Pizzaballa: em tempos de conflito, curar as feridas com a coragem do perdão
Beatrice Guarrera - Vatican News
Como viver como cristãos na situação de conflito que a Terra Santa está enfrentando? É a pergunta à qual tenta responder a carta dirigida à diocese, assinada pelo Patriarca de Jerusalém dos Latinos, cardeal Pierbattista Pizzaballa, que foi divulgada nesta segunda-feira, 27 de abril, com o título “Voltaram a Jerusalém com grande alegria. Uma proposta para viver a vocação da Igreja na Terra Santa”.
Nas livrarias a partir de 8 de maio
“A vocação de Jerusalém — observa o cardeal no texto — é curar o mundo de suas feridas. Curar as lacerações com mansidão e com a coragem do perdão: esta é a missão sublime de Jerusalém, onde os cristãos são sal, luz e fermento no seio das sociedades às quais pertencem de pleno direito”. As palavras de Pizzaballa estão contidas no extenso documento que representa “uma proposta inicial de reflexão”, a ser amadurecida “por meio do diálogo”, “desde que se seja, de qualquer forma, movido pelo sincero desejo de procurar compreender a vontade de Deus sobre cada um de nós”. O texto também chegará às livrarias a partir de 8 de maio, em um volume publicado pela Livraria Editora Vaticana, em italiano, e está sendo estudada a possibilidade de publicações em outras línguas.
Uma visão para a comunidade
A Carta está estruturada em três partes: na primeira, parte-se da “avaliação do atual estado de desordem”, para “ancorar-se firmemente na realidade tal como ela é, reconhecendo, porém, nela a presença ativa de Deus”; na segunda, o Patriarca compartilha “uma visão para a comunidade, inspirada e ancorada na Escritura, com uma conexão precisa com Jerusalém”; na terceira, são analisadas as implicações pastorais dessas reflexões, a serem aplicadas em paróquias, famílias, escolas e instituições. Pizzaballa ressalta que a carta não contém considerações e análises de caráter puramente político: “é ‘política’ apenas no sentido mais amplo, na medida em que diz respeito à nossa permanência, como cristãos, na polis, ou seja, em nosso mundo real e em nossa cidade de Jerusalém, embora sempre orientados para a verdadeira e definitiva Polis, a Jerusalém celestial”.
A imagem bíblica em torno da qual gira a reflexão do patriarca é, de fato, a cidade de Jerusalém, que “indica a convivência, a relação, civil e religiosa”. “Nós — afirma Pizzaballa — somos a Igreja de Jerusalém, e a Cidade Santa é o coração não apenas geográfico, mas também espiritual da nossa comunidade eclesial”. Uma Igreja de rosto multifacetado, “por sua essência, plural, já que Jerusalém é mãe de todos os povos”, mas que “há muitos séculos está imersa predominantemente em um contexto árabe”. É a partir desse quadro preciso que se lança o olhar sobre o presente, um olhar que “aspira a abraçar e incluir todos os seus habitantes”.
Eventos decisivos
Não se pode, portanto, deixar de partir do dia 7 de outubro e da guerra em Gaza, “eventos decisivos que, da pior maneira possível, encerraram uma época e abriram outra”. “O que estamos vivendo — observa o Patriarca — não representa apenas um conflito local, mas é o sintoma de uma mudança de paradigma em nível global”. Durante décadas, a comunidade internacional acreditou em uma ordem internacional baseada em regras, tratados e multilateralismo, enquanto hoje todos “parecem ter aberto os olhos para sua fragilidade”. “Assistimos ao retorno da força como instrumento decisivo para resolver qualquer contenda”, acrescenta o cardeal. “A guerra tornou-se objeto de um culto idólatra”. Os civis não são mais considerados vítimas colaterais, mas passam a ser vistos como danos atribuíveis à recusa do inimigo em se render ou como instrumentos úteis para alcançar os próprios objetivos, enquanto algumas potências mundiais escolhem de que lado ficar não com base na justiça, mas com base em seus próprios interesses estratégicos e econômicos.
As consequências do caos
“É uma guerra que se conduz também com palavras e imagens — observa o Patriarca —. É cada vez mais difícil distinguir a notícia da propaganda, enquanto nos perguntamos quantas pessoas, nessas últimas guerras, morreram por ‘decisão de um algoritmo’”. A vida da diocese tem sofrido “as consequências desse caos”, como a dissolução de relações envenenadas pelo ódio e pela desconfiança, a fragmentação em enclaves e bolhas identitárias, amplificadas pelos algoritmos das redes sociais, a perda de sentido e o desgaste das palavras “convivência”, “diálogo”, “justiça”, “bem comum”. Entre os efeitos negativos, destaca-se também a crise do diálogo inter-religioso, “atingido por memórias opostas e instrumentalizações identitárias”. “Os Lugares Santos, que deveriam ser espaços de oração”, afirma Pizzaballa, “tornam-se campos de batalha identitários e os textos sagrados são utilizados para justificar a violência, a ocupação e o terrorismo. Esse abuso do nome de Deus é o pecado mais grave do nosso tempo”.
As respostas da Igreja
Nesse cenário, a Igreja local é chamada a dar respostas diversas em realidades heterogêneas, a começar por Gaza, onde os cristãos “vivem em condições de extrema tribulação, mas a Paróquia da Sagrada Família e a Caritas continuam sendo o Rosto de Cristo em meio ao horror”. Na Palestina, o futuro do conflito israelo-palestino está sendo decidido de forma silenciosa e estrutural. “Se não se interromper a escalada das agressões causadas pela ocupação e pela ausência do Estado de Direito, corre-se o risco de cristalização de uma situação de ocupação permanente que corrói toda possibilidade de uma solução justa e compartilhada”, adverte o Patriarca.
Em Israel, “aumentam a discriminação social, as desigualdades econômicas e a crescente insegurança, devido à criminalidade que reforça a tentação de emigrar. A comunidade católica de expressão hebraica — continua o cardeal —, em uma disputa tão polarizada, nem sempre se sentiu ouvida”. Nesta desolação, as comunidades cristãs “permanecem um sinal tangível de esperança e de experiências corajosas de vitalidade e fraternidade, graças também à constante proximidade espiritual e concreta da Igreja universal – desde o Papa Francisco e o Papa Leão XIV até às dioceses mais pequenas e pobres”.
A imagem da Cidade Santa
A Igreja de Jerusalém “fez ouvir a sua voz, tentando pronunciar uma palavra de verdade mesmo em meio a essa confusão, muitas vezes à custa de incompreensões, mas — pergunta-se Pizzaballa — isso foi suficiente? Ou, neste período tão difícil, privilegiámos por vezes a prudência e buscamos a sobrevivência institucional, sacrificando o nosso testemunho profético? É uma pergunta que me acompanha todos os dias, à qual nunca é fácil responder”. Surge também a questão sobre qual é a vontade de Deus para Jerusalém e, para responder, “é preciso examinar a imagem da Cidade Santa que Ele próprio nos oferece” nas Escrituras. Jerusalém não é apenas uma questão de fronteiras políticas ou acordos técnicos; sua identidade principal é ser o lugar da Revelação de Deus, casa de oração para todos os povos. “Ignorar essa sua dimensão vertical, o primado de Deus, expresso na sensibilidade das diversas comunidades de fé, levou e levará ao fracasso de qualquer acordo de convivência”, adverte o Patriarca.
Um alerta para as instituições religiosas
Este é um alerta crucial para as instituições religiosas de Jerusalém: “sem se deixarem iluminar constantemente pela relação com Deus, elas se atrofiam, tornando-se fortalezas inexpugnáveis fechadas ao mundo”. Pizzaballa afirma ainda que “a obsessão pela ocupação de espaços e pela propriedade tornou-se um dos principais critérios de relação entre as comunidades religiosas de Jerusalém, gerando divisão e violência”, mas, em vez disso, “é preciso coragem para construir novos modelos de relações, onde a fé comum em Deus se torne ocasião de encontro e não de exclusão”. É preciso, em definitiva, “uma nova maneira de ver à luz do Cordeiro pascal”, que se concretize em “um estilo de vida da cidade com as portas abertas e uma memória purificada”. É necessário, de fato, “purificar a memória, repensando as categorias da história e, portanto, da culpa, da justiça e do perdão para gerar um futuro diferente”. É preciso, então, trabalhar para que Jerusalém seja acessível a todos, pois “não pertence a ninguém de forma exclusiva, mas é patrimônio da humanidade”.
Implicações pastorais
No âmbito pastoral, deve-se ter em mente, antes de tudo, a primazia da liturgia e da oração. É fundamental também o papel das famílias como laboratórios de educação para a convivência e o respeito, onde o passado pode ser narrado aos filhos com dor e verdade, mas sem transmitir sentimentos de ódio e vingança. Além disso, as escolas cristãs devem ser entendidas como “oficinas de uma nova humanidade, nas quais se transmite a consciência cristã e se educa para reler a história com olhos livres de rancor”. Os hospitais e as obras sociais, lugares onde acolhimento, diálogo e cura já são realidades vividas, devem ser apoiados.
Um papel importante cabe também aos idosos, que são a memória viva, aos jovens — a profecia — e aos sacerdotes e religiosos, ponto de referência fiel para a comunidade e modelos de convivência possível. “Carregar a cruz das divisões entre as Igrejas faz parte da nossa missão — acrescenta Pizzaballa, referindo-se às relações com os outros cristãos — e é por isso importante promover oportunidades concretas de conhecimento mútuo e falar a uma só voz, pois o primeiro testemunho é a unidade entre as comunidades”.
Como os discípulos após a Ascensão
O diálogo inter-religioso também continua sendo “uma necessidade vital”. Por fim, é fundamental que nunca se tolere “nenhuma cumplicidade com a cultura da violência”, ao mesmo tempo em que se deve dar espaço à confiança. “Como é possível fazer tudo isso?”. A resposta do Patriarca é simples: “sozinhos, não podemos. Mas não estamos sozinhos. Jesus nos espera em nossas paróquias, em nossas comunidades de fé, em nossos grupos e movimentos eclesiais. No fim das contas, o que nos sustenta não é a nossa força, mas a alegria do Evangelho”. “Nós também desejamos voltar à nossa Jerusalém cotidiana, como os discípulos após a Ascensão. Voltemos à nossa vida com paixão. Levemos no coração o sonho de Deus para sua cidade — conclui Pizzaballa — e deixemos que esse sonho se torne, passo a passo, dia após dia, a nossa própria vida”.
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