São João da Cruz, doutor e místico: em 2026 dois centenários
Frei Patrício Sciadini, OCD
Celebrar o centenário de alguém ou de um acontecimento que marcou bem ou mal a história serve para evitar o mal ou viver o bem. São João da Cruz é um dos maiores místicos, também Doutor da Igreja, quer dizer que a sua doutrina não tem erros e que pode ser seguida para alcançar a contemplação, vivenciar a oração e percorrer com segurança o caminho da espiritualidade. Esta culmina nesta vida com a íntima união com Deus, que a Igreja chama de matrimônio espiritual.
João da Cruz nasceu no dia 24 de junho de 1542, no chamado “século de ouro” na Espanha, dos grandes santos e do período do Concílio de Trento, e morreu em 14 de dezembro de 1591. Uma infância pobre, órfão desde pequeno, distante da mãe por causa da carestia, trabalhava de dia e estudava de noite. Fez a experiência da solidariedade de pessoas que o ajudaram e que o educaram nos sentimentos cristãos. Entrou no Carmelo em Medina del Campo e estudou na conceituada Universidade de Salamanca.
Sedento de perfeição e de coerência na sua vida consagrada, viveu uma crise de identidade que foi resolvida no encontro com Santa Teresa de Ávila, de quem foi fiel cooperador na reforma do Carmelo.
CARMELITA DESCALÇO
A segunda metade do século XVI foi historicamente um período de renovamento na Igreja, impulsionado pelas reformas do Concílio de Trento. Muitas ordens religiosas estavam vivendo uma decadência na observância religiosa, e começou um renovamento para voltar a uma vida mais autenticamente evangélica, mais austera, baseada na oração, vida fraterna e missão. Assistimos ao surgir de novas Congregações religiosas, como a Companhia de Jesus, por iniciativa de Santo Inácio de Loyola.
Santa Teresa de Ávila, nascida no dia 28 de março de 1515, era monja no Carmelo da Encarnação, onde viviam mais de 180 monjas. Sentiu uma profunda inspiração de começar uma renovação da Ordem, formando uma pequena comunidade, treze monjas à imitação do colégio apostólico, Jesus e os doze. Esta comunidade iniciou no dia 24 de agosto de 1562. Para que o seu projeto pudesse ter continuidade e assistência religiosa, percebeu que seria necessária a presença de “frades que comungassem o mesmo espírito”. Assim, no dia 28 de novembro de 1568, com São João da Cruz, surgiram os Carmelitas Descalços.
UMA VIDA ABERTA AO ESPÍRITO SANTO
João da Cruz, homem sábio e decidido no seu caráter a perseguir o ideal de uma vida o mais conforme possível a Jesus Cristo, amigo e companheiro, única Palavra que o Pai pronunciou em silêncio e que continua a pronunciá-la em silêncio, levou a sério o novo estilo de vida. Formador dos primeiros carmelitas, vários dos quais provinham do Carmelo antigo, com equilíbrio formou para uma vida de oração, austeridade e atendimento ao povo que vivia ao redor dos conventos.
No início tudo isto foi realizado com todas as licenças dos superiores, mas quando o fenômeno iniciado por Santa Teresa e por São João da Cruz se ampliou, começaram as dificuldades, conflitos e lutas, tentando sufocar este novo movimento da Descalcez, palavra espanhola que significa austeridade, por ir com sandálias, sinal de pobreza e de penitência.
Os atritos entre os Carmelitas Descalços e os outros chegaram ao ponto de que um grupo “sequestrou João da Cruz”, enquanto era confessor no mosteiro da Encarnação, e foi levado a Toledo, onde passou nove meses na cadeia conventual, da qual fugiu na noite de 14 de agosto de 1578.
Daí iniciou um caminhar pela Espanha, fundando conventos e mosteiros e visitando frades e monjas. Não vão faltar sofrimentos, cruzes e lutas internas, mas o seu estilo de vida silencioso, preocupado em viver com fidelidade a sua vocação, e o seu testemunho questionam os que vivem com ele. O seu programa é: “silenciar e agir”.
Poeta e místico, escreve poesias que traçam o caminho que o ser humano deve percorrer para chegar a Deus. Monjas e frades pedem que ele explique estes “versos sublimes e espirituais”, e destas explicações nascem as suas grandes obras: Subida do Monte Carmelo, Noite Escura, Cântico Espiritual e Chama Viva de Amor.
DOUTRINA
Em todos os seus escritos, João da Cruz não fala dos problemas políticos, nem da Igreja, nem das grandes descobertas, como a da América. A sua preocupação é outra: como ele mesmo diz, “pegar pela mão a pessoa que decide o caminho para Deus, o caminho da conversão, e levá-la até a mais íntima comunhão com Deus que seja possível aqui na terra”.
Este caminho consiste em purificar todos os desejos que não sejam Deus, passar pelas noites escuras do espírito, não se deter em consolações e não buscar prazer em nada. Um caminho marcado pela palavra tão querida a João da Cruz: “nada, nada, nada”, para possuir o Tudo que é Deus.
Deus, em São João da Cruz, é o centro e é essencialmente amor, e somente ama e só o conhece quem corresponde a este amor gratuito de Deus. Deus nos busca e nós buscamos a Deus. Ele toma a iniciativa de nos amar; e “se é verdade que o homem busca a Deus, é ainda mais verdade que Deus busca o homem”.
Deus se revela amor especialmente no mistério da Encarnação. A alma-esposa busca Cristo, seu Esposo, e se une a Ele, sendo transformada no amor. Esta união acontece através das purificações inevitáveis na vida, que o místico espanhol chama de “noites”. Deus é transcendente, mas onde podemos encontrá-lo? Para João da Cruz, Deus deixa a sua presença, o seu sinal, em todas as coisas, mas habita “essencialmente” no nosso coração, dentro de nós. Feliz é a alma que consegue encontrá-lo dentro de si mesma. E cita Santo Agostinho: nem fora de nós, nem longe de nós, mas dentro de nós.
A imersão total em Deus acontece, para João da Cruz, no matrimônio espiritual e na consumação da chama viva de amor. A obra Chama Viva de Amor canta esta plena transformação da alma em Deus. Somos, como ele dirá, “endeusados”.
O HOMEM: a finalidade última do ser humano é encontrar Deus e unir-se a Ele definitivamente numa união transformante. Para São João da Cruz, o ser humano “anda inquieto buscando quem amar, e ao mesmo tempo tem necessidade de ser amado”. Somente o amor pode satisfazê-lo plenamente.
O ser humano “se dá conta, toma consciência” de que deve iniciar esta busca do seu amado Deus, e sai como a esposa do Cântico dos Cânticos na busca do amado e pergunta a todas as criaturas se o têm visto e se sabem onde o amado se esconde. É esta a trama da obra espiritual e mística de João da Cruz: O Cântico Espiritual, a obra mais pedagógica que ensina o caminho que deve ser seguido para chegar a Deus, para deixar-se amar e amá-Lo.
Por isso, o esforço por nossa parte é eliminar da nossa vida todos os obstáculos que podem nos impedir de nos aproximarmos de Deus. Este caminho João da Cruz o compara a uma subida do Monte Carmelo: quem chega no cimo do monte, superando todas as dificuldades, é uma alma totalmente livre, possui a liberdade interior e exterior de todas as coisas.
ATUALIDADE DA DOUTRINA DE JOÃO DA CRUZ
São João da Cruz é cada vez mais atual, especialmente no mundo de hoje. É lido não somente pelos católicos e cristãos, mas também pelos budistas, pelos filósofos e pelos psicólogos e psicanalistas. Por que este interesse ao redor dele, um santo que viveu séculos atrás? Vários são os motivos que aproximam o homem contemporâneo deste místico, que não pretende dar respostas para a “história”, mas para o ser humano, para que ele encontre o seu centro, o essencial, o interior, e uma vez reencontrado a si mesmo possa ajudar os outros a se reencontrarem.
NOITES E LUZES
O mundo de hoje é noite e luzes, uma luta constante. Ao nosso redor aumentam as guerras, a criminalidade, o avanço do mal; mas quem crê e busca a Deus sempre vê raios de luz, uma vitória que nasce da luta contra o mal. A cruz de Cristo sempre ilumina a vida de cada pessoa. As noites, por mais obscuras, não podem sufocar a luz da esperança. Da fragilidade nascem oportunidades novas que, se sabemos enfrentá-las purificando-nos do ódio e da violência, podem se tornar novos caminhos da humanidade.
João da Cruz nos recorda nos seus escritos continuamente o ideal pelo qual fomos criados: a felicidade, Deus, e as dificuldades que devemos superar. É o santo da esperança e das virtudes teologais. Fé, esperança e caridade devem ser vividas em profunda harmonia e sinergia. Lentamente a noite se transforma em luz.
MÍSTICA DO COTIDIANO
Não encontramos na vida de São João da Cruz grandes coisas extraordinárias que ele tenha feito, nem grandes obras, mas sim uma pessoa decidida a viver a sua cotidianidade com fidelidade e com amor. Um religioso “normal” na vida de todos os dias, mas com uma atitude surpreendente de oração, de fraternidade e de missão.
Sempre plenamente disponível ao que os outros poderiam pedir-lhe, não recusava nenhum sacrifício. Cheio de amor fraterno, a história nos conta que, mesmo quando era confessor no mosteiro da Encarnação, e havia monjas que tinham necessidade de algo, ele se prestava para ajudar. O seu jeito de confessor e diretor espiritual “saiu” do ambiente restrito e conventual e se difundiu no meio do povo, tornando-se uma pessoa estimada e consultada.
João da Cruz era um ótimo teólogo, preocupado com o progresso espiritual das pessoas que recorriam a ele. Tinha uma grande capacidade de escuta e de diálogo. Embora a sua doutrina escrita seja exigente e às vezes dura, no trato com as pessoas era afável. O místico dirá: “Deus é terno e afável”. Quanto mais santos somos, mais humanos nos tornamos. “Penitências sem critérios são penitências de bestas”.
Hoje devemos recuperar, mesmo na Igreja, a mística do cotidiano. A santidade não é outra coisa senão viver o Evangelho de Jesus no decorrer das nossas atividades.
LIBERDADE INTERIOR
Quem busca a verdade e a encontra chega à verdadeira liberdade, uma liberdade que lhe permite sair dos túmulos do egoísmo e colocar-se ao serviço de Deus e dos outros.
São João da Cruz, com uma pequena poesia chamada Suma da perfeição, diz:
“Memória do Criador
Esquecimento da criatura
Atenção ao interior,
estando amando o Amado.”
Síntese maravilhosa do caminho espiritual: quem quer ser livre, mesmo num mundo feito de conflitos e de noites, encontra sempre a luz da liberdade que infunde coragem e vida.
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