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Shevchuk nos 4 anos trágicos da guerra na Ucrânia: vergonha para a humanidade

O líder da Igreja Greco-católica Ucraniana, em entrevista à mídia do Vaticano, reflete sobre os anos que se passaram desde a invasão russa em 2022: uma tragédia que se agrava cada vez mais e que vê aumentar o número de civis mortos. Mas não há resignação e a população resiste, grata pela solidariedade internacional.

Svitlana Dukhovych – Vatican News

É um aniversário “trágico” e uma “vergonha para a humanidade” os 4 anos desde o início da invasão militar russa em grande escala à Ucrânia. Com os meios de comunicação do Vaticano, o arcebispo-mor de Kiev-Halyč e líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Sviatoslav Shevchuk, faz o balanço de uma guerra “que nunca deveria ter começado”.

Sua Beatitude, já se passaram quatro anos desde o início da guerra em grande escala na Ucrânia. O que gostaria de dizer nesta ocasião? 

Eu diria que este é um aniversário trágico. Ninguém jamais imaginaria uma guerra na Europa com duração de quatro anos. E quando falamos de quatro anos, nos referimos apenas à invasão russa em grande escala. Na verdade, a guerra começou em 2014 com a ocupação da Crimeia e de parte do Donbass oriental. Estamos diante de uma verdadeira tragédia que, nos últimos meses, está se agravando ainda mais. O número de civis mortos e feridos continua aumentando. Posso dizer que nem mesmo no início da invasão, em 2022, a situação era tão dramática como hoje, especialmente durante este inverno, particularmente na capital ucraniana.

Como estão vivendo as pessoas que, por exemplo, moram perto da sua catedral em Kiev? Como a Igreja ajuda a enfrentar esses desafios?

Em Kiev, está se vivendo uma verdadeira tragédia, que alguns chamam hoje de “Kholodomor”, do termo ucraniano kholod, que significa “frio”. Todos conhecemos a palavra “Holodomor”, o genocídio através da fome artificial; agora, porém, enfrentamos outra forma de genocídio, ligada ao frio do inverno. Este inverno é o mais rigoroso da última década: a temperatura em Kiev caiu para 20 graus abaixo de zero. Os russos estão destruindo metodicamente as infraestruturas vitais das cidades ucranianas, em particular da capital. Kiev, uma das maiores capitais europeias, tem quase quatro milhões de habitantes. O sistema de aquecimento e eletricidade é centralizado: cada bairro tem sua própria central que garante eletricidade e água quente aos edifícios. No nosso bairro não há gás: cozinha-se com eletricidade, que também é necessária para bombear água potável para os edifícios de nove ou vinte andares. Neste inverno, muitas centrais, construídas na era soviética e cujos projetos eram, portanto, conhecidos pelos russos, foram destruídas.

“Quando a temperatura desceu abaixo dos 20 graus, deixou de ser possível fornecer eletricidade e água quente; os canos congelaram e se romperam, e os sistemas sanitários também foram gravemente danificados. Imagine um prédio com três mil pessoas: nos apartamentos tudo congela, a temperatura interna é apenas alguns graus acima da externa, os banheiros estão inutilizáveis. Muitos ficam presos em suas casas e não sabem para onde ir.”

Como reagimos? Em frente aos grandes edifícios foram montados os chamados Centros de Resiliência: tendas aquecidas com geradores, onde as pessoas podem recarregar seus dispositivos, beber um chá quente, ficar juntas e se aquecer. Algumas passam a noite lá. Escolas e creches também foram adaptadas para oferecer acolhimento. Na nossa catedral, abrimos um Centro de Resiliência no abrigo semi-subterrâneo. Nosso gerador funciona quase 20 horas por dia, porque recebemos eletricidade da rede da cidade apenas por duas ou três horas. Muitas pessoas dormem lá e, na verdade, vivem lá: temos que providenciar tudo, porque elas não podem voltar para suas casas. O prefeito de Kiev convidou quem puder a deixar temporariamente a cidade; estima-se que quase meio milhão de pessoas tenham partido. No entanto, muitos permanecem porque trabalham ou não têm alternativas. Escolas, universidades, supermercados, hospitais e farmácias estão abertos, mas o grande problema continua sendo o funcionamento das infraestruturas vitais. E essa destruição metódica continua: drones sobrevoam a cidade, localizam as centrais ainda em funcionamento e, em seguida, com mísseis e ataques direcionados, elas são atingidas. Esta, em resumo, é a situação que estamos vivendo.

Desde o início da guerra em grande escala, a Igreja na Ucrânia sempre esteve ao lado do povo. Ao longo destes quatro anos, podem-se distinguir várias fases deste compromisso. Como descreveria a fase atual, caracterizada pelo cansaço da população? De que forma a Igreja continua hoje a apoiar e a acompanhar as pessoas?

Somos todos o mesmo povo e sofremos juntos. Sou cidadão de Kiev e o frio não pergunta: “Você é padre ou bispo?” ou “A que Igreja você pertence? Como você reza a Deus?” Diante desta tragédia, somos todos iguais, tentamos permanecer unidos, ajudar-nos uns aos outros e também encontrar um sentido cristão: como viver como cristãos nestas condições. Há algumas particularidades neste momento. Quando o governo ordena evacuações forçadas das zonas de combate, as pessoas preferem se deslocar para as grandes cidades mais próximas, como Kharkiv, Chernihiv ou Sumy. É claro que um dos objetivos dos bombardeios é justamente desanimar a população, forçá-la a abandonar suas casas. Alguns analistas afirmam que se quer criar uma zona tampão sem civis, para facilitar as manobras militares. Mas as pessoas permanecem, não partem, e nós tentamos fazer chegar a ajuda onde também há crianças e idosos. Talvez o inimigo esperasse que os ucranianos fugissem, mas não é assim. Outra observação de Kiev é que não se sente um cansaço que leve ao desespero ou à resignação: pelo contrário, com estes contínuos ataques com mísseis, a vontade de resistir cresce. Não sei explicar esse fenômeno, mas posso contar um episódio que aconteceu na minha catedral.

“Uma criança de 5 anos, que sempre frequenta a liturgia, me respondeu assim quando perguntei se estava frio em sua casa: 'se eu vencer o frio, a Ucrânia também vencerá'. Dava para ver que em sua casa fazia frio, porque ele estava vestido com roupas pesadas, mas, apesar de tudo, ele se sentia um herói. Para mim, essa é a voz não apenas daquela família, mas de todo o povo.”

Nos Centros de Resiliência, as pessoas sorriem, cantam; nos pátios e em frente aos prédios congelados, elas colocam música e dançam. É algo que nos surpreende também. Mas, obviamente, a dor aumenta, com tantos mortos e feridos. De acordo com a Missão da ONU para os Direitos Humanos na Ucrânia, 2025 foi o ano mais letal para os civis desde o início da invasão. O número de civis mortos e feridos aumentou 31% em relação a 2024 e 70% em relação a 2023. Quanto mais se fala de acordos de paz, mais sangue corre na terra ucraniana. Enquanto os poderosos do mundo se reúnem para discutir sobre quem exercer mais pressão, o povo sofre. Esta é a situação que devemos enfrentar e acompanhar. Devo também dizer que diminui o medo das pessoas durante os bombardeamentos: habituamo-nos, e isso é perigoso, porque às vezes perdemos a sensibilidade para com a dor dos outros. Por isso, a Igreja deve sempre cultivar o sentido religioso de respeito pelo sofrimento humano, porque sabemos que em cada dor está presente o sofrimento do próprio Cristo.

Provavelmente, os padres e religiosos continuam sentindo uma profunda empatia, também porque viveram lutos nas suas próprias famílias.

É claro que não há nenhuma família na Ucrânia que não tenha vivido a dor ou o luto pela perda de um irmão, uma irmã, um pai ou um filho, mortos ou feridos. A partir do Sínodo dos Bispos, iniciamos um programa de acompanhamento para nossos padres e pessoas consagradas. Distribuímos um questionário para entender como eles estão. Interessante: a grande maioria diz que não quer tirar férias ou descansar. Inicialmente, pensei: “Que bons!” Mas os psicoterapeutas explicaram-nos que isso é um sinal de trauma: psicologicamente, não conseguem afastar-se da paróquia ou da comunidade porque temem que, durante a sua ausência, algo grave possa acontecer nas suas casas ou igrejas. Também para mim é difícil sair da Ucrânia: recebo constantemente notícias sobre os últimos acontecimentos em Kiev. Um psicoterapeuta me disse: “quando bombardeiam Kiev, você sofre mesmo estando em Roma? Isso é um sinal de trauma”. Por isso, acompanhamos nossos padres através de um programa de “cura das feridas”: quem viveu e superou o próprio sofrimento torna-se um “médico ferido”, capaz de compreender quem sofre e guiá-lo para a cura, também psicológica e mental. A saúde mental e espiritual está no centro do nosso compromisso. Estamos adquirindo uma experiência nunca antes vivida, que poderá se tornar um tesouro para outras Igrejas, que não viveram uma tragédia semelhante, para ajudar as pessoas a se aproximarem de Deus, de Cristo, fonte de salvação e saúde, não só espiritual, mas também mental e física.

Nos últimos quatro anos, a Igreja na Ucrânia pôde experimentar de várias maneiras a solidariedade da Igreja universal. O senhor poderia nos contar algum exemplo particular dessa proximidade?

Nestes quatro anos, recebemos muita solidariedade de toda a Igreja universal, promovida sobretudo pelo Santo Padre – primeiro pelo Papa Francisco, de feliz memória, e agora pelo Papa Leão. Estamos verdadeiramente gratos ao Santo Padre e a todos os irmãos e irmãs em Cristo, a todas as pessoas de boa vontade que expressaram sua proximidade. Essa solidariedade teve altos e baixos. Lembro-me dos primeiros dias da guerra, quando a ajuda humanitária chegava em grande quantidade de vários países da Europa e do mundo. No ano passado, porém, em 2025, a ajuda quase desapareceu. Obter aprovações para projetos destinados àqueles que não tinham meios para sobreviver era cada vez mais difícil. No início de 2025, estimava-se que cerca de cinco milhões de pessoas na Ucrânia estivessem em situação de insegurança alimentar, mas apenas 2,5 milhões podiam receber assistência. Neste inverno, trágico pelo frio e pelas dificuldades, as imagens de pessoas que sofrem, mas tentam resistir, reacenderam a solidariedade internacional, lembrando fevereiro-março de 2022. Gostaria de contar um episódio em particular. Após cada bombardeio em Kiev, costumo compartilhar atualizações com amigos. Enviei a cerca de dez pessoas uma imagem das consequências de um ataque com um pequeno comentário: “sobrevivemos a mais uma noite infernal em Kiev. Temperatura de 20 graus abaixo de zero. A luta pela vida, humanidade e solidariedade continua”. Entre os destinatários estava o cardeal Grzegorz Ryś, arcebispo de Cracóvia, que respondeu com solidariedade imediata. No domingo seguinte, ele anunciou uma coleta para Kiev, tornando pública minha mensagem. Três dias depois, ele nos escreveu que já havia chegado um milhão de zlotys à conta da Caritas. Quatro dias depois, os primeiros caminhões com geradores já estavam a caminho de Kiev. Comentando esse gesto, lembrei-me do ditado latino “Bis dat qui cito dat” – “Dá duas vezes quem dá depressa”. Na verdade, aqueles geradores eram urgentes para salvar vidas humanas. A espontaneidade dessa solidariedade também foi notada pelo Papa, que agradeceu àqueles que se mobilizaram imediatamente para ajudar. Posteriormente, também a Conferência Episcopal Polonesa e outras Igrejas europeias, particularmente a Conferência Episcopal Italiana através da Caritas, promoveram coletas de ajuda humanitária e fizeram sua contribuição. Hoje vivemos uma onda de solidariedade que vai além do apoio econômico: para nós é importante que em todas as paróquias europeias se fale da Kiev sofredora, porque a memória e a oração cristã souberam comover as consciências e os corações. Estamos profundamente gratos a todos aqueles que contribuíram para salvar vidas na Ucrânia. 

Sua Beatitude, por ocasião deste quarto aniversário, que mensagem deseja enviar à comunidade internacional e aos fiéis de todo o mundo?

“Penso que o quarto aniversário desta guerra é uma vergonha para a humanidade. É vergonhoso que, em quatro anos, a comunidade internacional não tenha conseguido deter a mão mortífera do agressor.”

Alguns historiadores observaram que, em nossas terras, a Segunda Guerra Mundial durou menos do que a atual agressão russa contra a Ucrânia. É algo que nunca deveria ter começado e que agora deve acabar. Portanto, neste triste aniversário, peço a todos que façam uma promessa a Deus e a si mesmos: construir a paz. Os políticos devem fazer o seu dever. Os homens da Igreja e a diplomacia, inclusive a cristã, devem fazer o seu. Os militares, os voluntários: cada um é chamado a fazer sua parte. Devemos fazer todo o possível para que o agressor pare. Depois virá outro tempo: o da cura do trauma e da reconstrução do que a guerra destruiu. Mas isso será outra história. Orate pro nobis. Rezem por nós.

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23 fevereiro 2026, 16:00