Lusofonias - Recordar o Papa Francisco, um ano depois da sua partida para o Pai
Tony Neves, em Roma
Celebrei o primeiro ano da morte do Papa Francisco por terras do México, no mesmo continente e contexto linguístico onde Jorge Mario Bergoglio nasceu e cresceu. Os rescaldos vão-se fazendo melhor à medida que os acontecimentos se distanciam. Assenta a poeira e fica para a história o que verdadeiramente interessa.
Por isso, li estes dias, com muito agrado e proveito, o livro da jornalista Rosa Pedroso Lima que foi porta-voz das Jornadas Mundiais da Juventude (Lisboa 2023) e que nos tenta mostrar os lados menos mediatizados deste que foi o evento mais mobilizador da história de Portugal. A importância fica acrescentada pelo facto destas JMJ terem sido as últimas presididas pelo Papa jesuíta argentino.
Atraíram-me particularmente os títulos dados a cada um dos 18 curtíssimos capítulos, desde ‘uma Jornada sem cabeções’, ‘as gatas da Jornada’, ‘o Cardeal danoninho’, ‘uma centenária encontrada no barbeiro’ até ‘não ver nada nos grandes dias’!
Uma das notas salientes desta obra, ao contrário de outras publicadas sobre as JMJ, é que o protagonismo maior é dado aos leigos, uma vez que foram eles os grandes responsáveis pelo sucesso mundial deste grande evento juvenil. De qualquer forma, além do Papa, há duas figuras da hierarquia da Igreja de Lisboa que se salientam: o Cardeal D. Manuel Clemente que lançou a candidatura e ‘ganhou’ as dores de cabeça e os louros do seu sucesso; o agora Cardeal Américo Aguiar que foi indigitado para coordenar as operações de organização e realização das JMJ.
Evocando o choque da morte inesperada do Papa Francisco, Rosa Pedroso Lima diz que este livro pretende ser a história ‘de cada um dos leigos que aceitou ‘entrar nesta loucura’’. Confessa: ‘optei por histórias e por protagonistas. E usei como ponto de mira a minha experiência como porta-voz das JMJ durante seis meses. Entre maio e outubro de 2023, conheci os homens e as mulheres destacados para as várias áreas da organização da Jornada: sacerdotes, freiras, leigos de todas as idades e proveniências. Vi em todos o esforço, acompanhei as dificuldades, os avanços e os recuos próprios de quem caminha ao lado da História’.
D. Manuel Clemente, no Prefácio, cita os muitos que desconfiavam da capacidade de acolher um evento da dimensão das JMJ: ‘parecia tão difícil, antes de começarmos… Lançando a ideia, não faltou quem dissesse ser mesmo impossível para a capacidade logística e financeira que teríamos: onde o espaço para tanta gente, convergindo comunicações e meios de transporte? E para tanto tempo, uma semana ou mais, de concentração de uma multidão assim? Onde acolher, onde instalar, com o alimentar de todos e de cada um?’ Concluiu: ‘mas tudo se foi fazendo, passo a passo e resposta a resposta’.
D. Américo Aguiar, no Posfácio, partilhou as luzes e sombras de um caminho muito difícil, com uma Covid 19 a complicar as coisas e os achaques de saúde do Papa a lançar dúvidas sobre a sua capacidade de vir a Lisboa. Agradece o sucesso deste evento a quantos colaboraram, usando a expressão repetida pelo Papa: ‘Todos, todos, todos…’. Dá graças a Deus, pela vida e missão do Papa Francisco, com quem construiu uma profunda amizade. Termina: ‘E correu tudo bem? Não. Tudo foi fácil e tranquilo? Não. Mas o bom e o belo, o gratificante e o extraordinário em tudo superaram as pedras do caminho’.
Carmo Diniz acha que ‘Lisboa não ficou igual, Portugal não ficou igual e os jovens católicos do mundo inteiro não ficaram indiferentes (…). A atenção à deficiência não é a mesma’, o mesmo se diga da sensibilidade às questões de ‘sustentabilidade ambiental’. A grande missão do Gabinete de Diálogo e Proximidade foi ‘trazer para a organização os conteúdos das encíclicas ‘Laudato Si’ e ‘Fratelli Tutti’’ do Papa Francisco, apostando no conceito de ‘ecologia integral’.
Jorge Messias agradece a quantos trabalharam com ele para assegurar a complexa logística das Jornadas, considerando que houve muitas vezes uma mão invisível e uma ‘força de ‘Quem Manda Nisto Tudo’ que tornou ‘possível acontecer o milagre das JMJ’.
Ao Papa do ‘Todos, todos, todos!’, um grande obrigado por ‘Tudo, tudo, tudo!’.
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