João Paiva João Paiva  (©Rede Sinodal - Portugal)

João Paiva: “unidade na diversidade que permita transformação”

O professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto considera que a “sinodalidade tem um potencial de se descentrar da clericalização e de se aproximar de uma Igreja horizontal e em saída”. A Rede Sinodal em Portugal apresenta aqui o episódio 14 do podcast “No coração da esperança”.

Rui Saraiva – Portugal

“No coração da esperança” é o nome da iniciativa em podcast da Rede Sinodal em Portugal. Apresentamos aqui o episódio numero 14 de uma parceria inovadora de comunicação que faz caminhar em conjunto Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo.

Neste episódio o entrevistado é João Paiva, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e assíduo participante em atividades eclesiais de reflexão, também nos órgãos de comunicação social. Participou numa formação sinodal dedicada ao clero da diocese do Porto desenvolvendo o tema “Território, Missão e Comunidade: Itinerários para uma nova reconfiguração pastoral”. Publicamos aqui as suas respostas às questões da Rede Sinodal em Portugal:

P: Acha que na implementação das conclusões do Sínodo pode vir a ser mais importante conservar a unidade do que ativar a mudança na Igreja?

R: A pergunta é muito boa e toca na ferida sobre um aspeto tensional, eu diria que mais do que na Igreja, na vida das pessoas. E eu até acho que é uma conversa pré-sinodal, mas onde, obviamente, a sinodalidade mergulha como oportunidade, mas também como ameaça. E, na minha opinião, satirizando um pouco a palavra unidade, a “unidadezinha” que pode cair no uniformismo e no medo de mudar, torna-se um perigo à ação da sinodalidade. Eu compreendo que nesta mudança, não é uma mudança qualquer. Não é uma mudança com os critérios típicos, sociopolíticos apenas, pois nós desejamos ser conduzidos pelo Espírito. Mas na realidade, há um imperativo que é até evangélico de garantir Cristo mudando e transformando. E, portanto, nessa tensão, eu sou daqueles que tenho mais medo do uniformismo que mantém tudo na mesma do que nalguma mudança que possa ferir aqui e ali, mas que na realidade transforme, não comprometendo a unidade, mas tomando uma unidade na diversidade que permita transformação e a mudança.

P: O relatório do grupo de estudo n.º 4 do Sínodo faz uma revisão da "Ratio Fundamentalis Sacerdotalis" em perspetiva sinodal e propõe uma maior participação de mulheres na formação nos seminários. Num ambiente desde sempre masculino, trata-se de uma mudança radical?

R: É uma mudança que vai às raízes e que é precisa, nesse sentido, radical, porque não estamos habituados a isso. Ela é precisa porque a nossa cultura, onde Jesus se quer revelar e manifestar, é uma cultura que, em certo sentido, está à frente da cultura eclesial no confronto com o Evangelho, na minha opinião. E falta, de facto, “tonus”, liderança e protagonismo feminino na Igreja Católica Romana. E um dos expedientes de o fazer é, inequivocamente, convocar as mulheres para participação ativa na formação do clero, inicial e até na formação contínua do clero. Eu permito-me avançar com um dos expedientes que é menos polémico. Eu tenho uma posição crítica, muito radical, sobre, vamos dizer assim, o subdesenvolvimento em que estamos na Igreja no que diz respeito à liderança feminina. Mas tenho uma sugestão que tem enquadramento canónico e poderia ser suficientemente revolucionária ou radical, no bom sentido do termo, que é formar, divulgar e estimular nos seminários e não só, o acompanhamento espiritual feito por leigos bem formados, que incluiria também, obviamente, mulheres. E, na realidade, como boa experiência que vem da cultura, por exemplo, no domínio do acompanhamento psicológico ou de outras atividades em que na nossa cultura as mulheres dão muitas e boas cartas, seria inspirador, e favoreceria a Igreja, estimular o acompanhamento espiritual, inclusive de jovens candidatos a sacerdote, e de sacerdotes, por mulheres. Isso iria de certeza ampliar a inteligência emocional e outro tipo de competências que dariam melhores pastores da Igreja Católica.

P: Uma Igreja sinodal está menos centrada no presbítero e mais na comunidade?

R: Sim, radicalmente. Eu respondo afirmativamente, e isso... Ou deveria estar. Portanto, eu estou a colocar isto no plano da idealidade, não é? A Igreja sinodal que vive neste dinamismo, por um lado novo, por um lado antigo no melhor dos sentidos, porque radica no Evangelho, no exercício da escuta e do caminho em comum. Na realidade, quem é o centro? É o povo que caminha, que é escutado. É verdade que depois há deliberações, digamos assim, e decisões que se vertem sobre alguma hierarquia, e isso a mim não me parece mal. Tomando confiança de que essas decisões não têm uma génese clerical, mas têm precisamente a raiz da escuta feita, amadurecida, discernida, e que leva a uma eleição e a uma decisão de mudança. Portanto, a minha resposta é que a sinodalidade tem um potencial de se descentrar, no pior sentido dos termos, da clericalização e de se aproximar de uma Igreja horizontal e em saída.

O professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, a propósito da ação de formação em que foi orador na diocese do Porto, sublinha que na tensão entre “a mudança e o conservar, é capaz de ser melhor eleger, como cristãos, a relação em vez da identidade”. Algo que esteve presente na partilha que João Paiva fez com o clero daquela diocese, na qual tomou a liberdade de se colocar na posição de pároco do Porto.

"No Coração da Esperança" - Episódio 14 - João Paiva

“Tomei a liberdade de me colocar na posição de pároco do Porto e dei, como eu disse, doze tiros de doze problemáticas muito variadas sobre os problemas ou económicos, ou políticos, ou pastorais que os párocos pudessem ter, mas tentando concretizar aqui, imagine-se, sobre os dilemas, por exemplo, que algumas manifestações religiosas, como as procissões, podem ter nos senhores párocos, como têm do meu ponto de vista, algum sentido crítico sobre um perigo de superficialidade e de não-ressignificação, e de como é que, como párocos, podemos intervir nisso sem ser violentos, mas ao mesmo tempo também sem ser bonzinhos, no mau sentido do termo, e falando sobre os assuntos.

Portanto, foram lançadas essas questões. E depois, de forma muito divertida e muito leve, numa segunda parte, os senhores párocos deram eco às provocações que eu fiz e falámos mais aprofundadamente sobre muitos desses assuntos. Eu próprio aprendi muita coisa e foi bastante gratificante.

As linhas de força que saem é principalmente esta ideia de que os desafios pastorais hoje são muito complexos, mas que também, nesta tensão entre a mudança e o conservar, é capaz de ser melhor eleger, como cristãos, a relação em vez da identidade e, por isso, tratar mesmo de mudar, refrescando e tornando crísticos estes relacionamentos”, disse o professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

A entrevista a João Paiva foi o episódio 14 do podcast “No coração da esperança” da Rede Sinodal em Portugal, uma parceria que faz caminhar em conjunto Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo.

Laudetur Iesus Christus

Oiça

 

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18 maio 2026, 11:04