O silêncio e a oração fazem parte da rotina diária da vida monástica. O silêncio e a oração fazem parte da rotina diária da vida monástica.  (ANSA)

O silêncio como vocação: o testemunho de monges e carmelitas em um mundo marcado pelo ruído

Na contramão de uma sociedade hiperconectada, religiosos mostram como o silêncio se torna caminho de escuta, liberdade interior e encontro com Deus, especialmente no tempo da Quaresma

Matheus Macedo - Vatican News

O Papa Leão XIV recorda, nesta Quaresma, a importância de cultivar a escuta e moderar as palavras, destacando que “a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. O convite do Pontífice toca uma dimensão cada vez mais desafiadora na vida contemporânea: o silêncio.

Em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, notificações constantes e hiperconectividade, permanecer em silêncio tornou-se incomum. No entanto, para comunidades religiosas como os carmelitas e os cistercienses, o silêncio não é apenas uma prática ocasional, mas um verdadeiro estilo de vida: um caminho cotidiano de encontro com Deus e de amadurecimento interior.

O silêncio como caminho de união com Deus no Carmelo


Na espiritualidade carmelitana, o silêncio é parte essencial da vocação. Mais do que ausência de sons, ele é compreendido como uma atitude interior que permite viver continuamente na presença de Deus.

“O silêncio e a oração na vida dos carmelitas não são apenas a ausência de barulho, mas um estilo de vida e um caminho interior de união com Deus”, explica Frei Emerson, da Ordem dos Carmelitas Descalços. Inspirados por santos como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, os carmelitas buscam cultivar uma vida interior profunda, onde a escuta se torna fundamental.

Essa vivência nasce da oração e da contemplação, que formam o núcleo da espiritualidade do Carmelo. Frei Higor Fernandes de Oliveira, O.Carm, explica que a própria identidade carmelitana está ligada a esse movimento interior: “Somos chamados a subir ao monte da oração, contemplar Jesus e depois descer para testemunhar no mundo aquilo que vimos e ouvimos na intimidade com Ele”.

Em silêncio e recolhimento, Frei Higor testemunha um dos pilares da espiritualidade carmelitana: a escuta interior e a contemplação. (Foto: arquivo pessoal(.
Em silêncio e recolhimento, Frei Higor testemunha um dos pilares da espiritualidade carmelitana: a escuta interior e a contemplação. (Foto: arquivo pessoal(.

Segundo o religioso, o silêncio carmelitano é antes de tudo interior. “Trata-se de fazer silenciar o barulho dentro de nós, para que a realidade possa aparecer como ela é, e para que possamos escutar a voz de Deus”, afirma.

Essa experiência, no entanto, contrasta com o ritmo da sociedade atual. Frei Emerson observa que o excesso de ruído e a necessidade constante de conexão dificultam esse encontro interior. “Se não estou conectado, parece que não existo. Por medo, muitas vezes fugimos da nossa própria interioridade”, diz. Como consequência, surgem ansiedade, vazio e dificuldade de experimentar a presença de Deus.

O silêncio vivido no coração da vida monástica cisterciense


Entre os monges cistercienses, o silêncio também ocupa um lugar central, estruturando a própria rotina do mosteiro.

Na Abadia da Santa Cruz, em Itaporanga (SP), os monges organizam o dia em torno de momentos de oração comunitária, oração pessoal, trabalho e estudo, sempre permeados pelo silêncio. Essa prática encontra suas raízes na Regra de São Bento, que orienta a vida monástica há séculos.

“O silêncio é uma dimensão essencial da nossa vida, pois nos ajuda a dar sentido à oração e àquilo que vivemos. Ele é uma oferta de amor a Deus e aos irmãos”, explica Ir Elredo, monge cisterciense.

Monges da Ordem Cisterciense vivem o silêncio como parte essencial da rotina de oração, trabalho e vida comunitária.
Monges da Ordem Cisterciense vivem o silêncio como parte essencial da rotina de oração, trabalho e vida comunitária.

Nesse contexto, o silêncio não é isolamento, mas uma forma de comunhão. Ao silenciar, o monge se torna mais disponível à escuta de Deus e mais atento à realidade.

“O silêncio permite que acessemos aquilo que é essencial, a voz de Deus que nos chama no hoje da nossa vida”, afirma.

Um testemunho contracultural em meio ao ruído do mundo


A escolha pelo silêncio nas tradições monásticas revela um contraste com a realidade contemporânea, marcada pelo excesso de palavras e pela dificuldade de escutar.

Frei Higor, O. Carm, observa que o barulho exterior reflete um coração inquieto. “Muitas pessoas deixam-se hipnotizar pelo ruído do mundo e pela busca de uma felicidade superficial. Isso impede o encontro consigo mesmas, com o outro e com Deus”, afirma.

Ir Elredo também aponta para uma crise mais profunda. “Vivemos em uma sociedade em que as pessoas estão cada vez mais voltadas para si mesmas. O silêncio e a escuta se tornam desafiadores porque nos obrigam a enfrentar quem realmente somos.”

Essa reflexão ecoa o ensinamento do Papa Bento XVI, que destacou a importância do silêncio como parte essencial da comunicação: “O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos melhor e compreendemos com maior clareza.”

A Quaresma como um convite a redescobrir o silêncio


Neste contexto, a Quaresma surge como um tempo privilegiado para redescobrir o valor do silêncio e da escuta.

Frei Emerson, OCD, descreve esse período como uma oportunidade concreta de recolhimento: “A Quaresma pode ser vivida como um grande retiro, um tempo de conversão e de escuta de Deus no silêncio.”

Também para os monges cistercienses, esse tempo tem um significado especial. “A Quaresma nos convida a reencontrar o Deus que nos chama à comunhão. O silêncio nos ajuda a corresponder a esse chamado com um coração aberto”, explica Ir Elredo.

Mais do que uma prática reservada aos mosteiros, o silêncio pode ser cultivado na vida cotidiana. “Mesmo em meio ao trânsito ou às atividades diárias, é possível viver o silêncio interior quando o coração está em paz”, afirma o monge.

Frei Emerson, OCD, sugere passos concretos: reservar momentos de silêncio, reduzir o uso de redes sociais, cultivar a oração e aprender a escutar antes de falar.

O silêncio que abre espaço para Deus e para o outro


O testemunho das comunidades carmelitas e cistercienses revela que o silêncio não é vazio, mas um espaço de encontro. É nele que o ser humano reencontra a si mesmo, redescobre o outro e se abre à presença de Deus.

Bento XVI sintetiza essa realidade: “Temos necessidade daquele silêncio que se torna contemplação e nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora.”

Neste tempo de Quaresma, o convite da Igreja é também um convite à escuta. Em meio ao ruído do mundo, o silêncio permanece como um caminho possível — e necessário — para redescobrir aquilo que é essencial.

 

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19 fevereiro 2026, 10:52