Papa Leão XIV em Angola - foto de David Mieiro, Lusofonias Papa Leão XIV em Angola - foto de David Mieiro, Lusofonias  (Tony Neves, Espiritanos em Roma)

Lusofonias - Papa Leão abraça África: visita à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial

O Papa Leão entrou em África por quatro portas linguísticas diferentes: a Argélia, onde o francês é língua oficial; os Camarões, país bilingue, pois ali se fala francês e inglês; Angola, de língua oficial portuguesa; a Guiné Equatorial, único país africano que fala espanhol. Nesta crónica, a visita do Papa Leão à África que abriu portas da esperança de que o mundo não está perdido, pode e deve mudar, para melhor.

Tony Neves, em Roma

Começou por fazer uma visita às suas raízes de agostiniano: esteve na Argélia, onde S. Agostinho nasceu e foi Bispo. A ida a Annaba  (antiga Hipona) foi um beber na fonte, com a emoção que os media mostraram ao mundo. Neste país muçulmano, onde a Igreja é uma comunidade muito pequena, o Papa apostou no diálogo inter religioso.

Os Camarões são maioritariamente cristãos, mas têm tido graves problemas de violência, sobretudo entre os francófonos e os anglófonos. Também têm sido graves os ataques do Boko Haram no extremo norte do país. Neste contexto, o Papa Leão apelou à reconciliação, à paz e ao diálogo.

Sousa Jamba, num texto a que deu o título de ‘o ópio católico’, falou do impacto da visita do Papa a Bamenda, nos Camarões anglófonos: ‘Essa gente, precisamente essa gente, não chorava de entorpecimento. Chorava de reconhecimento. Era essa a diferença que Marx não calculou: a diferença entre o ópio que adormece e a palavra que, por um instante, faz alguém sentir que existe; que a sua vida não é descartável; que a sua dignidade não é um favor, mas matéria sagrada.

Não porque o Papa resolvesse a guerra, nem anulasse a marginalização anglófona, nem expulsasse, num só gesto, os predadores externos que olham para África como quem olha para uma pedreira sem gente, mas porque, num mundo que tantas vezes lhes fala por cima, ele lhes falou como se estivessem no centro. Em lugares habituados a ser usados, explorados ou esquecidos, isso não é pouco. É uma forma de amparo. É uma restituição’.

Papa Leão nos Camarões durante a Viagem apostólica à África
Papa Leão nos Camarões durante a Viagem apostólica à África

Angola foi a terceira etapa desta primeira viagem de Leão XIV a África. Os esperados banhos de multidões felizes não esconderam as palavras cirúrgicas do Papa a pedir mais compromisso de todos para que o país seja um espaço de justiça, paz e reconciliação, onde todos tenham vez e voz. Cito algumas das intervenções mais proféticas do Papa. Disse em Luanda: ‘quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista!’.

Lembrou adiante: ‘a África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão. Somente no encontro a vida floresce. No princípio, está o diálogo. Ele não exclui a divergência, que contudo pode tornar-se conflito’.

Foi frontal a palavra dirigida às autoridades: ‘não temais as divergências, nem extingais as visões dos jovens e os sonhos dos idosos. Sabei, sim, gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renovação. Colocai o bem comum acima do das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo. Então, a história dar-vos-á razão’.

Na Missa no Kilamba (Luanda), a homilia foi clara: ‘nesta cena do Evangelho (discípulos de Emaús), vejo refletida a história de Angola, deste país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade. Na verdade, ao longo do caminho, a conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país: uma longa guerra civil com o seu rasto de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza’.

Mas o mais importante é olhar o futuro com esperança e construir a esperança do futuro: ‘também nós podemos e queremos construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha. Só assim será possível um futuro de esperança, sobretudo para os muitos jovens que a perderam’. Há que ser ‘testemunhas da sua ressurreição e protagonistas de uma nova humanidade e de uma nova sociedade’.

Saurimo acolheu em festa o Papa que ali foi dizer: ‘hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza. Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos. Perante tais males, Cristo escuta o clamor dos povos e renova a nossa história: em cada queda levanta-nos, em cada sofrimento conforta-nos, na missão encoraja-nos’. 

Mia Couto disse que o mundo precisa de um Papa assim, uma referência. Precisamos de pessoas que nos garantam que o mundo não está perdido, pode e deve mudar, para melhor. Esta visita do Papa abriu portas a esta esperança.

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24 abril 2026, 12:00