“Magnifica Humanitas”: vivemos “ainda à luz do humano ou à luz da máquina?”
Rui Saraiva – Portugal
A “Magnifica Humanitas” é a primeira encíclica do Papa Leão XIV, um documento sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial (IA).
Os progressos vão no sentido de humanizar o mundo?
Fomos ouvir a opinião da teóloga Sónia Monteiro, professora auxiliar convidada da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, que, numa primeira leitura, considera que esta encíclica de Leão XIV coloca uma questão absolutamente fundamental: “O que é que significa ser humano?”
“Acho que o próprio título diz-nos qual é a questão central. Acho que não é uma encíclica que vem trazer respostas, mas que coloca em cima da mesa a questão fundamental: o que é que significa ser humano? A questão da humanidade hoje, face a todos os problemas e desafios que estamos a ultrapassar e, nomeadamente, a questão do desenvolvimento tecnológico. Quem somos? O que nos distingue? E como cuidarmos dessa humanidade no presente e no futuro? Acho que essa é a grande questão que o Papa nos convida a refletir. Será que os nossos avanços e os nossos progressos vão no sentido de humanizar o mundo ou não? Acho que, pelo menos do pouco que vi, essa é talvez a questão teológica e antropológica, porque que esta é uma encíclica com uma dimensão política e social, mas com uma dimensão antropológica radical. Não separar esta dimensão antropológica depois das implicações políticas”, assinala a teóloga.
Sónia Monteiro alerta que se poderão vir a “agravar ainda mais as desigualdades que existem”, no mundo. “Como é que os pobres e os povos mais afetados sofrem com estes avanços tecnológicos?”, pergunta a professora que faz uma relação deste texto de Leão XIV com a “Laudato si” de Francisco.
Desigualdades podem-se vir a agravar
“Fazer este breve comentário: quando percebi que este seria o tema da encíclica, pensei numa encíclica ao estilo da Laudato si: a contribuição do olhar da Igreja sobre o mundo, sobre a realidade, para o espaço público, para a construção do espaço público. E, mais uma vez, a Igreja Católica a reclamar a importância da sua perspetiva, do seu lugar na construção de um espaço público com outros. Com outros: crentes, não crentes, Estados, instituições, empresas, todos somos chamados para a construção deste espaço. E a Igreja também contribui, da mesma forma que a Laudato si foi recebida de uma forma tão aberta por tantas entidades para além da própria Igreja. E acho que a forma como este Papa redigiu a própria encíclica convida a essa relação e a esse diálogo com o mundo. Nesse olhar sobre o mundo, a Igreja aqui volta a colocar a humanidade num lugar central.
Tem graça porque na Laudato si falávamos da criação, quase que a sairmos de um antropocentrismo. E aqui colocamos novamente o humano no centro porque parece que o humano está em causa. E está em causa nas desigualdades que se têm verificado, por exemplo, com o consumo energético. Se pusermos estas encíclicas lado a lado podemos tirar essas conclusões de como é que os pobres e os povos mais afetados sofrem com estes avanços tecnológicos. Por isso as duas podem e devem estar ligadas.
Depois, por outro lado, pensar também ao nível do trabalho que é uma área de particular atenção para o Papa Leão: a Rerum Novarum, o próprio nome, já sabemos todos esses links, já conhecemos essas ligações, os avanços tecnológicos introduzem ritmos completamente acelerados, expectativas do humano. Antes dizia-se à luz do humano, ou do homem, e agora será ainda à luz do humano ou à luz da máquina?
Essas desigualdades, a questão do trabalho, que novas formas de trabalho irão surgir, as pessoas que ficam sem trabalho. Há aqui imensas questões que não estão a ser cuidadas e que poderão agravar ainda mais as desigualdades que existem. E acho que esta encíclica obriga ou quer abrandar e que é um discurso que já ouvimos de outras entidades, de grandes empresas ou de grandes técnicos a trabalhar em grandes empresas tecnológicas de inteligência artificial a dizer que é preciso abrandar. Que o ímpeto do progresso, da riqueza, do enriquecimento, a tal Torre de Babel, não nos faça tomar passos para os quais não estamos preparados.
E grandes investigadores já falavam desta necessidade de parar. Há questões éticas fundamentais que não estão a ser esclarecidas”, revela a professora.
Sónia Monteiro é teóloga, professora auxiliar convidada da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, com doutoramento em Teologia Sistemática pela Universidade de Fordham em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Concedeu recentemente uma entrevista ao podcast “No coração da Esperança” da Rede Sinodal em Portugal e formulou aqui um primeiro comentário sobre a encíclica “Magnifica Humanitas”.
Mobilização global e diálogo sobre a IA
Não esqueçamos as palavras de Leão XIV, em maio, na sessão de apresentação da encíclica, nas quais apelou a uma mobilização global para travar o potencial destrutivo da IA, defendendo um escrutínio moral rigoroso sobre os avanços tecnológicos.
“A IA exige agora ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam num instrumento de dominação, exclusão e morte”, declarou Leão XIV.
O Papa comparou a ameaça algorítmica aos perigos do armamento nuclear. “Ouvi relatos muito preocupantes de algoritmos que podem bloquear o acesso à saúde, ao emprego e à segurança com base em dados contaminados por preconceito e injustiça”, assinalou Leão XIV.
O Papa destacou que “não devemos temer a IA”, mas não esquecer a “questão do ser humano”. Revelou que a Igreja deseja, “com humildade e franqueza”, participar no diálogo sobre a IA.
“Contribuímos com uma sabedoria sobre o humano que o nosso tempo necessita desesperadamente: cada pessoa é única e insubstituível, um sujeito livre e inteligente, dotado de consciência, capaz de buscar a Deus, servir os outros e cuidar da nossa casa comum”, declarou o Papa Leão XIV.
Laudetur Iesus Christus
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