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2026.02.18 Udienza Generale

Ucrânia: o amor de familiares de desaparecidos e prisioneiros que não desiste

Uma mãe que tenta trazer o seu filho de volta para casa. Um jovem civil capturado há três anos pelos militares russos. Um pai que por dois anos e meio esperou notícias do filho soldado, declarado desaparecido e, que após a confirmação da sua morte, começou a ajudar outras famílias. Um ex-prisioneiro, libertado após mais de três anos de detenção, graças também ao empenho incansável da filha. São histórias de dor e esperança, contadas aos microfones da mídia vaticana.

Svitlana Dukhovych - Vatican News

“Não posso me resignar, tenho que lutar pelo meu filho porque aqueles que estiveram presos com ele e depois foram libertados me relataram as suas palavras: ele acredita que a sua mãe está lutando por ele”, conta em entrevista à mídia do Vaticano Valentyna Shcherbyna, mãe de Mykola, um jovem civil de Kherson, estudante, atualmente prisioneiro na Rússia. Quando Mykola foi levado, tinha 21 anos; hoje tem 24.

Valentyna chegou a Roma com uma delegação de quase 30 pessoas, composta por representantes de organizações civis que oferecem apoio aos familiares de desaparecidos e prisioneiros, tanto militares como civis. Na última quarta-feira, 18 de fevereiro, a delegação participou da Audiência Geral na Praça São Pedro, ao final da qual pôde se encontrar com o Papa Leão XIV. Após a audiência, os membros da delegação também se reuniram com o cardeal Matteo Zuppi, nomeado pelo Papa Francisco como enviado especial para a missão humanitária na Ucrânia, focada na libertação dos prisioneiros de guerra e no retorno das crianças ucranianas às suas famílias.

O encontro com o Papa na Praça São Pedro ao final da Audiência Geral
O encontro com o Papa na Praça São Pedro ao final da Audiência Geral   (@Vatican Media)

Agir apesar da dor

«Os militares russos levaram meu filho de casa, com um saco na cabeça, e o levaram para um destino desconhecido», continua Valentyna. «Os primeiros dias foram muito difíceis, eu estava em choque e não conseguia entender o que estava acontecendo, mas sabia que precisava reagir, procurar meu filho. Muitas pessoas a quem recorri me ajudaram, indicando o que fazer e a quem recorrer. Assim, pouco a pouco, cheguei ao ponto em que, após seis meses, o país agressor confirmou através da Cruz Vermelha Internacional que meu filho estava preso”.

Valentyna representa a associação “Civis em cativeiro”, que organiza iniciativas para sensibilizar a opinião pública sobre o tema dos civis prisioneiros. Para ela, esta é a segunda visita à Itália. Comentando o encontro com o cardeal Zuppi, ela destaca a expectativa de uma ajuda concreta para encontrar um mecanismo eficaz de restituição dos civis: “os civis são restituídos muito raramente”, diz ela, "eles não são sujeitos a trocas: só podem ser devolvidos. E para isso é necessário um mecanismo. Esperamos muito que nos ajudem nisso”.

O retorno para casa após mais de três anos de cativeiro

A esperança para ela também vem da experiência de Oleh Muzlov, que durante a entrevista está ao lado dela. Oleh é um militar ucraniano capturado pelos soldados russos em Mariupol. Ele foi libertado após 3 anos e 3 meses de cativeiro, em junho de 2025, durante uma troca de prisioneiros. “Enquanto estava em cativeiro”, conta o homem, “tive uma única conversa com minha filha em fevereiro de 2025. Pouco antes, minha filha tinha ido a Roma, ao Vaticano. Depois dessa conversa telefônica com minha filha, tudo começou a se mover e, pouco depois, fui trocado. Por que vim aqui agora? Porque acredito que o Senhor ajuda”. Quando questionado sobre o que o sustentou durante o cativeiro, ele responde sem hesitar: “apenas as orações”.

A entrevista nos estúdios da Rádio Vaticano
A entrevista nos estúdios da Rádio Vaticano

Liliya Orel, que representa a associação “Condenados, mas não esquecidos” e cujo filho ainda está preso, conta que, juntamente com Kateryna, a filha de Oleh, conseguiu entregar ao cardeal Matteo Zuppi, em novembro de 2024, após a Santa Missa em Roma por ocasião dos 1000 dias de guerra contra a Ucrânia, as listas dos militares prisioneiros gravemente doentes ou feridos. Oleh Muzlov também constava dessa lista. “Agradecemos também à Embaixada da Ucrânia junto à Santa Sé – ao embaixador Andriy Yurash e sua esposa Diana – que cuidam de cada nome, de cada defensor, de cada cidadão ucraniano. Infelizmente, no meu caso, ainda estou à espera do meu filho que está prisioneiro. Mas continuamos a trabalhar», afirma Liliya.

O compromisso de um pai em memória do filho falecido

O filho de Oleh Litvynenko estava desaparecido desde junho de 2022. “Durante dois anos e meio, ele foi considerado desaparecido”, conta o pai, "depois, graças a um teste de DNA, o corpo dele foi identificado. Eu o enterrei...”. Oleh fala com a voz trêmula, mas determinada, expressando o amor pelo filho e a dor pela sua perda, mas também a consciência do que deve fazer para honrar a sua memória. “Mas o destino de todos os jovens desaparecidos ou prisioneiros está no meu coração. É por isso que estou aqui hoje”.

Atualmente, Litvynenko é gestor de casos para desaparecidos e prisioneiros na organização “Veterans Hub Odesa”.  «Os familiares dos desaparecidos entram em contato comigo e eu crio um algoritmo de ação para localizar as pessoas desaparecidas: a quem escrever, quem contatar, quais respostas obter. Também comunico com os responsáveis pelas estruturas. Ajudo como posso. Recebo contatos de pessoas de diferentes regiões da Ucrânia e até mesmo do exterior”.

Apesar da grande tragédia – a perda do filho, que tinha apenas 29 anos quando desapareceu –, o pai não se fecha na dor: “ajudo os familiares dos desaparecidos e dos prisioneiros para acalmar minha alma”, compartilha. “Meus amigos dizem: ‘você faz isso por você mesmo e pelo seu filho’. E isso realmente ajuda. Quando você se dedica completamente ao bem dos outros, surge uma sensação de alívio”. É impressionante a força desse pai, que inspira os outros a não perderem a esperança na busca por seus entes queridos desaparecidos. “É preciso acreditar e ter esperança de que tudo vai ficar bem. Não se deve desistir. É preciso viver na esperança e na oração”, afirma. Espera-se que a comunidade internacional “divulgue esta questão, para que o mundo inteiro saiba o que é a Ucrânia, o que é esta guerra e quem é o agressor”.

A filha do ex-prisioneiro: é importante não se perder na dor

Às numerosas famílias ucranianas que aguardam seus entes queridos nas prisões russas, Oleh Muzlov diz para não perderem a esperança: “elas devem esperar, e no final receberão seus entes queridos”. Sua filha Kateryna lembra a espera de mais de três anos pelo retorno do pai e ressalta que as famílias também devem cuidar de si mesmas: “quando os prisioneiros voltam para casa, eles precisam de apoio. Lembro-me que, um mês após o retorno do meu pai, eu chorava enquanto lavava a louça, porque o corpo estava acostumado ao estresse constante. Portanto, é importante não se perder na dor, encontrar forças e manter o equilíbrio para receber dignamente os entes queridos e apoiá-los. Quando voltam do cativeiro, muitas vezes dizem que está tudo bem, mas por dentro estão muito frágeis e precisam de apoio”. “Gostaria também de agradecer ao clero, que fez um grande trabalho pela libertação dos nossos rapazes”, acrescenta o pai, para concluir.

Leão XIV ao receber a delegação ucraniana ao final da Audiência Geral na Praça São Pedro
Leão XIV ao receber a delegação ucraniana ao final da Audiência Geral na Praça São Pedro   (@Vatican Media)

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24 fevereiro 2026, 10:56