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A magnífica humanidade que habita as fendas

Uma leitura da encíclica Magnifica humanitas a partir das periferias.

Padre Vilson Groh - Florianópolis

Há quarenta e cinco anos caminho pelas periferias da Grande Florianópolis com os pés na terra dos morros, dos becos, das comunidades que o centro da cidade prefere não ver. E foi nessa caminhada, pele a pele com os crucificados do nosso tempo, que aprendi a ler os documentos da Igreja não como textos que descem do alto para iluminar a realidade — mas como espelhos onde a realidade que já vivo encontra palavras para se dizer. A encíclica Magnifica humanitas, assinada pelo Papa Leão XIV a 15 de maio de 2026, chegou até mim como esse tipo de espelho. E o que ela refletiu me interpelou profundamente.

O título já é, em si, uma provocação teológica. A Magnífica humanidade. Não a humanidade triunfante, não a humanidade eficiente, não a humanidade que domina os algoritmos e conquista o futuro digital. A humanidade magnífica que o Papa evoca é aquela do Magnificat — o cântico de uma mulher pobre, jovem, periférica, que olha para a história com os olhos da fé e vê o que os poderosos não conseguem ver: que Deus age a partir dos pequenos, que os humildes são exaltados, que os famintos são saciados. É a humanidade que floresce na fenda — não apesar da fragilidade, mas através dela.

Isso me faz pensar nos rostos que habitam as nossas Galiléias de todos os dias. Porque a encíclica não fala de uma humanidade abstrata. Fala de cada rosto concreto que é ameaçado de ser reduzido a dado, a perfil, a custo de produção, a descartável. E quando o Papa pergunta

— com toda a seriedade de um documento do Magistério — se a inteligência artificial torna a vida humana mais digna do homem, essa pergunta tem endereço. Ela mora nos territórios empobrecidos. Ela tem a cara das crianças que chegam aos sete anos sem saber ler porque o sistema chegou tarde. Ela tem a voz dos jovens que o mercado rejeita antes mesmo de conhecer.

A lógica do descarte não nasceu com a inteligência artificial. Ela já existia. O que a IA faz é acelerar, automatizar e tornar invisível aquilo que antes precisava ao menos de um rosto humano para se consumar. Quando um algoritmo decide quem merece crédito, quem acessa oportunidades, quem é visível — ele herda e amplifica uma injustiça muito mais antiga. E a torna mais difícil de contestar, porque não tem rosto, não tem compaixão, não conhece o perdão.

O Papa escolhe duas imagens bíblicas para nos situar nesse tempo: a torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém por Neemias. De um lado, o orgulho de quem constrói sozinho, sem Deus e sem o outro, buscando poder e homogeneização. Do outro, a paciência de um povo que retorna do exílio, encontra a cidade em ruínas — e em vez de se paralisar, divide as tarefas. Cada família cuida do seu pedaço de muro. Sacerdotes e artesãos, mulheres e jovens. A cidade renasce não por uma decisão de cima, mas por uma responsabilidade partilhada que reconhece o valor de cada pessoa no processo.

Essa imagem de Neemias me move como poucas. Porque é exatamente o método que aprendi nas periferias. Não o herói solitário que chega com as respostas prontas. Mas quem ouve o clamor — e o clamor de Neemias começa quando ele recebe notícias da cidade ferida dos seus pais, e chora, e jejua, e reza antes de agir. Há uma contemplação que precede a ação. Há uma mística que sustenta a política. Sem esse enraizamento interior, a reconstrução se torna mais um projeto de poder disfarçado de serviço.

Isso me leva ao que considero o nervo mais vivo da Magnifica humanitas: a pergunta sobre o espírito que orienta a técnica. O Papa não condena a inteligência artificial — como não condena a tecnologia em si. O que ele denuncia, com a clareza profética que a tradição da Doutrina Social da Igreja nos deu desde a Rerum novarum de Leão XIII, é o paradigma tecnocrático: essa tendência de deixar que a lógica da eficiência, do lucro e do descarte governe não apenas os processos produtivos, mas as relações humanas, a política, a educação, a própria ideia de que uma vida vale ou não vale.

Paulo nos diz, na carta aos Coríntios, que o grito dos crucificados é uma chave teologal. Aprendi isso na prática, nessas décadas de missão nos morros. O sofrimento dos empobrecidos não é apenas um problema social a resolver — é um lugar teológico onde Deus fala. E o que Deus fala a partir daí é incômodo para qualquer sistema que pretenda se sustentar sobre a invisibilidade dos que sofrem. A encíclica retoma essa tradição com força quando afirma que os princípios da Doutrina Social — dignidade, bem comum, destinação universal dos bens, solidariedade, justiça — não são ornamentos teóricos. São critérios concretos de discernimento para julgar se uma tecnologia serve à humanidade ou a subjuga.

Falar de destinação universal dos bens, no século XXI, significa falar de algoritmos, plataformas digitais, dados e infraestruturas tecnológicas. Esses são os novos bens comuns. E quando ficam concentrados nas mãos de poucos, enquanto povos inteiros permanecem à margem, não é apenas uma questão de mercado. É uma questão moral. É uma questão de fé.

A encíclica também me interpela profundamente quando fala de educação. Num mundo onde a atenção é capturada, fragmentada e monetizada desde a infância — onde crianças crescem expostas a fluxos incessantes de estímulos antes de aprenderem a se perguntar o que é verdadeiro — o ato educativo se torna um ato político de resistência. Paulo Freire nos ensinou isso. E Leão XIV reafirma, com toda a autoridade do Magistério, que a escola não é chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital. É chamada a oferecer o que o digital não pode dar: tempo partilhado para aprender, relações de confiança, espaço para o silêncio e para a pergunta que só amadurece devagar.

Mas aqui preciso trazer o que aprendi nas periferias, porque a encíclica não diz tudo — ela nos convida a completá-la a partir do chão onde vivemos. O desafio educativo nas galiléias do nosso tempo não é apenas pedagógico. É estrutural. É que as crianças que mais precisam de uma educação integral, humanizadora e emancipatória são exatamente aquelas que o sistema deixa para trás primeiro. A desigualdade no acesso à tecnologia, à conectividade, às ferramentas digitais não é neutra — ela reproduz e aprofunda as exclusões que já existiam. Por isso, quando o Papa pede uma aliança educativa para a era digital, essa aliança precisa começar onde o Estado ainda não chegou. Precisa ter os pés na periferia.

Há um gesto na encíclica que me tocou de forma particular e que não posso deixar passar. O Papa pede perdão pela cumplicidade histórica da Igreja com a escravidão. É um ato de coragem e de humildade que vai muito além do gesto simbólico. Porque ao reconhecer que a Igreja demorou séculos para condenar formalmente o que contradizia desde sempre o Evangelho que proclamava, Leão XIV está nos dizendo algo que precisamos ouvir: a clareza moral não é automática. Ela se conquista. E a memória das nossas omissões passadas deve se tornar vigilância ativa no presente.

Porque as novas formas de escravidão existem. Estão nas cadeias invisíveis da economia digital. Estão no trabalho invisível de milhões de pessoas que etiquetam dados por centavos para que sistemas de inteligência artificial de bilhões funcionem. Estão nas crianças que trabalham em condições perigosas extraindo os minerais raros que alimentam os nossos dispositivos. Estão no tráfico de pessoas que usa as mesmas plataformas digitais que usamos para nos comunicar. Nenhuma inovação é inocente quando é sustentada por sofrimento que preferimos não ver.

Dom Hélder Câmara dizia: quando dou pão aos pobres me chamam de santo, mas quando pergunto por que os pobres não têm pão me chamam de comunista. A pergunta pelo porquê

— a pergunta estrutural, a pergunta que incomoda — é precisamente o que a encíclica nos convida a não abandonar. Não basta dizer que a IA deve ser usada para o bem. É preciso perguntar: quem decide o que é o bem? Quem tem poder para orientar esses sistemas? E quem paga o preço quando esse poder é mal exercido?

O Papa propõe que respondamos a essas perguntas a partir de um caminho de discernimento comunitário — não de uma autoridade central que decide por todos, mas de um povo que caminha junto, na diversidade das suas vozes e experiências, guiado pelo Espírito. É a lógica da sinodalidade que o Papa Francisco nos ensinou e que Leão XIV retoma: o tempo é superior ao espaço, o processo é superior ao resultado imediato, e a verdade não se impõe de cima — ela cresce no entrelaçar concreto das vidas, das comunidades e das culturas.

Essa é também a lógica das periferias. Aprendi nos morros que as melhores respostas não chegam do centro — emergem do chão. Que as comunidades que parecem só ter problemas carregam dentro de si as sementes das soluções. Que o jovem da periferia que o sistema descarta como ameaça é, de fato, uma potência extraordinária esperando para ser reconhecida e cultivada. Como uma flor que floresce na fenda da pedra — não apesar do ambiente hostil, mas com uma força que só a vida que insiste tem.

A encíclica termina com Maria. Com o Magnificat. E é o encerramento certo, porque o Magnificat não é um hino de resignação nem de evasão espiritual. É o cântico de uma mulher jovem, pobre e periférica que, ao contemplar a ação de Deus na história, vê uma revolução que já começou: os poderosos são depostos dos tronos, os humildes são exaltados, os famintos são saciados. É uma visão que não espera pelo futuro — ela já percebe, com os olhos da fé, o que está acontecendo por baixo da superfície dos acontecimentos.

É com essa mística de olhos abertos que precisamos ler a Magnifica humanitas. Não como um documento que contemplamos de fora, mas como um convite a entrar no canteiro de obras do nosso tempo — com as mãos sujas, com os pés na terra, com a coragem de Neemias e a ternura de Maria. Cada um cuidando do seu pedaço de muro. Cada comunidade assumindo a sua parte da reconstrução. Porque a civilização do amor não nasce de um gesto único e espetacular. Nasce de uma soma de pequenas e tenazes fidelidades — que resistem à desumanização, que criam espaços onde a dignidade é praticada antes de ser proclamada, que regam sementes mesmo quando não verão a colheita.

Esperançar — como nos ensinou Paulo Freire — não é esperar. É agir. É preparar o jardim. É ter os pés no chão e os olhos no horizonte ao mesmo tempo. É saber que a primavera não é uma promessa distante. A primavera é agora. E ela começa sempre onde uma vida é tratada como sagrada — onde um rosto é reconhecido, onde uma história é escutada, onde uma dignidade é devolvida.

Que a Magnifica humanitas nos encontre nesse movimento. Que nos faça perguntar, com honestidade e com coragem, o que estamos construindo. E que a resposta seja, cada vez mais, Jerusalém — reconstruída tijolo por tijolo, com o povo, cada família no seu pedaço de muro, sob a orientação do mesmo Espírito que sempre agiu a partir dos pequenos.

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03 junho 2026, 10:22