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Foto de 16 de julho de 2018 ,do encontro entre Trump e Putin em Heksinki, Finlândia Foto de 16 de julho de 2018 ,do encontro entre Trump e Putin em Heksinki, Finlândia 

Venezuela e Ucrânia: o novo mundo de Putin e Trump

A “Doutrina Donroe”, enunciada por Trump, agora corresponde perfeitamente aos princípios do Russkij Mir de Putin: os EUA, assim como a Rússia, avaliam o quanto os países em seu próprio espaço de competência, seja o continente americano ou o antigo espaço eurasiano soviético, devem ser controlados, conquistados, invadidos e explorados.

Pe. Stefano Caprio*

A operação americana em Caracas provocou reações contrastantes na Rússia, a começar pela inveja de Putin por Trump ter conseguido fazer em duas horas o que ele não conseguiu em quatro anos, ou seja, capturar e aniquilar o líder "ucronazista" Zelenskyy e exibi-lo ao mundo, como aconteceu com o ditador "narcotraficante" Maduro. O ex-presidente Dmitry Medvedev, por sua vez, em seu habitual discurso inflamado, fez uma advertência aos "camaradas do Pindostan", como eram chamados pejorativamentes os americanos na época soviética: "Agora vocês não podem mais nos repreender por nada, nem mesmo formalmente", visto que "a equipe de Trump se ocupa somente dos próprios interesses, de modo cínico e violento".

Em suma, a "doutrina Donroe", enunciada por Trump para defender os ideais MAGA, corresponde agora perfeitamente aos princípios do Russkij Mir de Putin: os EUA, assim como a Rússia, avaliam o quanto os países do próprio espaço de competência - seja ele o duplo continente americano ou o espaço eurasiático ex-soviético -, devem ser controlados, conquistados, invadidos e explorados, e ninguém deve interferir, especialmente os europeus depravados.

Os "pindosy" americanos dos tempos soviéticos eram ainda mais semelhantes aos gregos da época czarista, acusados ​​de "degradação moral" já no século XIX, sendo também os adversários pela defesa da verdadeira fé ortodoxa, e não por acaso a guerra russa na Ucrânia foi provocada pelo cisma com o Patriarcado de Constantinopla. Em grego moderno, "pindos" significa, de fato, "lago fétido", tudo aquilo de que se deve livrar e purificar.

Na forte ironia de Medvedev transparece também uma certa sensação de satisfação, do tipo "vocês viram que agora todos nos imitam", dando à Rússia a convicção de que conseguiu voltar a governar o mundo como nos bons tempos da Guerra Fria.

Assim, entre a Ucrânia e a Venezuela,se contempla o fim do globalismo pós-soviético de trinta anos, desde as reformas liberais de Yeltsin em 1992 até a operação especial de Putin em 2022; com as conquistas de Trump em 2026, começaria uma nova era de divisão mundial entre vários imperadores, de Trump a Putin até Xi Jinping. Agora se entende melhor por que a palavra "guerra" foi oficialmente banida do discurso público na Rússia, tanto que nos textox, voina deve ser escrito v***na com asteriscos, sob pena de multas pesadas: a guerra é somente um "ideal religioso" proclamado pelo Patriarca de Moscou, Kirill, que no Natal proclamou os soldados como "homens santos agindo em nome de Deus", enquanto o que está acontecendo é uma operação verdadeiramente "especial", da qual a conquista militar é apenas a fachada, e cujo verdadeiro objetivo é uma nova definição das relações entre homens e Estados, um novo mundo ainda a ser completamente reorganizado.

Estamos apenas no início, e as farsescas negociações de paz na Ucrânia estão perdendo cada vez mais o sentido, deixando espaço para a compra e venda de petróleo, de territórios e dos gelos eternos, agora derretendo, como o da tão cobiçada Groenlândia, a nova "Ucrânia" que marca a fronteira ártica dos impérios.

Trump impôs à presidente ad interim da Venezuela, Delcy Rodríguez, sob seu controle total, que rompesse todos os laços comerciais e financeiros com a Rússia e a China, que, consequentemente, protestaram nas agora mofadas câmaras do Conselho de Segurança da ONU. Seus representantes pediram a libertação de Maduro, enquanto os americanos respondem que "não estamos em guerra com a Venezuela e não a ocupamos", justamente quando se iniciam as sessões judiciais para apresentar acusações contra o líder deposto e acorrentado.

O russo Vasily Nebenzja acrescentou na sessão da ONU que o "incidente" de 3 de janeiro em Caracas é "um prenúncio do retorno à era da ilegalidade e da dominação americana imposta à força, do caos e da imoralidade", ecoando os tons agressivos da Guerra Fria do século XX e da "guerra híbrida" do terceiro milênio, mas também anunciando o restabelecimento dos papéis. Após justificar repetidamente a operação da Rússia na Ucrânia, Nebenzja lamentou que "diversos Estados" nos últimos anos tenham aplicado o direito internacional "seletivamente, dependendo das circunstâncias políticas", essencialmente fazendo o que bem entendem. O representante chinês Fu Cong acrescentou que Pequim "está chocada com o que aconteceu em Caracas", condenando as "ações unilaterais dos Estados Unidos", desempoeirando, assim, antigas linguagens com novas perspectivas.

Além disso, as declarações ameaçadoras abundam da parte russa, como a de Aleksej Puškov,, chefe do Comitê de Política de Informação da Duma Estatal, que falou das possíveis "consequências catastróficas" após as proclamações triunfantes de Trump, "análogas às desastrosas intervenções de Washington no passado, atribuindo a si mesmo o direito de decidir tudo em seu próprio hemisfério sem levar em consideração nada nem ninguém". Alexei Žuravlev, vice-chefe da comissão parlamentar de defesa, propôs responder à apreensão de petroleiros russos "afundando navios americanos", e depois de atacar a Europa com mísseis hipersônicos Oreškin, considerando as ações ocidentais "equivalentes a ataques em território russo", e vista a euforia dos impunes americanos pela operação na Venezuela, a única resposta adequada para detê-los é "dar-lhes um chute na cara".

O chefe dos analistas do Fundo para a segurança energética russa, Yuri Yushkov, expressou preocupação com o fato de a operação especial na Venezuela possa interferir no mercado global de petróleo, "retirando ddo mercado 500.000 a 600.000 barris por dia", o que poderia elevar o preço para US$ 65 a US$ 70 por barril. Ele não acrescentou que isso seria totalmente vantajoso para a Rússia, já que até agora ela tem sido obrigada a dar descontos a todos apenas para vender alguns barris a mais, onde quer que sejam aceitos. Os primeiros a sofrer com essa "guerra energética" são os habitantes de Cuba, que sem o petróleo venezuelano ficam sem eletricidade e aquecimento, e Trump espera abrir sua maior agência de turismo em Havana, talvez juntamente com Gaza, na união hedonista de Oriente e Ocidente.

Como, com efeito, recorda Ivan Preobraženskij, analista político da Radio Svoboda, "a Rússia e a Venezuela estão envolvidas há no contrabando global de petróleo", e a Rússia intervém para condenar a ingerência nos assuntos internos de outros Estados "apenas quando nãoé a própria Rússia a interferir". Normalmente, os petroleiros russos deixam os portos venezuelanos hasteando as bandeiras de Gana ou de outros Estados, e agora exibem bandeiras russas, pedindo aos americanos que não os toquem. No entanto, os EUA já interceptaram alguns deles, apesar da presença de um submarino russo protegendo-os, como nos melhores filmes de guerra naval. A extração de petróleo na Venezuela é restringida há muito tempo por sanções, e o que o país consegue produzir é prerrogativa de empresas aliadas à Rússia, ao Irã e à China. Os EUA agora querem expulsá-las, talvez para então chegar a um acordo com elas em seus próprios termos, como já aconteceu no Panamá, onde a influência chinesa foi removida sem qualquer ação militar, mas apenas por meio de acordos de investimento financeiro.

O jogo está aberto, especialmente porque a retomada da produção de petróleo venezuelana exigirá investimentos enormes e de longo prazo, visto que o petróleo desses poços é de baixa qualidade, muito denso e pesado, e requer a adição de mais petróleo americano. O sonho de Trump é controlar a produção global, mas isso pode não ser de real interesse para as companhias petrolíferas americanas, que Trump não pode coagir com métodos ditatoriais à maneira de Putin ou dos herdeiros de Maduro. Tampouco será tão simples desmantelar o regime de Caracas, além da prisão do presidente e de sua esposa, dados os laços estreitos, inclusive dentro da família Rodríguez, com o clã Maduro. O sucessor do líder preso poderia atuar em duas frentes, buscando um acordo com os americanos e mantendo relações com os russos e chineses, considerando que Delcy também é ministra do petróleo da Venezuela. Em última análise, as medidas de Trump podem se revelar benéficas para Putin, visto que congelaram todas as negociações de paz na Ucrânia, nas quais o Kremlin claramente não tem interesse. Excluir as empresas russas do sujo negócio do petróleo venezuelano, a começar pela Rosneft de Igor Sechin, a verdadeira líder da elite econômica no poder na Rússia, também pode se mostrar vantajoso, atribuindo às perdas de investimento tudo o que foi roubado na Venezuela durante anos.

A Rússia, contudo, demonstrou sua incapacidade de auxiliar os prórpios aliados, e a China se limita a condenações formais, demonstrando que o "Sul global" não possui substância real no cenário geopolítico mundial, como já ocorreu com o colapso do regime de Bashar al-Assad na Síria ou com as ações militares de Israel e dos Estados Unidos no Irã. Agora, uma mansão suntuosa está sendo preparada para sepultar o aiatolá Khamenei próximo ao túmulo de Assad, e não se pode descartar a possibilidade de que seja pedida a entrega de Maduro para sepultá-lo próximo ao ex-presidente ucraniano Janukovič, transformando os arredores de Moscou em um cemitério de elefantes do passado, troféus dos imperadores do presente e da nova divisão do mundo.

*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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12 janeiro 2026, 14:06