As mulheres da comunidade de Rumi Cruz no dia de Pentecostes As mulheres da comunidade de Rumi Cruz no dia de Pentecostes  (© Miriam Pinatti, MD) #SistersProject

Argentina: missionárias compartilham com indígenas a vida e a fé nas alturas

O sonho de uma Igreja sinodal e missionária é uma realidade em terras andinas. No norte da Argentina, a congregação das Missionárias Diocesanas de Maria Mãe da Igreja partilha a vida, a cultura e a animação da fé com as populações indígenas da região, entre desafios ambientais e próprios do lugar. Hoje as religiosas têm a tarefa pastoral junto a duas paróquias rurais compostas por 50 aldeias, que não têm um sacerdote.

Leontina Elisa Melano

As periferias existenciais e as periferias geográficas são diferentes: migrantes, idosos, aldeias instaladas num aterro ou em locais desérticos de alta montanha. Esse último é o caso do povo Colla que, na Argentina, há milhares de anos, habita o planalto da província de Jujuy – também chamado puna, na língua quechua: terra alta – entre os 3.500 e os 5.800 metros acima do nível do mar.

Comunidade de Lagunillas del Farallón, a quase 4200m acima do nível do mar, na fronteira com Chile e Bolívia
Comunidade de Lagunillas del Farallón, a quase 4200m acima do nível do mar, na fronteira com Chile e Bolívia   (©L. Melano)

A região caracteriza-se pelos extremos: grandes planícies circundadas por colinas com pouca vegetação, onde as temperaturas no inverno oscilam entre os -28°C e os +20°C, ventos fortes, nevascas no verão e longas distâncias que separam as pequenas populações que ainda hoje ali permanecem.

A neve, presente durante o verão, na comunidade de Nuevo Pirquitas
A neve, presente durante o verão, na comunidade de Nuevo Pirquitas   (©Celia Yolanda Solano)

A vida desenrola-se em sintonia com a realidade geográfica. A população local reconhece, aprecia e transmite isto. Sergio, de 48 anos, natural de Lagunillas del Farallón e animador da comunidade católica, expressa-se assim: «o meu desejo é viver sempre aqui. Criar gado, trabalhar nos campos, onde não se paga nada, enquanto na cidade tudo é dinheiro. Isso foi o que incuti nas minhas filhas: como se vive no campo, como se cozinha... Elas viveram e eu ensinei isso. E depois as dificuldades daqui: o frio, o transporte, a lida com os animais, o caminhar».

A própria identidade andina

O reconhecimento da pré-existência e dos direitos dos povos indígenas na Constituição Nacional foi um processo lento que se consolidou em 1994. Também para eles foi gradual. Reconhecer-se a partir da própria identidade andina, da cultura, da espiritualidade e dos costumes não foi fácil, pois, em várias ocasiões, isso pode ser motivo de discriminação.

Visita às famílias para abençoar as casas e os animais (lamas, ovelhas, cabras, burros e vacas), bem como os campos cultivados com cebolas, favas, batatas, alho e quinoa
Visita às famílias para abençoar as casas e os animais (lamas, ovelhas, cabras, burros e vacas), bem como os campos cultivados com cebolas, favas, batatas, alho e quinoa   (© María Elena Galeano)

Ao mesmo tempo, valoriza-se e vive-se plenamente: «ser do território – do lugar – com os próprios modos de viver, de estar na terra, significa fazer parte do povo Colla. Sou mesmo uma Colla!», exclama com alegria Delma, da comunidade de Potrero de la Puna. «O campo é vida, o gado é mais uma família em casa, porque não é fácil viver sozinha (...) Estou muito contente porque soube valorizar o lugar onde nasci do povo Colla, também a escolha de viver a partir dos valores ancestrais transmitidos tem as suas dificuldades».

As religiosas acompanham a procissão pela aldeia com a imagem de Nossa Senhora do Rosário
As religiosas acompanham a procissão pela aldeia com a imagem de Nossa Senhora do Rosário   (©Miriam Pinatti)

As Missionárias Diocesanas e a Igreja em saída

No meio destas aldeias, desde 2012, vive uma comunidade religiosa das Missionárias Diocesanas. O sonho de ser uma Igreja em saída constante e de permanecer ao lado do povo foi parte do impulso para se abrir à nova missão na Prelazia de Humahuaca. Os desafios foram grandes desde o início: «encontramos, dentro do mesmo país, uma cultura e uma visão do mundo, da vida, do tempo, da terra completamente diferentes. São precisos anos para compreender...», contou a Ir. Andrea Landetcheverry, superiora-geral na altura da fundação e que, desde 2024, faz parte da comunidade.

Ao longo dos anos, as religiosas – juntamente com os leigos das comunidades e os bispos – foram à procura de novas formas de presença no território, numa escuta constante da realidade e do projeto de Deus para a Prelazia: ser uma Igreja mais autóctone, com características próprias.

A maioria das casas no campo tem oratórios familiares, onde a comunidade se reúne para celebrar a festa do santo padroeiro
A maioria das casas no campo tem oratórios familiares, onde a comunidade se reúne para celebrar a festa do santo padroeiro   (© Miriam Pinatti)

Hoje, esta comunidade das Missionárias Diocesanas tem a tarefa pastoral de animar duas paróquias rurais compostas por 50 aldeias, que não têm um sacerdote. A Ir. Andrea explica: «o desafio é continuar a ouvir e procurar dar uma resposta às necessidades de hoje. (...) A missão atual é a nossa contribuição feminina. Uma forma de estar presentes, de ser Igreja, de ouvir, de fazer comunidade. Ser companheiras e próximas».

Na sua primeira exortação apostólica, Dilexi te, o Papa Leão XIV afirma: «crescidos em extrema precariedade, aprendendo a sobreviver nas condições mais adversas, confiando em Deus com a certeza de que mais ninguém os leva a sério, ajudando-se mutuamente nos momentos mais sombrios, os pobres aprenderam muitas coisas que guardam no mistério dos seus corações». Essas irmãs, tal como tantas outras de diversas congregações religiosas, são testemunhas de tudo isso.

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12 maio 2026, 08:00