O grande silêncio: o valor do Sábado Santo para o cristão
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News
Após a entrega derradeira de Jesus no Calvário, o mundo mergulha em um silêncio sepulcral. Celebrar a Paixão é sempre um exercício de intensidade mística, pois nela tocamos as chagas do Redentor e contemplamos o preço inefável de sua oferta na cruz. Com o cosmos envolto em trevas, resta-nos a vigília: aguardamos a Luz que, ao romper a aurora, não surgirá tímida, mas manifestará todo o seu fulgor. A morte já não detém a última palavra; nisto reside a beleza da Páscoa, a passagem definitiva para uma realidade infinitamente superior e profunda.
Além do silêncio, este dia convida-nos à pedagogia da espera. Em tempos marcados pelo imediatismo, o aguardar é tido como angústia ou finitude. Contudo, o Sábado Santo nos ensina que a espera cristã é prenhe de esperança. Trata-se de uma prontidão ativa: não nos paralisamos diante do que aconteceu. Há um impulso que nos move para a frente e nos faz encontrar o tão esperado.
Neste horizonte, recordo-me daqueles que atravessam o vale do luto. A ausência de um ente querido pode apequenar o coração, povoando-o de inseguranças. Todavia, sob a luz da fé, sabemos que o cristão jamais se separa verdadeiramente dos seus. Pela comunhão dos santos, permanecemos unidos em um vínculo que o tempo não corrói, na certeza de que o Céu nos reserva o abraço do reencontro.
Enquanto peregrinamos aqui, na Igreja Militante, antes de nos unirmos às fileiras da Igreja Padecente ou Triunfante, cabe-nos a pergunta: como viver o agora? A resposta está na espera digna, manifestando a fé inabalável na ressurreição. O dia de hoje nos faz compreender isso; o olhar do cristão não se detém no sorrateiro, mas volta-se, esperançoso, para o porvir.
Neste dia, a Igreja volta seus olhos para a figura de Maria, o arquétipo da fé. Ela nos evangeliza com seu silêncio, a ser visto nas Sagradas Escrituras pelas poucas frases ditas, e também pela espera, pois nem a cruz a separou do seu Filho.
Maria experimentou uma solidão profunda, pois era viúva de José e agora testemunha da morte cruenta do único filho crucificado. No entanto, sua dor não se transformou em desespero. Ela permaneceu com a Igreja, em oração e expectativa, mantendo-se fiel em cada pulsar de seu coração materno.
Ao cair da noite, seremos conduzidos à "mãe de todas as vigílias". Como desconhecemos a hora exata em que o Senhor rompeu os grilhões da morte, fazemo-nos sentinelas. A Vigília Pascal é uma efusão de alegria: o fogo novo, o Círio aceso, o canto do Precônio, o ressoar dos sinos e as águas batismais proclamam que a noite se fez clara como o dia. Cristo venceu! A Páscoa já brilha entre nós.
Vivamos estas horas com o coração mariano e um silêncio meditativo. Toda espera tem seu termo, e o encontro com o Ressuscitado logo nos inundará de luz. Por que temer as sombras da existência? A vitória de Cristo é a nossa força para crer.
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