A Escola do deserto: vigilância, combate e a arte de vencer as tentações
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News
Santo Agostinho afirmou que “a concupiscência é um mal se você consente nela; é um exercício se você a combate”. Realmente, o santo de Hipona tinha razão, pois, por vezes, o cristão se deixa levar pelas suas paixões interiores e perde uma grande oportunidade de tornar-se mais forte com elas.
Para mostrar um caminho de conhecimento com o intuito de lidar com as tentações, proponho olharmos para a sabedoria dos Padres do Deserto. Estes procuraram se recolher nos lugares mais isolados nos primeiros séculos do cristianismo para viverem o “martírio branco”, ou seja, morrer para si por causa de Cristo.
Dentre esses, vejamos o que a tradição deixou dos ensinamentos de Evágrio Pôntico. Este monge do deserto nasceu por volta do ano 345 em Ibora, na província do Ponto, na Ásia Menor. Ele falava acerca da "Vigilância do Coração" (Népsis). Qual o sentido? Estar sempre atento para não se deixar conduzir pelas emoções. Vejamos seus pontos principais.
A natureza dos pensamentos (Logismoi)
Evágrio, no seu tratado "Sobre os Pensamentos" (Peri Logismon / De Malignis Cogitationibus), ensina que os demônios não podem acessar diretamente nossa essência ou nossa vontade, pois eles são exteriores ao nosso intelecto (nous). Assim sendo, não possuem a chave do nosso sacrário, do nosso interior, pois esta só pertence a Deus. Contudo, eles podem lançar imagens e sugestões na nossa imaginação.
Como os demônios atuam? Eles precisam "pescar" o que está dentro de nós. Observam nossas reações corporais, nossas palavras e nossos gestos para deduzir o que estamos sentindo e fornecer situações para isso. O que acontece? Aí entra a fomes peccati. A concupiscência faz com que o ser humano se volte para aquilo e, então, a tentação ganha força a ponto de o pecado ser cometido.
Os demônios não podem ler nossos pensamentos, mas podem agir para influenciá-los. Assim sendo, o logismos é como uma semente lançada ao solo; o pecado consiste em cultivá-la. Imagine-se em um espaço público, como a praça de alimentação de um shopping center. A nossa mente é como este lugar onde muitos passam, mas só se senta à nossa mesa para fazer a refeição conosco quem nós escolhemos.
Do pensamento ao pecado: a queda
O cristão, ao cultivar a semente de forma que o pensamento evolua para o pecado em si, passa por um processo. Evágrio detalhou essas etapas:
- Sugestão (Prosbolé): O simples pensamento ou imagem que surge, como, por exemplo, uma ofensa lembrada. Isto é neutro.
- Interação (Syndyasmos): Você começa a dialogar com o pensamento: "Ele realmente me tratou mal... eu não merecia isso". Aqui começa o perigo, pois a pessoa passa a cultivar o pensamento negativo.
- Luta (Palé): A alma tenta recusar, mas o pensamento já ganhou força. Os mais coléricos se deleitam nesta parte.
- Consentimento (Sygkatathesis): A vontade decide agir de acordo com o pensamento. Nasce, então, o pecado.
Os oito espíritos da maldade
Antes dos "Sete Pecados Capitais" de São Gregório Magno, no século VI, Evágrio sistematizou os Oito Logismoi que perturbam o monge e, hoje poderíamos dizer, todo cristão. São eles: gula, luxúria, avareza (ganância), tristeza, ira, acídia (preguiça espiritual), vaidade e orgulho.
O santo monge percebeu que esses pensamentos estão interconectados. A gula pode levar à luxúria; a vaidade é a porta para o orgulho. Isso significa que a tentação é como um "ecossistema" que precisa ser tratado em conjunto.
A Cura: Antirrhésis (contradição)
Ao ler este artigo, o leitor pode ficar pensando somente no que é negativo, talvez até olhe para essa realidade com desesperança. Contudo, a boa notícia é que é possível combater esses pensamentos e não se deixar dominar por eles. Ainda nos passos de Evágrio, vejamos o que ele disse no tratado chamado Antirrhétikos.
A técnica consiste em responder ao pensamento tentador com uma frase curta das Sagradas Escrituras, exatamente o que Jesus fez no deserto. Servem como jaculatórias breves que, repetidas inúmeras vezes, afugentam o mau pensamento. Se o pensamento é de desespero, responde-se com um salmo de confiança. Se é de ira, com um versículo sobre o perdão.
A obra Antirrhétikos é como um manual de combate, onde para cada tentação, foi-se designado um versículo. Ele chegou a listar 498 passagens das Sagradas Escrituras destinadas a serem proferidas contra os demônios. Lembremos que Jesus não dialogou com o Diabo no deserto, buscando argumentar, mas ele disse palavras bíblicas: ¨Está escrito...¨. Evágriou viu nisso o caminho para resistir ao mal.
Por fim, termino com esta frase de Evágrio Pôntico, de sua obra Tratado Prático (cap. 6): "Não está em nosso poder que os pensamentos nos perturbem ou não; mas está em nosso poder que eles se demorem ou não, e que despertem ou não as paixões".
Deus nos ajude a resistirmos e seguirmos firmes no caminho da santidade!
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