Cardeal Cobo com o Papa Cardeal Cobo com o Papa 

Cardeal Cobo: com o Papa, “ganhamos em unidade, confiança e identidade"

Entrevista com o arcebispo de Madri sobre a visita do Papa Leão XIV à Espanha.

Padre Miguel Modino - Madri

Após a visita de Leão XIV, o arcebispo de Madri analisa o que foi vivido e como a presença do Santo Padre pode contribuir para o futuro da Igreja na Espanha e em Madri. “Há muitas pessoas que perderão o medo de entrar em diálogo com a Igreja, porque a Igreja não tem medo de dialogar com ninguém”.

O senhor insistiu que a visita do Papa Leão XIV deveria ser vista como um processo e não como um evento. Que processos o senhor acredita que essa visita tenha posto em andamento?

A visita e todo o seu processo foram preparados; nada foi improvisado. Tudo o que aconteceu nos surpreendeu, mas não se trata de um fenômeno espontâneo; foi preparado com antecedência e motivado. Além de se posicionar como Papa e nos proporcionar uma identidade tanto eclesial quanto diocesana, abriu espaços de trabalho.

Deu pistas sobre a presença da Igreja no mundo do sofrimento e da caridade. E, além disso, com aquele estilo com que o encontro no CEDIA (o centro da Caritas Madri que acompanha moradores de rua) foi apresentado, de forma muito harmoniosa. Não cada um por conta própria, mas todos juntos, trabalhando juntos na mesma missão.

Na Vigília dos jovens, ele deu orientações claras para o trabalho na realidade juvenil, a partir das realidades existentes e das perguntas que lhe foram feitas. Nas respostas, ele já deu orientações para o trabalho com os jovens no futuro, sobre como responder à realidade do mundo juvenil. Na missa, ele nos deu uma visão geral da Igreja sobre como se posicionar no meio do mundo e no meio de uma cidade. Ele demonstrou, em conjunto com o discurso que proferiu posteriormente no Parlamento, a síntese entre Igreja, cidadania e democracia.

Trata-se de situar a Igreja no meio do mundo, em um diálogo sem condenações e sem confrontos, mas sim em um diálogo com a Política, com P maiúsculo. Nas demais orientações que o Papa apresentou, foi como se estivéssemos respondendo às realidades concretas. Todos esses discursos devem ser trabalhados com os mesmos grupos com os quais começamos e ver qual a recepção que podemos obter.

Cardeal Cobo com o Papa
Cardeal Cobo com o Papa   (@Vatican Media)

Uma das frases que mais ficou na memória de muitas pessoas foi quando o Papa disse que “a Igreja de Madri marcou um gol espetacular que entrará para a história”. O que o Papa descobriu na Igreja de Madri para poder dizer isso?

A visita a Madri foi crescendo gradualmente. Ele tinha informações, notícias sobre como é a Igreja de Madri. Ele quis vir à Igreja em Madri porque a conhecia. Mas, além do conhecimento racional, ele se deparou com um conhecimento experiencial e transbordante. Marcamos um antes e um depois, nos conhecemos melhor a nós mesmos e superamos muitos medos. A Igreja se posicionou de uma nova maneira na sociedade, talvez menos beligerante, mais amigável. E perdeu o medo de estar presente no meio do mundo.

E o que a Igreja de Madri descobriu no Papa? Qual é a novidade que fica para a Igreja de Madri a partir da figura de Leão XIV?

É isso que o Papa representa. A primeira coisa que ele faz é confirmar na fé e fortalecer a unidade. A Igreja de Madri descobriu que, em uma Igreja grande, plural, com uma diversidade espetacular, existem pontos de união. E que a diocesanidade, a eclesialidade, se vive em referência a pontos concretos, como Jesus Cristo, a Igreja e o Papa, que é quem veio para nos dizer isso. Ganhamos em unidade, confiança e identidade como Igreja.

Uma viagem que foi muito além dos muros da Igreja, à qual a sociedade espanhola reagiu positivamente. Será que essa visita pode ajudar a mudar a relação de muitas pessoas afastadas com a Igreja?

Essa viagem serviu de pano de fundo para uma situação na qual já vínhamos trabalhando. Esse diálogo não se improvisa, mas vem de longa data; ele define a situação e a relação da Igreja com muitas pessoas. Pode haver pessoas afastadas que perceberam que, na Igreja, não somos extraterrestres, que não estamos isolados, mas que uma das funções da Igreja é entrar em diálogo com todas as realidades do nosso mundo. Sem medo, fazendo propostas, sem nenhum complexo, mas sim para entrar em diálogo.

Isso vem sendo trabalhado e continuará sendo trabalhado, e de alguma forma se tornou visível. Há muitas pessoas que perderão o medo de entrar em diálogo com a Igreja, porque a Igreja não tem medo de dialogar com ninguém.

Papa leão XIV
Papa leão XIV   (@Vatican Media)

Pessoalmente, qual foi o momento mais significativo? O que mais marcou o senhor durante a visita?

Os momentos de encontro com o Papa foram uma oportunidade de contrastar o que estávamos lendo e o que víamos. Isso o marcou profundamente, e foi impressionante a entrada no Bernabéu. Do silêncio dos corredores a encontrar aquela ovação de um estádio inteiro ao Papa. Aquilo o comoveu, e deu para ver nas imagens como ele estava francamente emocionado. Ver toda uma Igreja aclamando-o como um só. O Papa está acostumado à Praça de São Pedro, mas lá o ambiente é mais horizontal e difuso. O Bernabéu é mais envolvente. E ao entrar nessa experiência tão envolvente, ele captou o carinho e a presença de uma Igreja que aclamava o sucessor de Pedro.

Um momento diferente foi o encontro sobre a construção de redes, algo que já vinha sendo feito anteriormente. Como continuar construindo redes e pontes entre a Igreja de Madri e os diferentes setores da sociedade?

As pontes e as redes não se constroem de forma impessoal ou genérica. O mundo, a economia e a política mudam de pessoa para pessoa. É uma conexão a partir dos laços pessoais com todas as pessoas. A Igreja, graças a Deus, tem uma capilaridade muito forte em nosso mundo. Podemos continuar estabelecendo laços com pessoas concretas, e essa é a nossa força. No futuro, já que começamos a tecer redes e a criar laços com pessoas concretas, tanto das universidades quanto do mundo da economia, da política, do esporte e da arte, continuaremos trabalhando com elas.

Nos reunimos com alguns deles há meses. Com outros, há anos, e agora daremos continuidade a esses encontros. A Igreja vai oferecer a mesa para que pessoas diversas se sentem e conversem. Nas orientações que o Papa deu em cada um dos encontros já há conteúdo suficiente para que sejam detalhadas, analisadas e se veja como isso pode ser desenvolvido neste momento.

Várias vezes o Papa falou em derrubar muros, em sair dos grupos fechados. Quais são os muros concretos que hoje se observam na Igreja de Madri?

Na Igreja de Madri, por ser grande e ter muitas pessoas, temos o muro da autossuficiência, da auto referencialidade, tanto nas paróquias quanto nas escolas, movimentos e associações. Cada um tende a defender a si mesmo, e isso às vezes nos faz perder a identidade comum, que é a que o Papa trouxe e que descobrimos especialmente nestes dias. Às vezes, estamos mais preocupados em defender a identidade e a sobrevivência de cada um do que a missão geral que temos.

A vinda do Papa também nos fez voltar o olhar para além de cada um dos grupos, das paróquias, movimentos, associações ou escolas. Ou seja, vocês têm um campo de trabalho que vai além de vocês mesmos e precisam uns dos outros para seguir em frente. E começamos a perceber isso com esta visita.

Papa leão XIV e Madri
Papa leão XIV e Madri   (@Vatican Media)

A polarização está presente na sociedade em nível global, algo em que o Papa tem insistido. Após o discurso no Congresso e a reação dos parlamentares, como esse discurso e a visita do Papa podem ajudar a diminuir essa polarização?

Isso depende das escolhas de cada pessoa, partido e grupo. O Papa conseguiu algo que ninguém havia conseguido nos últimos tempos: que todos aplaudissem a mesma coisa. Eles não aplaudiram o que interessava a cada um, mas sim um discurso. Foram capazes de aplaudir algo abrangente e, acima do partidarismo e das pequenas coincidências ou divergências, aplaudir alguém que falava de política e de um novo marco ético para a democracia e para a política.

A polarização existe, mas devemos reconhecer que nossos políticos têm o direito de aplaudir juntos, algo que às vezes lhes negamos, pois é justamente essa polarização que nos impede disso. Eles aplaudiram juntos um discurso porque ele falava de Política com P maiúsculo, não de políticas. Um discurso bem elaborado, que abordava os fundamentos da democracia. E aplaudiram juntos porque precisamos, neste exato momento, em meio a tanta turbulência, de discursos como esse e de pessoas que nos ajudem a enxergar onde estão os horizontes, onde podemos nos encontrar.

Juntamente com esse discurso no Congresso, também os discursos no Porto de Arguineguín e em Tenerife tiveram um forte impacto político. O senhor se preocupa com o risco de que alguns tentem reduzir a mensagem a uma interpretação partidária?

Sim, mas o Papa, se lermos bem o discurso, não se deixa envolver em partidarismos. O tom ou a palavra mais mencionada, além de Deus e do chamado de Deus, foi a dignidade humana. É como o cantus firmus de toda a viagem. O que ele mais repetiu foi como detalhar e como defender a dignidade humana como algo que, em si mesmo, é até mesmo anterior à democracia. E nas Ilhas Canárias esse foi o discurso constante. Que alguém queira se apropriar disso, tudo bem, mas a dignidade humana vem antes de quaisquer apropriações.

Além de falar sobre a dignidade humana, ele falou da ligação entre o que é a fé e o próximo que precisa de ajuda, o vulnerável. Aquele que se ajoelha diante de Jesus Cristo deve se ajoelhar diante do próximo. Essa diferenciação não faz sentido. Foi uma questão de colocar as coisas em seus devidos lugares: onde está a dignidade, onde está Deus e onde está a proposta cristã.

Cada um pode agora pegar a obra de arte e ficar com um pedaço, mas, ao fazer isso, está fragmentando uma obra de arte. O Papa apresentou todo um discurso e toda uma doutrina que já vinha de antes, mas soube reinterpretá-la e abordá-la a partir das realidades concretas. Não é a mesma coisa falar da dignidade humana de um escritório do que de Arguineguín.

No Congresso
No Congresso   (@Vatican Media)

O Papa disse que a dignidade humana não se perde ao cruzar uma fronteira. Em um país onde os imigrantes são cada vez mais numerosos e vão ocupando cargos de maior responsabilidade na vida social e eclesial, como ajudar a compreender que essa dignidade humana pertence a todos?

Não podemos generalizar, criar estereótipos nem rotular as pessoas. Trata-se de olhar para cada pessoa onde ela está, que precisa ser compreendida como pessoa e reconhecida como tal. A integração é de pessoa para pessoa. Cada pessoa tem uma realidade, traz uma história, é uma oportunidade, e é assim que devemos encarar isso.

Os fluxos migratórios, as legislações, isso é uma visão geral, mas o Papa, quando veio aqui, falou das pessoas que já estão aqui e daquelas que estão chegando. E ele disse que não se pode tratar uma pessoa como um número, mas que é preciso reconhecer a dignidade daquele que está sendo salvo. Ele teve inúmeros encontros com migrantes, em todos os lugares, e o que importa é que não podemos deixar de olhar de pessoa para pessoa. Não se pode legislar, não se pode traçar planos nem projetos para o futuro sem levar em conta cada uma das pessoas.

O Papa iniciou sua visita pastoral em Madri pelo CEDIA. Essa presença ao lado da Pastoral Social representa um desafio ainda maior para que a Igreja de Madri continue voltando seu olhar para essas periferias humanas, para os mais pobres, de maneira especial?

A entrada pelo CEDIA foi um ato de fé, uma confissão de fé. Todos nós, ao ver o Papa ali, confessamos que Jesus Cristo está entre os mais pobres e que temos o desafio de reconhecê-lo e de estar presentes ali. Não se trata apenas de ajudar os mais pobres, mas de reconhecer que Jesus Cristo entra por Belém, como eu dizia. É entrar e reconhecer os mais vulneráveis como o lugar natural da Igreja, onde a Igreja se forma e por onde ela cresce. E o Papa disse exatamente isso em seu discurso.

Quem não conhecia o Papa, sobretudo quem não participa ativamente da vida da Igreja, qual o senhor acha que foi a característica que mais o surpreendeu?

Por um lado, a serenidade do Papa ao lidar com as coisas, sua autoridade moral. Também a capacidade de falar a todos e de ser compreendido por todos, sem ofender ninguém.

Durante o primeiro ano de pontificado, foram feitas comparações entre o papa Leão e o papa Francisco. Esta viagem revelou traços próprios do papa Francisco, sobretudo nos discursos, e uma maneira diferente de ser. Que continuidade e que novidades se percebem entre o papa Francisco e o papa Leão?

Cada Papa é um Papa à parte, um não tem nada a ver com o outro. No entanto, eles se complementam. Este Papa assume profundamente a linha da Evangelii Gaudium. Basta ler essa exortação para ver que ele acolhe perfeitamente todas as suas grandes linhas. Este Papa também acolhe os grandes processos iniciados pelo papa Francisco, tanto na reforma da Cúria quanto na projeção social por meio dos grandes desafios do mundo.

Ele já havia abordado o tema da inteligência artificial e da migração, mas agora o aprofundou e o consolidou um pouco mais. No entanto, abordou tudo isso no estilo sinodal, que o papa Francisco já havia destacado. Ele pegou toda essa ferramenta e a renovou com um estilo novo, mais simples e pausado.

Francisco era um homem bastante explosivo. Leão XIV é mais sereno, mais contido, e é nesse estilo que ele conduz todas as coisas. Mas as linhas gerais foram reunidas em Magnífica Humanitas. Ele extraiu os temas principais da Evangelii Gaudium e vai dar continuidade a eles, mas com um estilo novo.

Papa nas ruas de Madri
Papa nas ruas de Madri   (@Vatican Media)

Qual o senhor acha que foi o grande sucesso desta viagem e o que poderia ter sido melhor?

Não sei o que poderia ter sido melhor, porque, pelo menos no que diz respeito a Madri, a viagem foi preparada junto com as pessoas; não foi uma viagem pré-fabricada nem pré-elaborada. Foi uma viagem que os próprios grupos conceberam no âmbito diocesano, com tudo o que isso traz de novidade, de frescor e de proximidade com as pessoas. Se tivéssemos tido mais tempo, talvez pudéssemos ter feito uma viagem mais bem elaborada. Foi uma viagem muito rápida, até mesmo apressada, mas foi uma viagem profunda. As pessoas deram o melhor de si.

Há muitos detalhes que poderiam ser melhorados, mas isso se deve em grande parte à pressa com que foi preparada. A visão geral da viagem foi muito completa, pois, desde uma grande cidade como Madri, passando por San Feliu de Llobregat, pela prisão e por Montserrat, até a majestade e a beleza da Sagrada Família, além da proximidade e das mensagens à Europa e ao mundo sobre a imigração, visitando os portos e os locais de sofrimento, trata-se de uma viagem muito completa. O que poderia ser melhorado são apenas alguns detalhes.

Um dos temas que causou mais controvérsia foi o encontro com as vítimas de abusos. Madri mostrou ao Papa o trabalho que vem realizando há anos por meio da REPARA, mas houve outras associações que queriam se encontrar com o Papa. Como se procurou mostrar esse trabalho? O que resta para o futuro nesse trabalho com as vítimas?

É preciso levar em conta que, quando o Papa visita um lugar, ele não se limita a conhecer uma realidade pontualmente para depois esquecê-la. Assim que chegou a Roma, o Papa reafirmou a necessidade de todo um processo de atendimento às vítimas. E o Papa já havia se reunido anteriormente com vítimas. Essa é uma linha transversal. Dentro das possibilidades e das limitações de uma viagem, houve um momento de escuta a determinadas vítimas.

Os encontros privados não são divulgados, pois não se sabe nem quando ocorrerão nem como serão organizados na agenda. Mas, assim que se toma conhecimento, o encontro é convocado, e nele participou efetivamente REPARA, que é o projeto da arquidiocese de Madri. Também participaram a Conferência Episcopal e o Defensor do Povo, que contribuíram para a coordenação do encontro. Não é possível incluir todas as vítimas nem todos os grupos. O processo de atendimento e de escuta às vítimas será realizado aos poucos, mas esse momento foi um ato concreto.

Pelo que ouvi e pelas conversas que tive com eles, as pessoas se sentiram curadas. O Papa ouviu e incorporou esse encontro àquela linha de escuta que culminou, assim que ele chegou a Roma, com a assinatura de um documento.

Se tivesse que resumir em uma frase o que Leão XIV veio dizer à Espanha, a Madri, o que seria?

Acho que o lema foi muito bem escolhido. Ele nos ajudou e nos convidou a continuar elevando o olhar, a olhar mais alto, a não ficarmos presos aos nossos pequenos limites de dioceses, de grupos, de problemas, mas a sermos capazes de elevar o olhar. Achei linda aquela imagem com a qual ele encerrou o discurso no Congresso. Quando ele diz: “Aqui em cima há uma luz que ilumina a todos nós”, e muitos olhavam, pois não tinham percebido que ela estava ali. Ele nos fez capazes de ver, todos nós, uma luz maior, de ver uma Igreja mais bondosa do que pensávamos e de ver um mundo ainda com esperança.

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17 junho 2026, 13:33