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Foco na História: as grandes civilizações africanas. Foco na História: as grandes civilizações africanas.  

Foco na História: as grandes civilizações africanas. O início do comércio de escravos na África

Nas últimas décadas vem sendo resgatados elementos importantes da história da África, sua ancestralidade em relação a outras regiões do mundo. A própria definição do nome do continente ganha realce nessa relação.

Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista

Ao longo do estudo que estamos fazendo sobre a História da África, com suas mazelas, mas com sua riqueza cultural, religiosa e linguística, pudemos perceber como a nova vertente da historiografia moderna tem incluído essa história no contexto da história das civilizações e na história mundial.

Nas últimas décadas vem sendo resgatados elementos importantes da história da África, sua ancestralidade em relação a outras regiões do mundo. A própria definição do nome do continente ganha realce nessa relação.

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A historiografia trabalha também uma nova versão do conceito de “descobrimento”, porque numa visão anterior, falava-se do descobrimento a partir da chegada de alguns povos europeus a partir dos séculos XV e XVI. Hoje não se fala em descobrimento como se os povos africanos tivessem sido achados do nada, mas entende-se como encontro de civilizações com suas riquezas, diferenças e mazelas. Não se trata mais de falar em termos de superioridade ou inferioridade, mas de encontro entre diferenças que se complementam.

Um dos elementos que está sendo reestudado é o da escravidão. Antes atribuída exclusivamente aos europeus que levaram milhões de escravos negros para diversas regiões das Américas, agora compreende-se que a escravidão já era praticada no continente antes mesmo da chegada dos europeus.

Registros da escravidão

Existem registros de comércio e transporte de escravos ao longo do Deserto do Saara que datam do terceiro milénio a.C., sendo os mais antigos registros encontrados. Em seu reinado o rei egípcio Sneferu atravessou a quarta catarata do Rio Nilo até o que é hoje o Sudão moderno para capturar escravos e enviá-los para o norte, a fim de trabalhar nas obras do reino.

Uma das ocorrências que aconteciam com frequência era a condenação dos prisioneiros de guerra à escravidão. Isso ocorria de forma regular no antigo Vale do Nilo e na África. Em geral, quando dois exércitos se encontravam, o mais forte ou vencedor se julgava no direito de dispor da vida dos derrotados como mão de obras em seus empreendimentos. Alguns estudiosos falam, inclusive, no avanço que a escravidão representou, pois em vez de decretar a morte dos derrotados, eles eram condenados a uma morte mais lenta, servindo como mão de obra barata nos trabalhos do reino ou do povo vencedor. Durante os tempos de conquista e depois de derrotados, os núbios, por exemplo, foram levados como escravos pelos antigos egípcios.

Nas páginas da bíblia, no Livro do Êxodo, existe também a narrativa da condenação dos filhos de Jacó e seus descendentes à escravidão no Egito.  

Os Garamantes, por exemplo, também dependiam fortemente do trabalho escravo da África subsaariana. Eles usaram escravos em suas próprias comunidades para construir e manter sistemas de irrigação subterrâneos conhecidos pelos berberes como foggara. O antigo historiador grego Heródoto registrou no século 5 a.C. que os Garamantes escravizaram etíopes habitantes das cavernas, conhecidos como Troglodytae, perseguindo-os com carruagens.

Quando Roma se firmou como potência, no início do Império Romano, a cidade de Lepcis estabeleceu um mercado para comprar e vender escravos do interior da África Bantu. Isso se tornaria bastante comum e algumas cidades se enriqueceram pelo comércio de escravos em seus mercados.

No século V d.C., a Cartago romano também estava negociando escravos negros trazidos através do Saara, tanto que o império chegou a impor um imposto alfandegário sobre o comércio de escravos. Escravos negros parecem ter sido valorizados como escravos domésticos por sua aparência exótica. Alguns historiadores argumentam que a escala do comércio de escravos neste período pode ter sido maior do que nos tempos medievais devido à alta demanda por escravos no Império Romano, seja para os trabalhos forçados como também pelas lutas onde alguns mais fortes se destacavam como gladiadores.

Claro que, apesar de ter uma origem anterior, a chegada dos europeus e a constituição dos grandes impérios coloniais fizeram com que o comércio escravagista assumisse proporções numéricas e de crueldade nunca vistas.

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26 fevereiro 2026, 15:57