Quando a Rússia iniciou realmente a agressão contra a Ucrânia?
Por Yevheniia Motorevska*
Quando realmente começou a agressão russa contra a Ucrânia?
Provavelmente essa pergunta foi assim respondida instintivamente pela maioria de vocês: em 2014, quando Vladimir Putin, explorando a instabilidade política e a mudança de poder na Ucrânia após a Revolução Euromaidan, anexou a Península da Crimeia.
Mas e se eu lhes dissesse que a Rússia começou as tentativas de anexar a Crimeia ucraniana já na década de 1990? Na época em que a "amizade e cooperação" entre duas "nações irmãs" foi oficialmente proclamada — uma frase à qual a propaganda russa se apega ainda hoje. Na época em que os líderes russos estavam ocupados construindo relações com o mundo "civilizado", ou seja, o Ocidente.
Um exemplo: em 1993, o Parlamento russo (Duma) votou para reconhecer Sebastopol — uma das principais cidades da península ucraniana — como uma cidade russa e declarou sua intenção de financiá-la com o orçamento federal da Rússia.
O que ajudou a Ucrânia na época foram as lutas internas entre as próprias autoridades russas. O presidente do Parlamento, Ruslan Khasbulatov, estava em uma disputa de poder com o presidente Boris Yeltsin. O Parlamento acabou sendo dissolvido, seu presidente preso e a tentativa de políticos russos de tomar Sebastopol por meio de um golpe político fracassou.
Outro exemplo ocorreu apenas um ano mais tarde.
Em 1994, em violação direta da Constituição da Ucrânia, foi criado o cargo de presidente da República Autônoma da Crimeia. Yuri Meshkov, um político local abertamente apoiado pela Rússia e por organizações criminosas, venceu as eleições. Uma vez no cargo, Meshkov declarou seu desejo de se integrar à Rússia, adotou o fuso horário de Moscou na Crimeia, prometeu dupla cidadania aos residentes locais e formou um governo com metade de seus membros composta por especialistas russos.
Para evitar a anexação de fato da Crimeia na época, os serviços de segurança ucranianos foram forçados a realizar uma operação especial na península. Pouco depois, o Parlamento ucraniano aboliu completamente o cargo de presidente da Crimeia. Meshkov tornou-se o primeiro e o último presidente da Crimeia.
No entanto, a divisão da Frota do Mar Negro — uma das cinco frotas da União Soviética — acabou tendo o maior impacto em tudo o que se seguiu na Crimeia, um processo que durou quase seis anos. Os navios da frota estavam estacionados em diversas ex-repúblicas soviéticas, com a maioria baseada na Ucrânia, e seu quartel-general localizado em Sebastopol. Na época, a frota tinha importância estratégica: a região do Mar Negro situa-se na interseção dos interesses europeus, russos e do Oriente Médio.
Após o colapso da União Soviética, a maior parte dos recursos militares foi dividida segundo um princípio simples: tudo o que estivesse localizado no território de uma república específica ficava sob o controle dessa república. Esse princípio, contudo, não se aplicava à Frota do Mar Negro.
A Rússia recusou categoricamente concordar com a transferência da frota para a bandeira ucraniana, apesar de ela estar fisicamente localizada em território ucraniano.
Durante uma visita para se encontrar com os comandantes da frota, o presidente russo Boris Yeltsin declarou, de forma memorável: "A Frota do Mar Negro era, é e sempre será russa". O que se seguiu foram seis anos de luta entre a Rússia e a Ucrânia pela frota.
Junto com minha equipe, passei cerca de um ano trabalhando em uma investigação histórica sobre como a Rússia se preparou para a anexação da Crimeia a partir da década de 1990. Analisamos arquivos de vídeo e fotos, estudamos a cobertura da mídia da época, lemos memórias de altos funcionários dos lados ucraniano e russo e conversamos com aqueles que participaram dos eventos na Crimeia.
O que mais me impressionou foi a consistência e o cálculo com que a Rússia lutou pelo controle da Frota do Mar Negro — desde ameaças de usar a frota contra unidades ucranianas até o assédio e a perseguição de marinheiros e comandantes que optaram por jurar lealdade à Ucrânia.
Você pode saber mais sobre isso no primeiro episódio do nosso projeto documental Crimeia: Guerra Antes da Guerra (vídeo acima).
No fim, a pressão política e a chantagem da dívida do gás forçaram a Ucrânia a um acordo desfavorável e injusto sobre a divisão da frota. A Rússia recebeu a maior parte dos navios e consolidou formalmente sua presença militar na Crimeia. A Ucrânia, como disse um de nossos interlocutores, ficou com sucata.
Ironicamente, depois de 2022, enquanto se defendia de uma invasão em grande escala da Rússia, a Ucrânia destruiu uma parte significativa dos navios de combate da Frota do Mar Negro na Crimeia. Mas essa é outra história.
Para mim, os eventos da década de 1990 são uma lição contundente sobre o custo das concessões à Rússia. A Ucrânia não conseguiu defender a frota e, sob pressão, aceitou os termos de Moscou. A bandeira russa tremulava oficialmente sobre a base da Frota do Mar Negro em Sebastopol, na Ucrânia.
Em 2014, essa mesma frota desempenhou um papel fundamental na anexação da Crimeia. E em 2022, da Crimeia ocupada, a Rússia lançou sua ofensiva contra as regiões do sul da Ucrânia.
Esse é o preço!
*Responsável pela unidade de investigação de crimes de guerra
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