Quando a língua é casa: migração, pertencimento e herança cultural
Maria Rosa Del Gaudio e Uyara Liege*
Há histórias que nos ajudam a nomear aquilo que muitas vezes sentimos, mas não sabemos explicar. Basta pensar no caso do Lucas Pinheiro Braathen, esquiador alpino brasileiro nascido na Noruega que representa o Brasil nas competições internacionais e recentemente ganhou medalha de ouro pelo país nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Quando esse jovem de 25 anos fala sobre crescer entre línguas, culturas e identidades, ele não fala apenas de esporte. Ele fala de pertencimento. De atravessar fronteiras internas e externas. Ele traz à reflexão que aprender, desde cedo, que uma pessoa pode ser muitas, sem deixar de ser inteira.
Pertencer a mais de uma língua não é confusão: é riqueza. É carregar na voz as marcas das histórias que nos formaram. É reconhecer que a língua que falamos molda a forma como sentimos, pensamos e nos relacionamos com o mundo. E, sobretudo, é entender que nenhuma língua que nos habita deveria ser silenciada.
Essa reflexão ganha ainda mais sentido quando lembramos do 21 de fevereiro, Dia Internacional da Língua Materna, uma data que nos convida a olhar para as línguas não apenas como ferramentas de comunicação, mas como territórios afetivos, culturais e identitários. Para quem vive fora do seu país de origem, a língua materna é, muitas vezes, o último fio que nos mantém ligados à nossa história.
É a partir dessa vivência que nasce Compartilhar é Multiplicar, um livro que reúne experiências desenvolvidas na Itália e em diferentes partes do mundo com famílias que escolheram, ou precisaram, migrar. Ao longo dessas páginas, contamos como manter viva a língua de origem é também uma forma de resistência, de cuidado e de amor. Falar a própria língua em casa, transmiti-la aos filhos, garantir espaços onde ela possa existir sem constrangimento é assegurar o direito de ser quem se é, por inteiro, mesmo vivendo no exterior.
Essa discussão se amplia quando lembramos que o próprio dia 21 de fevereiro também evoca a migração italiana, marcada por partidas, saudades e recomeços em outros continentes. Milhões de italianos atravessaram oceanos levando consigo sua língua, seus gestos, sua cultura. E foi justamente esse movimento migratório que permitiu trocas, encontros e contaminações culturais que enriqueceram o mundo.
Hoje, vivendo na Itália, desenvolvemos esse trabalho conscientes de que fazemos parte dessa história maior. O mundo que conhecemos é fruto desses deslocamentos, dessas misturas, dessas línguas que se encontram, se transformam e se multiplicam. Não existe identidade pura, existem identidades construídas no encontro.
Assim como Lucas Pinheiro Braathen nos lembra, não é preciso escolher entre uma língua ou outra, entre uma cultura ou outra. É possível, e necessário, habitar todas elas. Valorizar nossas origens, honrar nossas trajetórias e transmitir às próximas gerações o direito de falar, sentir e existir em mais de uma língua.
* Maria Rosa Del Gaudio, ítalo-brasileira de descendência, natural de Belo Horizonte (MG), em 2016, mudou-se para Nápoles, Itália. Desde 2018, é educadora na iniciativa Brasilidade. É mestre em Educação e Psicopedagoga, sspecialista em Docência Universitária e Pedagoga. No Brasil, foi alfabetizadora por mais de 10 anos, professora universitária, coordenadora do curso de Pedagogia, diretora pedagógica universitária, consultora educacional, mediadora literária, assessora pedagógica na Secretaria de Educação de Betim (MG) e aposentada como pedagoga do Ensino Fundamental. Em 2020, fez o curso “Ensine POLH”, realizado pelo Papo de Profes (SP). Em 2021, participou do “Curso de elaboração de materiais didáticos na Université Sorbonne-Nouvelle: o ensino de Português como Língua de Herança”. Esteve no IV SEPOLH (2019, Pisa, Itália) como ouvinte e apresentou o poster “Laboratório POLH: um resgate afetivo pelo viés da Língua Materna”, no V SEPOLH (2021, Barcelona, Espanha) como ouvinte e compartilhando o relato de experiência “O trabalho com gêneros textuais e a competência comunicativa em POLH” e no VI SEPOLH (2023, Portugal), ministrando o workshop “As potencialidades da literatura para o trabalho em/de POLH”. É co-autora do livro Compartilhar é multiplicar: relato de uma experiência com o POLH na Itália.
* Uyara Liege é idealizadora e coordenadora da iniciativa de POLH Brasilidade-Famílias com filhos plurilíngues. É ítalo-brasileira, nascida em Feira de Santana (BA) e, desde 2010, mora no exterior. É mãe, atua na área educacional desde 2000, formada em Pedagogia (UEFS/BA), especializada em Neuropsicologia (FACINTER/PR) e, em 2019, concluiu o curso Didática do Português Língua de Herança, pelo Instituto Camões (PT). O resultado do seu trabalho de conclusão deste curso foi apresentada na sessão de comunicação no IV SEPOLH (Simpósio Europeu sobre o Ensino de Português como Língua de Herança) em Florença e Pisa, Itália, 2019 e publicado no livro Bilinguismo e Línguas de herança: Construindo pontes e diálogos entre línguas-culturas. No Brasil, foi professora do ensino fundamental e formadora de professores. Na Itália, realiza laboratórios interculturais em escolas, colabora como educadora em associações, atua como pedagoga e realiza intervenções de habilitação/reabilitação com crianças, é intérprete e mediadora linguística. Em 2021, participou do “Curso de elaboração de materiais didáticos na Université Sorbonne-Nouvelle: o ensino de Português como Língua de Herança”. Esteve no IV SEPOLH (2019, Pisa, Itália) colaborando na organização do evento e apresentou o poster “Laboratório POLH: um resgate afetivo pelo viés da Língua Materna” e no V SEPOLH (2021, Barcelona, Espanha) como ouvinte e compartilhando o relato de experiência “O trabalho com gêneros textuais e a competência comunicativa em POLH”. É co-autora do livro Compartilhar é multiplicar: relato de uma experiência com o POLH na Itália.
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