Assassinato de Khamenei provoca protestos com mortes no Paquistão
As repercussões dos ataques aéreos em que Israel e os Estados Unidos mataram o líder supremo iraniano Ali Khamenei e dezenas de outros altos funcionários de Teerã na manhã de 28 de fevereiro não se limitam ao Oriente Médio e à região do Golfo. Outra área onde as tensões estão muito altas atualmente é o Sul da Ásia, já abalada por graves conflitos internos — o mais recente dos quais eclodiu na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão apenas 24 horas antes dos ataques aéreos em Teerã — e que agora se vê às voltas com a questão extremamente sensível das relações com as minorias xiitas, que representam uma parcela significativa da população, especialmente no Paquistão e na Índia. Esses dois países têm laços historicamente importantes com o mundo iraniano, mas também relações muito próximas com Washington e (no caso da Índia de Narendra Modi) com Israel.
A situação mais tensa é no Paquistão, onde vivem dezenas de milhões de xiitas (a segunda maior população depois do Irã). Na segunda-feira, ocorreram inúmeras mortes em Karachi, quando as forças de segurança responderam a uma tentativa de ataque ao consulado dos EUA. Os manifestantes tentaram romper o cordão de segurança e a polícia respondeu com força. O número oficial de mortos é de dez e pelo menos 73 feridos, alguns em estado crítico; no entanto, números muito maiores estão circulando on-line. O governo de Sindh impôs agora uma proibição de um mês a protestos, marchas e reuniões, de acordo com o Artigo 144 do Código Penal, e anunciou a criação de uma comissão de inquérito para determinar os culpados e as circunstâncias dos distúrbios.
Confrontos violentos também eclodiram em Islamabad, perto da área da embaixada, onde pelo menos dois manifestantes morreram e mais de 30 pessoas, incluindo policiais, ficaram feridas. As forças de segurança bloquearam as principais vias de acesso e dispersaram a multidão com gás lacrimogêneo, depois que as autoridades já haviam proibido todas as reuniões na capital federal.
Em Lahore, onde centenas de ativistas se reuniram em frente ao Consulado dos EUA, a polícia dispersou a multidão e o governo de Punjab impôs uma proibição temporária a reuniões públicas e ao porte de armas. Em Gilgit-Baltistão, a situação se agravou ainda mais: um toque de recolher foi imposto em Skardu depois que manifestantes incendiaram prédios, incluindo escritórios da ONU. O exército foi mobilizado para restabelecer a ordem, enquanto várias estradas e estabelecimentos comerciais permaneceram fechados. Em outras áreas, como Dera Ismail Khan e outras cidades em Khyber Pakhtunkhwa, ocorreram manifestações em grande parte pacíficas em solidariedade ao Irã.
Nesse contexto, falando hoje ao Parlamento federal, o presidente Asif Ali Zardari alertou que o Paquistão não "permitirá que nenhuma entidade, nacional ou estrangeira, use o território de um país vizinho para desestabilizar nossa paz". A mensagem foi dirigida principalmente ao Talibã afegão, que Islamabad acusa de apoiar o "terrorismo" de seus homólogos paquistaneses em conluio com a inteligência indiana. Mas também destaca a preocupação das autoridades com as manifestações xiitas.
Esses protestos também afetam a Índia, onde os xiitas representam aproximadamente 20% dos 180 milhões de muçulmanos. Em Lucknow, capital de Uttar Pradesh e importante centro da comunidade xiita, líderes religiosos anunciaram três dias de luto pelo que chamaram de "martírio" de Khamenei. O clérigo Maulana Kalbe Jawad convocou toda a comunidade muçulmana e organizações humanitárias a fecharem lojas e empresas em protesto. Uma reunião de condolências foi organizada no Chota Imambara, seguida de uma vigília à luz de velas, enquanto o secretário-geral do Conselho de Direito Pessoal Xiita, Maulana Yasoob Abbas, anunciou um "forte protesto" contra os Estados Unidos e Israel.
Protestos em massa também ocorreram no Vale da Caxemira, onde grandes multidões de xiitas, incluindo mulheres e crianças, foram às ruas entoando slogans contra Washington e Tel Aviv. Em Srinagar, manifestantes se reuniram no centro da cidade, em Lal Chowk, enquanto as autoridades mobilizaram um grande contingente policial para evitar distúrbios. O líder separatista Mirwaiz Umar Farooq condenou os ataques e convocou uma greve geral na região, expressando solidariedade ao povo iraniano.
Manifestações e iniciativas de luto também foram realizados no Estado de Karnataka, particularmente em Alipur, uma cidade no distrito de Chikkaballapur, onde os xiitas representam 99% da população. O próprio Khamenei visitou a cidade em 1986 para inaugurar um hospital construído com o apoio do governo iraniano. Toda a comunidade de Alipur participou dos protestos, e as lojas permanecerão fechadas por três dias. Um protesto silencioso também foi planejado em uma mesquita em Bengaluru: apesar da indignação, líderes comunitários reiteraram que todas as iniciativas serão conduzidas pacificamente e em conformidade com a lei.
*Com AsiaNews
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