Dom Jaime Spengler e os novos rumos da Igreja no Brasil
Silvonei José – Vatican News – Aparecida
Encerram-se nesta sexta-feira, no Santuário em Aparecida, a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que trouxe como tema central a discussão e aprovação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.
Os bispos aprovaram o documento na manhã do penúltimo dia, 23 abril. O documento, que orientará as ações da Igreja nos próximos seis anos, foi aprovado por 294 bispos. Hoje o encerramento dos trabalhos com a celebração Eucarística.
Entre as orações e as reflexões intensas de dez dias de trabalho, o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e Presidente da CNBB – em conversa com a Rádio Vaticano – Vatican News -, deixou claro que o documento aprovado — as novas Diretrizes para a Ação Evangelizadora — não pode ser apenas papel.
"O trabalho começa agora", afirmou o cardeal, com a serenidade de quem sabe que o verdadeiro desafio é traduzir textos teológicos para a linguagem do povo. Para ele, a etapa "de mais empenho" é levar esse espírito de comunhão para as paróquias, movimentos e lideranças leigas em cada canto do Brasil.
O Profetismo diante da Desigualdade
Dom Jaime não fugiu dos temas que tocam as feridas do país. Ao comentar a mensagem ao povo brasileiro, ele traçou um diagnóstico honesto: vivemos na 10ª economia do mundo, mas habitamos em uma das nações mais desiguais do planeta. Para a Igreja, o olhar sobre essa realidade precisa ser profético e cheio de esperança, inspirado no exemplo bíblico de quem "passou por entre nós fazendo o bem".
Nesse contexto, a juventude surge como uma preocupação central. Dom Jaime destacou que os jovens são a parcela que mais sofre com as rápidas mutações da sociedade. "Precisamos encontrar caminhos viáveis que venham ao encontro do desafio que a juventude sofre diretamente", pontuou, indicando que a Igreja precisa ser um porto seguro em tempos de incerteza.
Democracia e Proteção: O Papel Institucional
Com as eleições de 2026 no horizonte, o cardeal reafirmou a fronteira que separa a fé da política partidária. Embora a Igreja não se envolva em dinâmicas de legendas, ela mantém o compromisso com a "promoção da consciência democrática e republicana". O objetivo, segundo ele, é fomentar uma sociedade mais justa e integrada através do voto consciente.
Outro ponto de destaque na Assembleia foi a agenda ética. A assinatura de um acordo com a Comissão para a tutela de menores foi tratada por dom Jaime com humildade e senso de urgência. "O que está em jogo é o futuro das crianças e adolescentes", disse, reforçando que a Igreja deve ser, acima de tudo, um espaço de vida e plenitude.
Um Novo Pentecostes
Para quem participa há anos da conferência episcopal, dom Jaime descreve o encontro como um "Pentecostes" moderno. Ele vê a construção de consensos entre centenas de bispos como algo que vai além da estratégia organizada: é, em suas palavras, "obra do Espírito de Deus".
Ao vislumbrar o futuro e a próxima eleição da presidência da CNBB, o arcebispo celebrou a alternância de poder e a chegada de "sangue novo". Dom Jaime, que por força dos estatutos não será candidato, encerra este ciclo com uma reflexão que resume sua trajetória: "quando nós gostamos do que somos e amamos o que fazemos, avançamos com serenidade".
Aprovação
Desde o início da Assembleia, no dia 15 de abril, os bispos se dedicaram a analisar o texto das Diretrizes, apresentado pela Comissão de elaboração das diretrizes.
Divididos em grupos por regionais, o episcopado apresentou um total de 656 emendas ao texto original, que foram acatadas pela comissão e está presente, em quase sua totalidade, no texto final apresentado aos bispos.
Antes da aprovação nesta quinta-feira, dom Leomar Antônio Brustolin, arcebispo de Santa Maria (RS) e presidente da comissão responsável pelas diretrizes, apresentou ponto a ponto o novo texto com a inclusão das emendas. Segundo o bispo, quase 90% das emendas recebidas foram incorporadas ao texto final. “Sempre preservando a unidade, a coerência e o horizonte global do texto”, destacou dom Leomar. “Fizemos o melhor possível para que esse texto seja a expressão real da nossa caminhada comum.”
Ao final da apresentação das diretrizes por dom Leomar, os bispos aplaudiram de pé, reconhecendo todo trabalho da comissão e o empenho em espírito de verdadeira comunhão, como destacou dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da CNBB. “Creio que temos em mãos um verdadeiro pentecostes, isto é obra do Espírito, não nossa, é do Espírito de Deus”, falou dom Jaime.
Após a correção do texto, as diretrizes estarão disponíveis, de forma impressa pelas Edições CNBB, em quatro semanas.
19º Congresso Eucarístico Nacional
Dom João Justino, arcebispo de Goiânia e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), falou aos bispos sobre 19º Congresso Eucarístico Nacional, que será realizado em setembro de 2027 em Goiânia (GO). O evento é organizado pela Arquidiocese de Goiânia em colaboração com as dioceses do regional Centro-Oeste da CNBB, que abrange o Distrito Federal e o estado de Goiás.
O tema desta edição será “Hóstias vivas, no mundo, para a glória do Pai”.
Com informações CNBB
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