Sentir não é consentir: como identificar e vencer a tentação
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News
Ao refletir sobre a vida espiritual, constato que muitas pessoas confundem provação com tentação, imaginando, por vezes, que a primeira é não somente permitida por Deus, mas até querida por Ele. Para trazer clareza e oferecer vias para o combate espiritual, convém esclarecer alguns pontos fundamentais.
Na Bíblia, a palavra grega peirasmos possui um sentido ambivalente: pode significar tanto provação quanto tentação. A provação serve para edificar a fé; é o crisol onde o cristão, diante das dificuldades, se santifica e amadurece. Já a tentação tem um objetivo oposto: a queda. Neste artigo, vamos nos ater mais a esta.
A tentação pode brotar de duas fontes: da nossa própria concupiscência ou da ação do inimigo.
- A concupiscência (Fomes Peccati): Refere-se às nossas debilidades inerentes. Os antigos chamavam isso de fomes peccati, o combustível do pecado. Mesmo sendo batizados e, por isso, santificados pelo Espírito Santo, continua em nosso coração uma disposição ao mal. É como uma lareira: o batismo apaga o incêndio do pecado original, mas as brasas e a madeira seca continuam lá. Qualquer faísca externa pode reacender o fogo, pois o combustível permanece. Como bem descreveu São Paulo: "(...) não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7, 19).
- A ação do Inimigo: Desde o Gênesis, percebemos o Maligno tentando induzir o ser humano ao erro. Ele não apresenta a tentação de forma terrível; prefere o que é suave e belo, a ponto de a pessoa simplesmente querer algo vivamente, pois foi persuadida de que aquilo realmente era bom. Contudo, cuidado: não devemos "demonizar" tudo. Muitas tentações são consequências de uma vida na carne desordenada, e não uma ação direta do demônio.
A tentação funciona como uma sedução. Costumo usar uma metáfora com meus dirigidos: imagine que você entrou em uma antessala que dá para um salão principal proibido. Na antessala, você já sente o perfume e seus olhos são atraídos pelo que está lá dentro. Você ainda não entrou no pecado, mas sua vontade começa a ser inclinada a atravessar a porta. Como vencer? Vejamos: há algo mais eficaz que a oração; ao seguir por este caminho, ter-se-á uma resposta mais breve de superação. E o que seria? A fuga.
Muitos tentam se pôr em oração no exato momento em que o desejo ferve, querendo "discutir" com a tentação para vencê-la. Frequentemente, fracassam! Se você percebe que está na antessala, corra de lá! A fuga é a primeira iniciativa de quem é prudente.
Segundo Evágrio Pôntico, conhecido Padre do Deserto do séc. IV: "Não está em nosso poder que os pensamentos nos perturbem ou não; mas está em nosso poder que eles se demorem ou não". Ou, como dizia um antigo confessor meu, Mons. João Leite: "O pecado não está em sentir, mas em consentir". A tentação é uma ebulição de sentimentos que tenta desestruturar a alma, mas o avanço para a ação concreta pode ser interrompido se não dermos hospedagem ao pensamento.
Nosso maior modelo é Jesus. No deserto, com visto em Mt 4, 1-11, Ele foi por três vezes tentado. Diante do que lhe foi oferecido, a quaresma de Jesus teve um fim grandioso: Ele venceu. Outras vezes o Diabo o tentou, mas Ele sempre o manteve em seu lugar.
Que possamos, ao identificar a origem de nossas lutas, nos munir das armas da vigilância e da ascese. Identificar o inimigo e conhecer nossa própria 'madeira seca' já são passos fundamentais para a vitória. Unindo a fuga à oração, teremos a firme esperança de vencer as ciladas do mal e perseverar no caminho da santidade.
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