Harmonia entre criatividade humana e sintética
Dom Oriolo, Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG.
Acredito que o conhecimento só cumpre seu papel quando é partilhado. Por isso, registro constantemente insights sobre metodologias e estratégias que buscam modernizar e fortalecer a missão da Igreja. Escrevo sobre a vitalidade das paróquias, os desafios da pastoral urbana e a eficiência na gestão eclesial. Meu olhar mais recente volta-se para a relação entre fé e tecnologia, analisando como a Inteligência Artificial Generativa pode impactar e transformar o cotidiano da vida eclesial, oferecendo novas ferramentas para o anúncio do Evangelho. Minha escrita é fruto de um planejamento estratégicos rigoroso de leituras e de inúmeras anotações que enriquecem minha base de pensamento, resultando em artigos para revistas, periódicos e diversos livros.
Tradicionalmente, para definir o título de um texto ou de uma obra, compartilho o conteúdo com amigos e pergunto o que entenderam; a partir desse diálogo, tento elaborar algo que desperte a atenção do leitor. Recentemente, porém, passei a utilizar também a Inteligência Artificial Generativa como um suporte, uma ferramenta valiosa para auxiliar, principalmente, na criação de títulos impactantes. Foi movido por essa nova dinâmica que decidi explorar as particularidades entre a criatividade humana e a criatividade sintética.
A capacidade dos computadores de produzir conteúdos, imagens, códigos, áudios e vídeos complexos apenas com prompts bem direcionados está transformando nossa realidade e principalmente a criatividade do ser humano. Presente em setores como design, cinema, na evangelização, na medicina, na economia, nos filmes e até na resolução de problemas cotidianos, agora, a Inteligência Artificial produz sem depender da inventividade humana tradicional. Esse cenário nos força a repensar o que significa ser criativo, apresentando um desafio central para a nossa era.
O ser humano é criativo por natureza, capaz de enxergar além do óbvio, impulsionado pelo desejo de compreender o mundo por sua própria inventividade. Recebeu do Criador a faculdade de ser criativo por excelência. Atualmente, a Inteligência Artificial Generativa potencializa essa essência, permitindo a criação acessível de textos refinados, imagens precisas, áudios e vídeos. A chamada criatividade sintética é uma vertente do aprendizado de máquina que ganhou destaque nos últimos anos, redefinindo nossa forma de produzir conteúdo.
A criatividade sintética é uma tendência que se destaca no cenário do aprendizado de máquina (machine learning) nos últimos anos. Ela representa um grande avanço histórico na vida das pessoas e é fundamentada em dados. Ao contrário da criatividade humana, que tem a capacidade de criar algo do zero, a criatividade sintética gera conteúdos por meio de realidades automatizadas, baseando-se em produções que já existem.
A Inteligência Artificial Generativa, com sua vasta gama de ferramentas voltadas para o aumento da produtividade, consolidou-se como um recurso extraordinário para potencializar a criatividade humana. Embora possamos ensinar uma máquina a gerar textos, áudios, vídeos e códigos que aparentam originalidade, ela não possui consciência dessa realidade. Essa ausência de consciência é uma limitação fundamental, ainda que os produtos gerados sejam fantásticos e sui generis. Afinal, a criatividade sintética só é capaz de produzir e criar a partir da base de dados que nós, seres humanos, produzimos e fornecemos a ela.
Para utilizarmos a Inteligência Artificial Generativa de forma plena, precisamos exercitar nossa essência criadora. O ser humano deve apoderar-se dessa ferramenta com consciência e, acima de tudo, ética. Por ser um campo ainda novo, é indispensável aplicar os critérios inerentes à nossa natureza, como a intuição, a emoção, a sensibilidade e a profundidade para transformar a criatividade sintética em uma parceira estratégica, e não em uma substituta. A criatividade humana não deve ser totalmente terceirizada; somos nós que detemos o discernimento necessário para guiar a máquina. Em última análise, quem conduz a criatividade sintética é, e deve ser, um ser humano criativo.
Em suma, a integração da inteligência artificial na missão eclesial e na produção intelectual exige um discernimento aguçado, que coloque a técnica sempre a serviço da Verdade. “Diante da velocidade das respostas automatizadas, deve imperar a prudência do autor: não concordes ou não consintas com tudo o que se diz; sê vagaroso em acreditar e rápido em falar a verdade”. Que a criatividade sintética seja, portanto, um instrumento de ampliação de nossas capacidades, mas que o governo da obra, a profundidade do anúncio e a autenticidade do testemunho permaneçam sob o domínio do ser humano, o único capaz de infundir alma, ética e propósito ao que é criado.
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