu o colapso do império.

Com a derrocada cada vez mais inevitável rumo a uma crise econômica generalizada, na Rússia há uma crescente demanda popular por uma política de "esquerda" que, sem recorrer à perigosa noção de uma "operação militar especial", possa defender os interesses das classes sociais mais

Alguns blogger alinhados ao comunismo, como Andrei Rudoi, estão acumulando milhões de seguidores no YouTube, apesar do bloqueio que deveria torná-lo inacessível, a menos que utilizem sistemas de VPN que as agências reguladoras são incapazes de erradicar dos usuários. Os levaki, ou "simpatizantes da esquerda", propõe campanhas em favor de uma taxação para os super-ricos, dado o nível cada vez maior de desigualdade social, e pequenos grupos radicais de marxistas-leninistas, trotskistas e maoístas estão entre os principais defensores ativos por uma internet livre.

"Maoístas: os russos precisam se comunicar! Parem de bloquear o Telegram!" Esta faixa foi pendurada em uma rua de Čeljabinsk no final de março por ativistas da União Maoísta dos Urais, conforme relatado pela Novaja Gazeta Evropa. As forças de segurança locais tomaram conhecimento do fato, prenderam duas pessoas e, de acordo com relatos não confirmados, com uma delas havia explosivos. O Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PKR), de inspiração trotskista, está distribuindo panfletos por toda parte contra o uso forçado do serviço patriótico de mensagens Max e distribuindo materiais de propaganda do partido nas entradas de fábricas na região de Moscou. "Lenin conseguiu, então você também consegue!" é o slogan que difundem para os trabalhadores em seus materiais de propaganda.

Apoiadores do Partido Comunista Russo (PCRF) se preparam para o embarque do 154º comboio humanitário na Fazenda Estatal Lenin, nos arredores de Moscou, Rússia, em 14 de maio de 2026. O comboio, organizado pelo Partido Comunista Russo e destinado ao exército russo e aos moradores das regiões de Kursk, Donetsk e Luhansk, entregará produtos não perecíveis (cereais, enlatados), medicamentos, roupas de inverno, além de equipamentos especiais – SUVs e motocicletas. EPA/SERGEI ILNITSKY
Apoiadores do Partido Comunista Russo (PCRF) se preparam para o embarque do 154º comboio humanitário na Fazenda Estatal Lenin, nos arredores de Moscou, Rússia, em 14 de maio de 2026. O comboio, organizado pelo Partido Comunista Russo e destinado ao exército russo e aos moradores das regiões de Kursk, Donetsk e Luhansk, entregará produtos não perecíveis (cereais, enlatados), medicamentos, roupas de inverno, além de equipamentos especiais – SUVs e motocicletas. EPA/SERGEI ILNITSKY   (ANSA)

O Partido Comunista Russo (Internacionalista) organizou uma manifestação em Novosibirsk contra o abate de animais e também está entre os principais organizadores de manifestações e piquetes em várias cidades contra as restrições à internet. Operando na Rússia, o PKR Internacionalista também consegue criticar também a União Soviética, e recentemente o seu grupo no VKontakte foi bloqueado por esse motivo.

Os anarquistas da Autonomous Action também recomendam baixar e distribuir cuidadosamente materiais de propaganda contra a guerra com a Ucrânia via VPN e publicam regularmente fotografias desses cartazes de várias cidades. "Na Rússia e em outros lugares, os jovens se juntam a grupos radicais de esquerda porque buscam a verdade. A política radical, especialmente a política de esquerda, permite viver em um estado de produção contínua da verdade: uma enorme quantidade de textos, declarações e ações públicas são criadas", diz um programador de Moscou que participou anteriormente de grupos radicais de esquerda semelhantes e que concedeu uma entrevista anônima ao Novaja Gazeta.

Ele observa que o pensamento radical não está particularmente interessado em atingir objetivos, mas sim no próprio processo, portanto é inútil discutir o que esses grupos radicais são capazes de alcançar na Rússia moderna. De acordo com o programador, eles alcançam qualquer resultado "mais apesar do que graças a". As referências a figuras históricas — Trotsky, Kropotkin, Mao, Che Guevara ou Stalin — para esses ativistas representam mais uma tradução subcultural ou até mesmo religiosa, um modo mais silples para construir uma narração. Por que me tornei um comunista no liceu e não um fã de Tolkien ou punk? Não tenho uma resposta, acho que foi o desejo de encontrar um ambiente para a comunicação intelectual. "Eu participava de reuniões, piquetes e fazia parte de organizações. Éramos em poucos e todos se conheciam. Éramosmuito distantes da sociedade e de seus problemas", recorda o programador.

Contudo, tais movimentos não devem ser subestimados: "Se e quando surgirem oportunidades políticas na Rússia, tudo o que aconteceu terá importância. Alguns membros de grupos de esquerda certamente participarão da nova política." As organizações mudam rapidamente e novas provavelmente surgirão, e, em comparação com a fase da perestrojka de Gorbachev, "a Rússia democrática em si não conquistou nada, mas seus membros participaram de muitas iniciativas", observa um ex-ativista.

A demanda por política de esquerda na Rússia é, na verdade, muito mais ampla do que o que pequenos círculos marxistas e anarquistas semi-subculturais podem oferecer; em um contexto de desgaste pela guerra na sociedade russa, com crescentes perdas militares diretas, demissões em massa, declínio econômico, aumento de impostos e ações insanas das autoridades, como o abate de animais sem explicação ou indenização, quaisquer reivindicações sociais, qualquer crítica às autoridades por parte da esquerda, têm grande potencial.

O vitsom, o centro de pesquisa pró-governo de opinião pública  panrussa, vem registrando um declínio constante, embora ainda não catastrófico, nos índices de aprovação do Rússia Unida e do próprio presidente Vladimir Putin. A operação SVO, o aumento dos preços e a situação do sistema de saúde são as principais preocupações dos russos. "Estou convencido de que, em uma futura Rússia democrática, a esquerda terá maioria no parlamento. Talvez haverá diversos partidos", diz Yevgeny Stupin, ex-deputado da Duma de Moscou e membro do Partido Comunista. Ele acredita que "já existem muitas estruturas e indivíduos de esquerda aguardando a oportunidade de se juntar à luta legal".

Os russos têm um forte desejo por justiça social, o que indica uma forte guinada à esquerda e, infelizmente, um forte impulso em direção ao nacionalismo interno devido ao completo fracasso da política migratória, e também porque agora há muitos militares na Rússia, em sua maioria de direita. Os liberais terão mais dificuldades nessa situação, especialmente porque a classe média, que tradicionalmente apoiava Alexei Navalny e outros movimentos liberais, está desaparecendo lentamente: muitos deixaram a Rússia, outros caíram na pobreza ou, ao contrário, ingressaram na elite. O próprio Stupin foi forçado a deixar a Rússia em 2023 devido à ameaça de processo criminal, mas sua audiência combinada no Telegram e no YouTube chega a quase um milhão de pessoas, e ele publica inúmeros vídeos e artigos sobre conflitos sociais na Rússia.

Com as manifestações praticamente proibidas, a pressão sobre os meios de comunicação a cada vez maior e as eleições desprovidas de concorrência, é difícil avaliar a relevância de qualquer ideia política. Vários meios de comunicação russos de esquerda têm dezenas de milhares de inscritos no Telegram e centenas de milhares no YouTube. Embora os seus números sejam menores do que os de muitos meios de comunicação liberais ou nacionalistas, a esquerda está gradualmente recuperando terreno. As figuras públicas da extrema-esquerda continuam a ser poucas, em parte devido ao risco de perseguição. O professor e ativista sindical independente Andrei Rudoj é um dos bloggers mais populares, com mais de 350.000 inscritos no Telegram e no YouTube, e também conseguiu deixar a Rússia sem ser preso. Outra figura pública de esquerda bastante conhecida, o filósofo marxista Boris Kagarlitsky, afirmou que não sairia da Rússia por princípio e está atualmente cumprindo uma pena de cinco anos por "justificação do terrorismo".

Outra fonte de incitamento para os movimentos de esquerda tem sido a ascensão da extrema-direita e a inegável fascistização do Estado como um todo. Por exemplo, a Frente Estudantil Antifascista, que opera legalmente na Rússia e organizou protestos contra a Escola Ivan Il’in da Universidade Estatal Russa de Ciências Humanísticas, o que levou à renúncia do reitor da universidade, publicou material crítico ao recrutamento de estudantes para milícias paramilitares e também lançou uma campanha para a implementação de um imposto sobre bens de luxo para financiar subsídios habitacionais para jovens. Jovens de esquerda frequentemente entram em confronto com nazistas nas ruas das cidades russas, e talvez seja por isso que Putin esteja começando a falar em "acabar com a guerra", para evitar o início de um conflito muito destrutivo dentro da própria Rússia.

*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Esse artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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18 maio 2026, 09:39