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2026.04.03 Sud Sudan - padre Federico Gandolfi

Sudão do Sul: escalada de violência leva à suspensão de todas celebrações da Páscoa

O exército fechou as estradas no estado de Wester Bar El Ghazal devido à intensidade dos combates. O missionário Federico Gandolfi: os pobres sofrem as consequências de tudo, mas “o Ressuscitado está presente na vida das pessoas que, apesar de tudo, demonstram sorrisos e caridade, e que, ajudando-se mutuamente, representam um exemplo de resiliência e fé”.

Francesca Sabatinelli – Vatican News

Quatro horas de caminhada, ida e volta, separam as casas da igreja, um tempo que se prolonga na estação das chuvas, quando a cheia dos rios, as inundações e a lama atrasam, ou até mesmo impedem, qualquer deslocamento. Mas neste domingo (05/04), a impedir a caminhada para a missa de Páscoa, há também os combates que eclodiram nos últimos dias: o exército fechou as estradas que levam à cidade, as celebrações públicas foram todas suspensas, “e estamos isolados; felizmente, temos o poço e um pouco de comida”.

O povo da floresta

O Pe. Federico Gandolfi, missionário dos frades menores, vive há 11 anos no Sudão do Sul. Para celebrar o Tríduo Pascal, ele se deslocou da capital Juba para o estado de Wester Bar El Ghazal, em Ngodakala, a cerca de uma hora de carro da capital Wau, onde, com seus confrades, há alguns meses, abriu uma nova missão para os Balanda, “a população que habita a região e que é uma tribo não muito numerosa, geralmente pacífica, que vive da caça e da agricultura”. Não se trata de uma aldeia, mas de um aglomerado de cabanas espalhadas por uma vasta área da mata. Mas para o “povo da floresta” este ano não haverá a missa de Páscoa, tradicionalmente a única celebração que conta com a participação de muitos, porque “para eles é a lembrança do que Deus fez por nós”.

Uma fé simples

“Toda a população – explica Gandolfi – se define como católica, mas vimos como a influência dos ritos tradicionais ainda se faz sentir, e de forma muito marcante, sobretudo no que diz respeito aos ritos fúnebres. O Tríduo Pascal é pouco conhecido por essa tribo, que ainda é um pouco isolada. Houve longos anos de evangelização e esse tipo de serviço da nossa parte, durante este ano que foi o primeiro para nós de pastoral nesta zona do Sudão do Sul, foi muito importante”. Para essas pessoas, o que mais importa é que “Deus existe, é um Deus vivo, um Deus verdadeiro. Não é uma ideologia, nem o fruto de um estudo, nem um raciocínio filosófico, mas é um Deus presente em suas vidas. Isso é algo realmente muito, muito bonito da fé simples desse povo. Vão à missa com frequência, embora durante a estação das chuvas, que começou bem antes do previsto, nem sempre consigam estar presentes”. As tempestades violentas que assolam o país por horas causam inundações tanto na capital quanto nas aldeias, derrubando principalmente as cabanas onde as pessoas vivem, mesmo na cidade. “Os pedidos de ajuda para reconstruir ou consertar da melhor maneira possível suas casas são intermináveis nestes dias e a situação não vai melhorar, pois as chuvas continuarão até novembro-dezembro, se tivermos sorte”.

O serviço aos leprosos
O serviço aos leprosos

O retorno à violência

No entanto, o que impediu “o povo da floresta” de seguir em direção às celebrações da Páscoa, até o momento, é a violência que está explodindo novamente, de forma dramática e como um prenúncio de uma possível nova guerra civil, semelhante àquela que, de 2013 a 2018, dilacerou este país, o mais jovem do mundo e um dos mais pobres e instáveis, acometido por uma grave crise humanitária, com repercussões econômicas e sanitárias. O Sudão do Sul vem enfrentando tensões muito fortes há vários meses devido a diversos combates que eclodiram em várias áreas.

Nos últimos dias, dezenas de pessoas, em sua maioria mineiros, teriam sido mortas no Estado da Equatoria por homens armados não identificados. As vítimas eram paroquianos de Gandolfi, que conta como, após a recente descoberta de uma mina de ouro dentro de seu território paroquial, “em menos de um ano, a zona, antes quase deserta, passou a receber mais de 10 mil pessoas vindas de outras regiões do Sudão do Sul”. Uma área muito rica, portanto, que despertou interesse também em vários generais do exército regular, que, segundo as forças da oposição, seriam os mandantes do massacre.

O Pe. Federico Gandolfi com os paroquianos
O Pe. Federico Gandolfi com os paroquianos

A extrema pobreza

Além da chuva, o que impede o caminho até a paróquia é também o medo de serem massacrados. “Na semana passada – explica Gandolfi – ocorreram combates ao longo da estrada principal; infelizmente, oito pessoas morreram, todas civis, e por isso agora estamos monitorando constantemente o trajeto que liga a cidade de Wau, e também as áreas circundantes, à nossa paróquia”. 

Além disso, o Sudão do Sul está enfrentando as consequências do bloqueio dos fundos de desenvolvimento das Nações Unidas e de várias ONGs que sempre estiveram presentes no país. “Os cortes causados pelas políticas externas das grandes potências mundiais”, continua Gandolfi, “têm repercussões justamente sobre os pobres. São sempre eles que sofrem as consequências das decisões de outros países; basta pensar que o acesso a medicamentos tornou-se quase impossível, e também os alimentos no mercado tiveram um aumento de 40%, um custo enorme para a população”. Tudo isso “gera descontentamento, aumenta as tensões, aumenta a criminalidade”.

O serviço junto às pessoas que sofrem com a lepra
O serviço junto às pessoas que sofrem com a lepra

Resiliência e fé

Diante de tudo isso, porém, a esperança não se esvai, porque “o Ressuscitado está presente – conclui o missionário – na vida das pessoas que, apesar de tudo, demonstram sorrisos, demonstram caridade, as pessoas se ajudam mutuamente, representando ainda hoje um exemplo de resiliência e de fé”.

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06 abril 2026, 15:18