Cardeal Cupich: a paz não é a ausência de guerra, mas obra da justiça
Davide Dionisi – Vatican News
“A expressão ‘operadores de paz’ é excepcional tanto por sua raridade linguística quanto por seu contexto político provocativo. As Bem-aventuranças são a única ocasião em que ela aparece na Bíblia. E ao chamar os operadores de paz de filhos de Deus, Jesus subverte a propaganda romana da Pax Romana, que define César como artífice da paz e filho de deus. Para Jesus, os verdadeiros filhos de Deus não são os generais que pacificam por meio da conquista e da força militar, mas aqueles que entram em conflito com o único propósito de restabelecer o shalom, um conceito judaico de integridade e justiça”. Foi o que afirmou o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, durante a cerimônia de entrega do prêmio Blessed are the Peacemakers Award da Catholic Theological Union (CTU), realizada nesta quarta-feira, 29 de abril. Trata-se do prêmio anual mais prestigiado da CTU, considerada a maior escola de Teologia da América do Norte. Criado em 1993, o prêmio homenageia anualmente um líder que se destacou em prol da paz, da unidade e da reconciliação.
A advertência do Papa Leão XIV
“O Papa Leão XIV, em sua homilia do Domingo de Ramos, está subvertendo a narrativa que tenta justificar a guerra para alcançar a paz por meio do domínio”, explicou o cardeal, precisando que, “naquela ocasião, o Pontífice falou com uma clareza desarmante: Jesus, Rei da paz (…) que rejeita a guerra, que ninguém pode usar para justificar a guerra, (…) não escuta a oração de quem faz a guerra e a rejeita dizendo: mesmo que multiplicassem as orações, eu não escutaria: as suas mãos estão manchadas de sangue”.
A paz é uma tarefa
O cardeal Cupich observou com preocupação como, especialmente nos Estados Unidos, a reação ao Evangelho em tempos de guerra se reduziu a um debate técnico para “reavaliar, defender e aperfeiçoar a teoria da guerra justa”. “A primeira pergunta não é: esta guerra pode ser justificada? A primeira pergunta é aquela que Jesus aborda nas Bem-aventuranças: o que o Evangelho nos pede hoje? O que significa, concretamente, ser um operador de paz?”, explicou ele, ressaltando que “a Gaudium et spes ensina que a paz não é a simples ausência de guerra (...), mas é definida com toda a exatidão como fruto da justiça, algo a ser construído continuamente. A paz, em outras palavras, é uma tarefa”.
Para o arcebispo de Chicago, “oferecer a outra face significa recusar o papel atribuído pelo agressor; nega à violência o poder de definir a relação. Em vez de responder segundo a lógica do domínio e da humilhação, o discípulo se afasta completamente dela. Dessa forma, o ato se torna uma forma de liberdade: mostra a injustiça sem reproduzi-la e interrompe a cadeia de retaliações na origem. Portanto, trata-se de uma atitude radicalmente ativa e não passiva”.
Amar o inimigo
Quanto ao mandamento de amar o inimigo, o cardeal destaca que “não se trata de um sentimento, mas de uma prática que desarma a hostilidade, recusando-se a refleti-la. Cria um espaço inédito em que o outro não é mais tratado como um inimigo a ser derrotado, mas como uma pessoa a ser reencontrada”. O cardeal referiu-se então à “ludificação” da guerra:
Citando o falecido teólogo e cardeal jesuíta Avery Dulles, o cardeal Cupich disse: “o diálogo consiste em dar àquele que está diante de você a permissão para lhe dizer por que acha que você está errado. Essas habilidades e atitudes não são naturais; elas se formam ao longo do tempo, dia após dia, por meio do empenho e da disciplina”.
A teoria da guerra justa
Em seguida, uma reflexão sobre os limites da teoria da guerra justa: “quando ela se torna a lente principal através da qual observamos o conflito, corre-se o risco de restringir nossa imaginação ao que é permitido, em vez de ampliá-la para o que é exigido. E o que é exigido é mais desafiador”. Por fim, o Pontífice como pastor, não como estrategista: “o Papa Leão não se deixou envolver em discussões abstratas sobre o uso justificado da força. Em vez disso, ele defendeu uma cultura de paz, exortando os líderes a voltarem ao diálogo em vez da escalada, e baseando seu apelo não na teoria, mas no sofrimento humano, relembrando a história de uma criança que ele conhecera e que depois foi morta na guerra. Ele falou como pastor, não como estrategista. E o mesmo devemos fazer nós”.
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