Irmã Marie-Pascaline com Nouchka, agora com 35 anos, que nasceu com HIV pois contraiu o vírus da mãe Irmã Marie-Pascaline com Nouchka, agora com 35 anos, que nasceu com HIV pois contraiu o vírus da mãe  #SistersProject

RD Congo: religiosas atuam no resgate à dignidade das pessoas com HIV/Aids

Em Kinshasa, no coração da República Democrática do Congo, as Irmãs do Sagrado Coração de Jesus desempenham uma missão fundamental: restituir a dignidade às pessoas que vivem com HIV/Aids. A doença continua sendo uma realidade profundamente dolorosa que fere intimamente muitas vidas, tanto no seio familiar como nos grupos de amigos.

Ir. Dorothée Sindani, RSCJ

Neste mundo, abençoado e ferido, algumas pessoas vivem com o HIV  (vírus da imunodeficiência humana) em silêncio, marcadas pelo sofrimento interno, pelo medo da rejeição, pela vergonha da sua condição e pelo peso do julgamento alheio. Receber um diagnóstico de HIV continua sendo uma dupla provação: dor física e estigmatização. Assim, muitas pessoas preferem permanecer em silêncio, escondendo a sua condição, por medo da rejeição da família ou da sociedade. Através do apoio médico e da orientação espiritual do grupo “Amigas de Sofia”, essas mulheres consagradas transformam o desespero num novo começo.

Uma missão de compaixão e acompanhamento integral

Inspiradas pelo carisma da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor misericordioso de Jesus, as religiosas oferecem um acolhimento sem julgamentos às pessoas que vivem com HIV. Através de gestos simples do dia a dia e de uma escuta atenta, lembram que a doença não define o valor de uma pessoa. A assistência das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus concentra-se na preservação da dignidade humana face à doença, oferecendo apoio moral e material tanto a adultos como a crianças que ainda não têm consciência da sua condição.

As amigas de Sofia: apoio espiritual, moral, psicológico e material

Este grupo foi oficialmente fundado em 2019. Mas muito antes disso, uma família com HIV já era apoiada pela Irmã Marie-Pascaline Ekosoni. Se a pessoa não aceita, viver nessa condição pode, por vezes, gerar problemas psicológicos. A Ir. Marie-Pascaline, como líder direta, oferece uma escuta atenta para fortalecer a autoestima e a resiliência face à doença. Sob a proteção de Santa Marie-Madeleine Sophie Barat, os doentes são chamados dignamente “Amigas de Sofia” dentro de uma verdadeira família espiritual livre de estigma. Para além do acompanhamento espiritual, moral e psicológico, oferecem ajuda material (leite, farinha de milho, açúcar, arroz, etc.) que, doada com amor, lhes permite ses manter saudáveis ​​e evitar a fome durante o tratamento.

As amigas de Sofia: apoio espiritual, moral, psicológico e material
As amigas de Sofia: apoio espiritual, moral, psicológico e material

Do sofrimento ao testemunho da esperança

Entre as amigas de Sofia, Nouchka, agora com 35 anos, aceitou partilhar a sua história. Nascida com HIV, contraiu o vírus da mãe, que faleceu poucos anos após o seu nascimento. A segunda de três irmãos, todos infectados, ela e Sofia cresceram sem saber da sua condição. «Não tínhamos consciência da nossa situação. No bairro, as pessoas diziam: “essas são as crianças cujas mães morreram de HIV/Aids”», recorda. O mais novo da família, infelizmente, não sobreviveu. A rejeição familiar e social deixou-a profundamente marcada. Abandonada à sua sorte, Nouchka passou por um período de grande dificuldade, abandonou o tratamento e mergulhou numa depressão. «Eu não queria viver mais», confidenciou. Como muitas outras, ela via a sua condição como uma vergonha, um fardo insuportável. Uma realidade partilhada por muitas pessoas que vivem com HIV.

Um encontro que restitui a vida

O encontro de Nouchka com a Irmã Marie-Pascaline Ekosoni marcou um ponto de virada na sua vida. Recebida com respeito e gentileza, ouvida sem julgamento ou condenação, Nouchka recuperou gradualmente a esperança. «Esse encontro foi um vislumbre de esperança. Recuperei as forças e decidi viver», testemunhou. Através dessa orientação, ela descobriu um lado da Igreja que cuida, eleva e restabelece.

O percurso de cura não tem sido fácil. Nouchka admite momentos de raiva e rebeldia: «cheguei ao ponto de condenar Deus e, principalmente, a minha mãe quando compreendi como o vírus era transmitido. Porque nos deveria ter protegido», declarou. Hoje, ela é mãe de um menino de três anos que é soronegativo, graças ao rigoroso acompanhamento médico. Embora o pai do seu filho o tenha rejeitado e abandonado, ela continua o seu percurso com coragem e dignidade.

Nouchka se recusa agora a viver com vergonha. «Esse estado de vida já não é um obstáculo para mim», afirmou. Agora ela se dedica a conscientizar as pessoas, incentivando a ingestão regular de medicamentos e relações responsáveis ​​para proteger a própria vida e a de outras pessoas. Tornou-se a voz dos que não têm voz, grata a quem lhe deu esperança: «agradeço às Irmãs Marie-Pascaline Ekosoni e Marie-Jeanne Elonga e a todas as Irmãs do Sagrado Coração de Jesus pelo acolhimento. Compreendi que o Coração de Jesus acolhe todos e que, por vezes, é a coragem de regressar a esse coração que nos falta. Recuperei o meu lugar na sociedade. Hoje caminho de cabeça erguida. Aqueles que me aceitam como sou, fazem agora parte da minha família».

Um apelo ao acolhimento e à compaixão

Através do testemunho de Nouchka, ninguém é definido pela sua doença. Neste mundo abençoado, mas ferido, o amor concreto, a aceitação incondicional e a compaixão transformam as feridas em caminhos de esperança. A aceitação incondicional é o primeiro remédio. «sonho em sensibilizar milhares de pessoas e luto por um mundo sem HIV/Aids», acrescentou, concluindo.

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28 abril 2026, 08:00