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Amazônia: “onde o rio faz a curva e a fé encontra o chão”

Prelazia de Itaituba, no Pará: dom Wilmar Santini, bispo diocesano, e a coordenação dedicada de Frei Sebastião Robledo, que a Missão São Francisco do Rio Cururu realizou mais uma jornada de luz entre o povo Munduruku, em meio a Floresta Amazônica.

Vívian Marler - Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2*

No coração pulsante da "Querida Amazônia", como carinhosamente chamava o Papa Francisco, onde o verde da mata parece querer tocar o azul do céu e os rios desenham caminhos que desafiam a lógica humana, a vida se manifesta em sua forma mais pura e resiliente. Foi nesse cenário de beleza indomável e logística extremamente árdua, que a Prelazia de Itaituba, no Pará, sob a responsabilidade de Dom Wilmar Santini, bispo diocesano, e a coordenação dedicada de Frei Sebastião Robledo (o "Pain Sabá", como é chamado pelos filhos da floresta), que a Missão São Francisco do Rio Cururu realizou mais uma jornada de luz entre o povo Munduruku, em meio a Floresta Amazônica.

Povo Munduruku, em meio a Floresta Amazônica.
Povo Munduruku, em meio a Floresta Amazônica.

Foram doze dias de navegação e encontro. Doze dias em que o tempo não foi medido pelo relógio, mas pelo ritmo das correntezas e pela batida dos corações que esperavam o sacramento. Ao todo, dez comunidades abriram suas malocas e igrejas, Missão São Francisco, Missão Velha, Nova Paxiúba, Cajual, Pratakti, Wareri, Waro Apompo, Vista Alegre 1, Escondido e Santa Cruz.

Evangelizar em lugares remotos não é apenas um ato de fé; é um exercício de coragem e entrega. Para se ter uma ideia da vastidão, o acesso à Missão São Francisco, no Rio Cururu, exige escolhas drásticas, ou se enfrenta o "teco-teco" (avião de pequeno porte) em um voo de quase duas horas sobre o tapete verde da selva, ou se encara o barro da Transamazônica por 400 km até Jacareacanga, seguido por um dia inteiro subindo rios repletos de cachoeiras e pedras submersas.

Dom Wilmar
Dom Wilmar

Dom Wilmar Santin conhece bem essa geografia da alma. Em seus relatos, transparece a serenidade de quem sabe que não viaja sozinho. Mesmo quando a portinhola de ventilação do pequeno avião se abriu em pleno voo, deixando o vento invadir a cabine com violência, a paz não o abandonou. "Estava ao meu lado Aquele que sempre me acompanha", recorda o bispo, resumindo a confiança que sustenta a missão.

Ao caminhar pelas margens do Cururu, é impossível não remeter o pensamento ao "Descobrimento" do Brasil. Se em 1500 o primeiro contato foi marcado pelo espanto e pela cruz erguida em solo litorâneo, aqui, na profundidade da floresta, o encontro se renova com uma característica diferente, a da convivência fraterna. É a Igreja que se faz indígena com os indígenas.

Comunidade indígena
Comunidade indígena

Essa história de amor com os Munduruku tem raízes profundas. Em 1911, os primeiros franciscanos alemães levaram dois meses remando para chegar ali. Sem saber como atrair os indígenas que se escondiam na mata, Frei Hugo Mense usou a linguagem universal: a música. Começou a tocar flauta e a cantar. Atraídos pela melodia, os povos originários saíram da selva. Hoje, a música continua, mas nas vozes dos próprios Munduruku, que cantam e leem a Palavra em sua língua materna. "O acolhimento caloroso, a simplicidade sincera, a emoção dos indígenas ao receberem os pain e os sacramentos tocam profundamente a alma, fortalecem a fé e reacendem o desejo de retornar, servir e permanecer próximo"*, afirma Dom Wilmar.

Comunidade indígena
Comunidade indígena

A missão foi farta em frutos espirituais. Ao longo da jornada, 107 pessoas foram crismadas, 7 batizadas e 21 crianças e jovens receberam a Primeira Eucaristia. As celebrações foram um espetáculo de fé e cultura. Na Missão São Francisco, os crismandos apresentaram-se com corpos pintados, saias de sisal e adornos tradicionais, uma liturgia viva que une o barro da terra ao sopro do Espírito.

Na aldeia Nova Paxiúba, um letreiro de boas-vindas na língua local recebia os missionários para a festa de Nossa Senhora Aparecida. Mesmo onde não havia igreja física, a sala de aula se transformava em catedral. O sagrado ali não precisa de paredes de pedra; ele habita na partilha do café comunitário e na simplicidade da vida que se doa.

A fauna e a flora amazônicas não são apenas molduras, mas parte integrante da oração. O rio que às vezes se mostra perigoso com suas corredeiras é o mesmo que oferece o peixe para o almoço compartilhado entre 13 pessoas à mesa. A caridade se manifesta na logística organizada por Frei Sabá e na presença dos leigos e jovens postulantes que aprendem, no suor do rosto e no remo na mão, o que significa ser missionário.

Dom Wilmar
Dom Wilmar

Ao fim de cada dia, quando o sol se punha sobre o Cururu, o silêncio da floresta convidava à oração. Dom Wilmar recorda uma passagem de São Paulo que o acompanhou. "Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento". É com esse espírito de perdão e transparência que a Igreja na Amazônia sobrevive aos perigos naturais e humanos, limpando o coração de toda mágoa para que a Palavra de Deus possa fluir como o rio.

A missão termina com o gosto de quero mais. Para Dom Wilmar e seus companheiros, a jornada é uma confirmação "cada retorno a essa terra e a esse povo renova-me o sentido da missão e confirma, no coração, a certeza de que sempre vale a pena voltar".

Comunidade indígena
Comunidade indígena

Fica o convite ao leitor para que, ao olhar para o mapa do Brasil, enxergue além das fronteiras físicas. Que veja, no Rio Cururu, um povo que reza, que canta em sua língua ancestral e que, através do trabalho de bispos, padres e leigos, mantém viva a chama da esperança em um futuro onde a fé e a floresta caminham juntas, em eterna comunhão.

Dom Wilmar
Dom Wilmar   (Vivian Marler)

*Vívian Marler, participou da viagem a Missão São Francisco do Rio Cururu

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30 abril 2026, 14:35