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Vista da Paróquia Santa Generosa, em São Paulo, conhecida como “Lugar da Misericórdia” pelo intenso atendimento de confissões e pela diversidade de fiéis que frequentam a comunidade. Vista da Paróquia Santa Generosa, em São Paulo, conhecida como “Lugar da Misericórdia” pelo intenso atendimento de confissões e pela diversidade de fiéis que frequentam a comunidade. 

Do digital ao encontro com Deus: a missão da Igreja nas redes

Iniciativas em paróquias e santuários mostram como a evangelização online pode levar fiéis à experiência sacramental e comunitária.

Matheus Macedo - Cidade do Vaticano

O ambiente digital se tornou um novo campo de missão para a Igreja. Esta constatação aparece no Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que reconheceu a cultura digital como parte integrante da realidade contemporânea e um espaço privilegiado de evangelização.

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O texto, que agora integra o magistério ordinário do Papa, afirma que “a cultura digital constitui uma dimensão crucial do testemunho da Igreja na cultura contemporânea, bem como um campo missionário emergente” (DF, n. 149).

Papa Leão XIV durante Jubileu dos missionários digitais e dos influencers católicos
Papa Leão XIV durante Jubileu dos missionários digitais e dos influencers católicos   (@Vatican Media)

O Papa Leão XIV chegou a reforçar esse compromisso ao convidar os participantes do Jubileu dos Missionários Digitais e Influenciadores Católicos a renovarem o comprometimento de “alimentar as redes sociais e os ambientes digitais com a esperança cristã”. A reflexão surge em um contexto de profunda transformação cultural, em que o mundo físico e o digital se entrelaçam cada vez mais, especialmente entre os jovens. Para a Igreja, o desafio é anunciar o Evangelho nesse novo cenário sem perder de vista o encontro pessoal e a vida comunitária.

Evangelização que começa no digital e chega ao encontro presencial
 

A visão do Papa Francisco de uma Igreja “hospital de campanha”, que vai ao encontro das periferias humanas, também se manifesta na presença missionária nas redes sociais. Para muitos evangelizadores, o ambiente digital se tornou um espaço onde é possível acolher pessoas feridas, iniciar diálogos e abrir caminhos para experiências concretas de fé.

Padre Rodrigo de Castro Ferreira, reitor do Santuário Basílica Sagrada Família, em Goiânia, afirma que a presença da Igreja nas redes sociais pode conduzir as pessoas ao encontro concreto com Deus.
Padre Rodrigo de Castro Ferreira, reitor do Santuário Basílica Sagrada Família, em Goiânia, afirma que a presença da Igreja nas redes sociais pode conduzir as pessoas ao encontro concreto com Deus.

Segundo o reitor do Santuário Basílica Sagrada Família, em Goiânia, padre Rodrigo de Castro Ferreira, o trabalho de comunicação digital da igreja local começou há quase 25 anos. “Nosso santuário já faz comunicação digital há quase 25 anos. Começou ainda no tempo do padre Luiz Augusto e continuou com os outros reitores. Hoje utilizamos plataformas como YouTube, Facebook e Instagram. Acreditamos nesse poder da evangelização, porque sabemos do grande alcance que essas ferramentas têm na vida das pessoas”, afirmou.

De acordo com o sacerdote, os conteúdos publicados nas redes funcionam como uma vitrine das atividades do santuário e ajudam a aproximar as pessoas da vida da Igreja. “É como um grande painel de avisos e também de atividades. As pessoas acompanham o que acontece no santuário e acabam se aproximando, primeiro de forma digital e depois presencialmente”, explicou.

Linguagem criativa para alcançar o público
 

Além da divulgação de atividades e celebrações, iniciativas criativas também têm gerado grande repercussão nas redes. Uma das ações mais recentes do santuário, segundo o padre Rodrigo, viralizou nas plataformas digitais ao propor uma experiência inesperada para quem passava por um terminal de ônibus.

“Fizemos uma ação durante a Semana Santa em que uma pessoa caracterizada como Jesus estava sentada em uma cadeira no terminal. As pessoas eram convidadas a fazer a experiência de encontrar Cristo frente a frente, em silêncio. Foi uma experiência muito forte”, relatou. Para o sacerdote, esse tipo de iniciativa mostra como a linguagem digital pode ser usada para despertar interesse e levar as pessoas a uma experiência mais profunda de fé.

Redes sociais como porta de entrada para a Igreja
 

A pandemia também acelerou a presença da Igreja no ambiente digital. Foi nesse período que muitas paróquias começaram a investir mais intensamente nas redes sociais. O pároco da Paróquia Santa Generosa, em São Paulo, padre Cássio Carvalho, explica que o trabalho começou a partir da necessidade de transmitir as missas durante o isolamento social.

O pároco da Paróquia Santa Generosa, padre Cássio Carvalho, destaca o uso das redes sociais como instrumento de evangelização e aproximação dos fiéis com a vida sacramental.
O pároco da Paróquia Santa Generosa, padre Cássio Carvalho, destaca o uso das redes sociais como instrumento de evangelização e aproximação dos fiéis com a vida sacramental.

“Todo trabalho de evangelização nas redes começou pós-pandemia. Precisávamos transmitir as missas e percebemos que, se não estivéssemos nas redes sociais, não seríamos escutados”, contou. Segundo ele, a presença digital acabou se tornando um importante meio de aproximação com os fiéis. “Funcionou muito. Mesmo depois da pandemia, as pessoas que nos encontravam nas redes sociais começaram a aparecer na igreja”, disse.

Para alcançar especialmente os jovens, a paróquia passou a investir em conteúdos com linguagem leve e próxima da cultura digital. “Nós utilizamos trends virais e linguagens que chamam a atenção. É uma forma de iniciar uma relação. A pessoa entra por causa de um vídeo e começa a cultivar uma amizade com a gente”, explicou. Entre os conteúdos publicados estão vídeos que apresentam de forma criativa o atendimento de confissões ou ações pastorais.

“Já fizemos vídeos em que alguém ligava pedindo confissão e eu aparecia indo de patinete para atender. É uma linguagem lúdica que comunica que estamos sempre disponíveis para acolher as pessoas”, contou o padre.

Frutos na vida sacramental
 

Segundo o sacerdote, um dos frutos mais visíveis da evangelização digital tem sido o aumento na procura pelo sacramento da reconciliação. “Muitas pessoas perderam o medo de se confessar. Algumas estavam há 30 ou 40 anos sem se confessar e agora vêm à igreja por causa das redes sociais”, afirmou.

Além disso, iniciativas presenciais promovidas pela paróquia, como adoração ao Santíssimo, procissões e outras manifestações públicas de fé, também têm grande repercussão online. “Quando fazemos procissões ou ações missionárias, as pessoas gravam, compartilham nas redes e a repercussão é impressionante. A Igreja se torna visível no mundo”, disse.

Desafios e riscos do ambiente digital
 

Apesar das oportunidades, a presença da Igreja nas redes também enfrenta desafios. Entre eles está a necessidade de compreender as diferentes linguagens e públicos que compõem o universo digital. “No digital existem muitos públicos. Não dá para falar com todos da mesma maneira. Por isso fazemos conteúdos direcionados para jovens, adultos e idosos”, explicou o padre Cássio.

Outro desafio é a formação das equipes que atuam na comunicação. “Hoje todo mundo sabe fazer um vídeo, mas isso não basta. É preciso ter espiritualidade e transmitir a presença de Deus. Senão o conteúdo não comunica nada”, afirmou.

Santuário Basílica Sagrada Família, em Goiânia, que desenvolve há décadas iniciativas de comunicação e evangelização também no ambiente digital.
Santuário Basílica Sagrada Família, em Goiânia, que desenvolve há décadas iniciativas de comunicação e evangelização também no ambiente digital.

O padre Rodrigo também aponta os riscos da dinâmica própria das redes sociais. “Já tivemos algumas postagens que tiveram efeito contrário ao esperado. Sabemos que existe também a chamada cultura do cancelamento, que pode atingir qualquer iniciativa”, disse.

Do digital ao encontro real
 

Apesar da crescente presença online, os sacerdotes ressaltam que o objetivo da evangelização digital não é substituir a experiência presencial da fé. “O digital ajuda as pessoas a fazer uma experiência de Deus, mas precisamos evitar que elas fiquem apenas nisso. O objetivo é sempre conduzir para o encontro real”, afirmou o padre Rodrigo.

Na mesma linha, o padre Cássio destaca que os conteúdos nas redes devem levar as pessoas a uma participação mais profunda na vida da Igreja. “Nosso intuito é informar, formar e convidar as pessoas para a vida comunitária. A fé cristã passa pelo relacionamento concreto entre as pessoas. O cristianismo é carnal, precisa do encontro”, concluiu.

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10 março 2026, 13:57